20/01/2020

Prova Final

Prova final é daquele jeito. É um dia em que se observa todo tipo de comportamento humano de[…]

“Quem passa direto é trem!” (frase de aluno). Quem dá ponto é costureira!” (frase de professor)

Prova final é daquele jeito. É um dia em que se observa todo tipo de comportamento humano de alunos e professores em sala de aula e fora dela.  E como não bastasse um dia, a escola elenca uma semana de provas finais decisivas na vida dos alunos.

Sim, provas escritas. Uma avaliação feita com dez questões subjetivas/objetivas sobre os assuntos trabalhados pelo professor no bimestre ou mesmo no ano letivo. Depois de tantas aulas expositivas, abordagens dialogadas, vários exercícios de fixação e trabalhos de pesquisa para fazer, vive-se o ajuste de contas do ensino-aprendizagem entre professor e aluno, como vaticina o sistema de ensino brasileiro.

O que uma prova quer provar?

No dia da avaliação, o mestre entra na escola seríssimo, impoluto e decidido em aplicar, com todas as forças do sistema de ensino, aquilo que pode ser a prova da vida daqueles alunos. A figura do diretor circula os corredores da escola como para manter a lei e a ordem que a ocasião exige. Como a turma mostra-se hiperativa porque cinquenta e cinco cabeças retinentes desdobram-se num espaço onde cabem quarenta, professores ocupam a sala de aula para a aplicação das avaliações finais. Tchau, cola!

As carteiras estão organizadas em filas regulares, ocupam toda a sala, há somente lápis e caneta sobre a carteira. O sino toca, a prova começa, o coração dispara. Alguém vez ou outra passa mal, é de praxe. Dois professores circulam pela sala silenciosos: o primeiro docente é mais tranquilo, acompanha com entusiasmo a evolução discente na prova escrita; o outro, com seu olhar panóptico, observa cauteloso a todos contra a fraude da cola inconformada.

O professor, o aluno, a escola, a sociedade estão ali. 

A praga da cola, ou pesca, é vírus pandêmico na cultura educacional brasileira, assim me disseram alguns alunos de mestrado e doutorado. A meritocracia escolar ainda se baseia no acúmulo de conhecimento para a reprodução de ideologias. Uma hora de prova e os estudantes entreolham-se. A pesca pode estar em todos os lugares possíveis: na palma da mão amiga, no bolso da calça rasgada, no inofensivo papel rolando no chão, na ida ao banheiro suspeito, no celular da moda passageira, no caderno entreaberto, na lousa mágica, no código morse corporal, nas coxas, nas bocas e principalmente no coração. Alguns alunos gastaram mais tempo fazendo uma cola do que estudando para as matérias…

Alunos, tão circunspectos em pensamentos e dúvidas: paira sobre a sala, sobre a escola, sobre o mundo, um silêncio áspero para alguns e sossegado para poucos.  Olhos desconfiados vigiam outros olhos nervosos. Uma caneta tímida arrisca uma alternativa correta. As mãos descansam num queixo cansado. Dedos frágeis tateiam uma folha vazia. Dentes riem ante a prova tão fácil para quem estudou. A mente gira procurando no teto da sala a resposta esquecida. Pernas tremem de tanta certeza. Um lápis castiga a prova no ritmo do relógio como se isso pudesse segurar o tempo. Nariz coça de irritação diante da pesca que não vem. As costas aliviam-se por saber tanto. Uma boca brava desconta sua frustração em neurônios preguiçosos. O suor na testa escorre numa sala de cinquenta e cinco silêncios.

Na semana seguinte, os discentes encontram o professor:

– Bom dia, turma! Atenção, vou entregar o resultado da prova final.

 

Sexta-feira negra (Black Friday)

  Você recebe na rede social do seu celular a mensagem de um amigo sobre a megapromoção de[…]

 

Quem é você, consumo?

Você recebe na rede social do seu celular a mensagem de um amigo sobre a megapromoção de uma grande loja de varejo. É semana de Black Friday (black fraude para alguns) e todos que podem, querem comprar o impossível.

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Aniversário

Antes a morte era para mim uma ideia estranha, abstrata e distante. Na infância, ouvia falar que fulano[…]

“Aquele que crê em mim viverá” – Jesus Cristo

Antes a morte era para mim uma ideia estranha, abstrata e distante.

Na infância, ouvia falar que fulano morrera, beltrano partiu de repente e cicrano foi desta para a melhor. Achava que morrer era mudar-se para um lugar bem longe onde a saudade não alcançasse o saudoso, mas dor dói de qualquer jeito. Não pensava muito na morte e nem ela em mim. Vivíamos cada um a sua vida (!) sem nos incomodarmos com a presença/ausência um do outro.

Nunca gostei do culto que fazem em respeito a ela: o velório. É certo que eu a encontrava quando via um animalzinho morto na rua; no acidente gratuito na esquina do bairro, na casa do vizinho. Também assistia a ela pela TV em cores frias e assustadoras. Lia sobre a morte na biografia de meus autores preferidos. E assim, um dia, a capa dura do livro da vida bateu à porta de minha casa… E daquele dia em diante a morte tornou-se para mim vital, ordinária e íntima.

Vital! Comecei a percebê-la nos aniversários mais do que em dia de finados. Porque “cada minuto de vida nunca é mais, é sempre menos”, como poetizou Cassiano Ricardo. Morte e eu aproximávamos/distanciávamos cada vez mais do ponto em que tínhamos iniciados: o nascimento. Comecei a perceber que tempo de aniversário era momento de reflexão. O lado bom da “fealdade do horrível transe” é que ela nos obriga a datar nossos planos, uma vez que não viveremos todo o sempre. E assim, o leitor e eu vamos enchendo o bagageiro da vida com viagens, amores, metas, amigos, momentos. E como o bagageiro é relativamente grande, também colocamos nele medos, disputas, tristezas, indiferenças.

“Aniversário é uma festa pra te lembrar o que resta” excogitou poeticamente Lemiski. Pensar na morte em pleno aniversário não é pessimismo. É balanço, saldo credor da existência. É vital que se pense nela, porém o mais importante é como se pensar nela: como a última música a ser dançada na festa da vida antes que o baile da existência termine. Seus dois mistérios são estes: como e quando ela vem.  Definitivamente “esta vida é uma estranha hospedaria de onde se parte quase sempre às tontas”, me ensinou outro bardo, Mário Quintana.

Ordinária!? Da abstração a morte evoluiu para uma situação banal. Uma vez inevitável, paciência! Até ela chegar é ocupar-se da existência, da própria vida, que da vida dos outros a eles mesmos interessam. O complicado em ser esta situação ordinária – a de morrer – é que a partida deixa uma saudade danada para quem fica do lado de cá. Aí se chora, aí se queixa a Deus acusando-o de maldoso quando esquecemos que morrer faz parte do espetáculo da vida e esta parte foi escolha nossa – “o salário do pecado é a morte”, dizem as Escrituras. Nessa circunstância, o tempo, senhor dos instantes, mestre das passagens, general das horas, o tempo camufla a dor da saudade e muda o cenário da solidão para algo mais possível.

Íntima? Nos dias dos anos da vida de qualquer pessoa, ela está lá fora, assistindo à festa natalícia para lembrar: “Vamos, viva!”. Nisso, fica uma intimidade assaz desconcertante e atrevida, mas não cruel ou rígida. O aniversário chega e junto dele a velhice em doses homeopáticas, e lá, no fim da curva – porque se fizéssemos a curva seríamos imortais imorais – lá no fim da curva ela espera pacientemente.

– Vá-se embora daqui! dizemos todos quando ela passa bem perto de nós.

Os elos da vida de uma pessoa são os pais. Cada um deles é um semicírculo que juntos formam um círculo completo de onde surgimos. De lá vieram você e eu. E quando o círculo se rompe, quando uma parte dele vai embora, ficamos incompleto, na evidência de sermos atingidos, sorteados, apresentados a esta ideia agora vital, ordinária e íntima.

Ponto final.

“Dizem que sou louco”

  (crédito da foto: https://www.trestempos.com.br/louco-eu/) Dizem que toda rua tem um doido. Aliás, todo bairro, toda cidade ou planeta[…]

 

(crédito da foto: https://www.trestempos.com.br/louco-eu/)

Dizem que toda rua tem um doido. Aliás, todo bairro, toda cidade ou planeta deve ter seus doidos. Ainda na infância conheci alguns deles; na adolescência apareceram outros mais e na atual fase adulta, percebi que o mundo inteiro é um manicômio de portas abertas. Eles são tantos que parece que nós, os ditos normais, tornamo-nos minoria e eles a regra banal desse sistema de coisas que é o mundo.

Em São Luís do Maranhão, na infância serena e cheia de esperanças, conheci Adalto. Adalto era um rapagão magro, preto-petróleo, voz áspera, olhos vigilantes, sempre com uma vara na mão. Era o caçador oficial das pipas de rua, pipas cortadas por cerol rival na disputa da molecada; era a pipa se perder no azul e o negro correr como papa-léguas rumo à conquista lúdica. Não havia obstáculo, muro agigantado, cachorro raivoso, vizinho ameaçador: Adalto saltava sobre todos eles em direção à sua monomania. Ele só falava de pipa, fazia pipa, capturava, consertava, comprava… Sua vida era uma pipa. Algumas pessoas – os derrotados do cerol – detestavam Adalto e chamavam-lhe de doido velho, preto maluco, zé pilantra; até chegaram a jogar-lhe pedras e acionar a polícia contra ele. Eu respeitava o gigantismo de Adalto e por isso surgiu entre nós apreço. Quando ele não tomava os remédios, tinha convulsões no meio da captura das pipas. Todas ficávamos com medo, sem entender direito tudo aquilo. Mudei-me de São Luís, mas comigo levei a lembrança de Adalto, um gigante pássaro negro que só queria voar num céu de pipas azuis.

Teresina tornou-se a cidade universitária de minha fase adulta, cheia de estudos, enganos e desafios. A capital conta com o Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu. Lá internaram Esteves Faustino que depois de fugir do tratamento médico, vivia pelos pontos de ônibus da cidade à procura de sua mãe. “Mamãe vai voltar qualquer horinha, você vai ver!”. Dava dó: ele observava quem descia do busão na esperança de ver sua mãe; falava sozinho por horas até um coletivo se aproximar, aí ficava naquele silêncio inocente, todos desciam do ônibus e nada da mãe chegar. “Mamãe não veio hoje, mas amanhã ela vem”. O povo contava que depois de uma gravidez adolescente, a mãe de Faustino tomara remédios para abortar. Ele nasceu sem problemas, mas a cólera da mãe e os abusos do padrasto fizeram Faustino trancar-se num mundo de amor por uma mãe que não existia para ele. Certo dia, desceu de um carrão uma madame a quem Faustino lançou-se em prantos. “É mamãe, mamãe voltou pra mim!”; a mulher gritou assustada, o povo afastou o rapaz da madame que saiu desconfiada do local. Faustino jura que aquela mulher é a sua mãe. Dia seguinte, lá está ele à espera de uma mãe mais doente do coração do que Faustino da cabeça.

Piripiri me apresentou a Doida do Mercado quando eu, já cansado da bondade humana, fui trabalhar naquela cidade. Antes, contavam que a vida dela era correr atrás de políticos da região; por acreditar demais, decepcionou-se profundamente com os partidos que lhe tiraram o pouco que tinha. Caiu na miséria e no desespero, passou fome e frio, viveu a solidão e o escárnio amigo. Conhecedora os podres políticos, começou a abrir o verbo, mas para muitos, a pobreza extrema prejudicou-lhe a sanidade.  Agora ela passa os dias no mercado central da cidade, trabalhando para os vendedores em troca de comida. Estatura e humor baixos, olho e juízo vesgos, cabelo e paciência curtos. Às vezes, algum feirante confia-lhe uma faca para descascar frutas. Caução nessa hora: se passa um político qualquer, a Doida do Mercado explode sua loucura e propinas rompem entre denúncias reais e fictícias com nomes públicos e número de contas privadas. Mas num país como o nosso, isso não é loucura. É normalidade.

Adalto, Esteves Faustino, a Doida do Mercado. Indivíduos abandonados pela vida, gente que sorri, chora e sangra como a gente, homens e mulheres que desafiam nossa lógica porque não amam  loucuras modernas pelas quais nós, pessoas de bem, matamos ou morremos. Por serem estranhos, loucos como a gente, eles não deixam de ser humanos. Ao seu modo, frente à crueza da vida, eles são felizes. “Dizem que sou louco por pensar assim / Se sou muito louco por eu ser feliz / Mas louco é quem me diz /Que não é feliz, não é feliz”.

Perna de pau, mão de ferro

A superação está em todos os lugares e acompanha a vida de cada um de nós.  Perna de[…]

A superação está em todos os lugares e acompanha a vida de cada um de nós. 

Perna de pau! Este era o apelido que os amigos de escola davam a mim quando jogávamos futebol nos tempos de colégio. Eu nunca fui feliz com a bola no pé: os amigos de turma não me deixavam esquecer isso: sempre me escalavam por último nas partidas de futebol.

Tínhamos 13 anos. Eu, sem fôlego profundo nos pulmões, adolescente nerd e tímido de nascimento, esperava alguém olhar para mim – ter esperança ou piedade – e me escalar para jogar no time da turma.

Como eu ficava por último nas escalações do time, estrava em campo com a vantagem dos adversários cansados. Mas coisa difícil era a bola chegar aos meus pés. Eu corria a quadra, a escola, o mundo inteiro atrás dela. Quando finalmente alcançava a bola (oba, peguei a bola!), uma leva de meninos lançava-se na direção da redonda para tirar de mim aquilo que eu mal havia tocado com os pés (ou teria sido com o coração!?).

 

Os jogos escolares

No meio do ano, vieram os Jogos Interclasses – o campeonato das salas de aula, a olimpíada dos alunos, a copa do mundo das turmas do colégio. Feliz, fui escalado na condição de reserva do zagueiro da minha turma. Os jogos seguiram: várias substituições e nada de mim.

Mas já na final do Interclasses, o diabo do nosso goleiro se machucou numa defesa espetacular e botaram a mim (nessas horas lembram da gente!), botaram a mim para proteger o gol e substituir o melhor goleiro do Interclasses.

O jogo corria 0 x 0. Aí veio o pênalti duvidoso contra minha turma, contra mim. O garoto que ia bater o pênalti, chamavam-no de incrível Hulk: tinha uma bomba no pé, seu chute entortava a bola de tanta força empregada naquele coice humano.

Do outro lado do pênalti, estava eu, o reserva do zagueiro com a missão impossível de defender a bomba do Hulk. Sentia-me diante de um pelotão de fuzilamento. Era o incrível Hulk, o time dele, a escola dele que bateria o pênalti contra mim…

 

A hora da verdade

Silêncio mortal. O juiz sem juízo apita para Hulk matar o Homem-Formiga. O menino dá um chutão. A bola dispara a mil quilômetros por segundo. E eu tenho que decidir: “se eu defender a bola, serei louvado pelos colegas, querido pelas garotas, o novo herói da escola; porém, se eu falhar, serei excluído da existência colegial, reduzido a vilão odiado por todos e xingado pelo tempo que existir escola”. Tudo isso cogitei buscando a aprovação dos outros. No que eu parei para pensar, deixei de agir e… Gooool!

A vitória do Hulk passou por minhas mãos, bateu na trave e entrou no gol. Por conta disso, ganhei dos meus queridos colegas o irônico apelido de mão de ferro. No ano seguinte não participei do Interclasses da escola (mais crescido, vi que não tinha que provar nada a ninguém, senão a mim mesmo).

Vi também que meu talento não estava nos pés, mas nestas mãos que serviram naquele ano para torcer pelo futebol da minha turma e hoje servem para contar histórias como essa.

 

Jornal dos contos de fadas

Coisa difícil é saber o que é jornalismo nos dias de hoje. Atualmente as notícias falsas invadem as[…]

Contos de fadas moderno: três porquinhos contra o lobo mal da pós-verdade

Coisa difícil é saber o que é jornalismo nos dias de hoje. Atualmente as notícias falsas invadem as redes sociais e misturam fatos a fakes, news a nóias. E a ficção, o que tem a dizer? Aqui vão as versões de como seriam as notícias dos contos de fada em tempos de comunicação sensacionalista.

 

Médica é presa após receber dinheiro da máfia das próteses

A médica Branca de Neve foi presa esta manhã em sua mansão com 500 mil reais pagos pela máfia das próteses. A médica implantava prótese e órteses em pacientes saudáveis no hospital público de Campo Maior. A Polícia Federal cercou a mansão Castelo Branco, de propriedade da médica, e prendeu em flagrante Branca de Neve recebendo propina de sete anões empresários envolvidos no esquema fraudulento. O agente federal Príncipe Valente continua à procura de dois integrantes da quadrilha, Madrasta Malvada e Fiel Caçador, que fugiram da mansão por uma passagem secreta. “Um espelho mágico”, informou o agente.

 

Avó e neta denunciam compra de votos

Já faz dois meses que as eleitoras Chapeuzinho Vermelho, 16, e Vovozinha, 80, denunciaram o candidato Lobo Esfomeado ao TRE por compra de votos. Lobo Esfomeado, candidato a deputado federal, compra os votos dos eleitores da humilde Floresta Mágica na promessa de lhes oferecer cestas básica, sacos de cimento e emprego-fantasma no serviço público da região. Trilhando um caminho perigoso, Fiel Lenhador, juiz do TRE, arquivou o processo do futuro deputado e suspendeu o título eleitoral de Chapeuzinho Vermelho e Vovozinha por perturbarem a ordem pública dos poderosos da região.

 

Professora sofre ameaças de alunos na escola

Dona Bruxinha, 40 anos, é a professora mais querida do colégio Casa de Doces, uma escola para alunos do ensino fundamental. Mas depois de chamar a atenção de dois alunos que bagunçavam sua aula, a docente vem sofrendo constantes ameaças. Os dois alunos, os irmãos João e Maria, infernizam a vida da professora em redes sociais diariamente. Dona Bruxinha também afirma ter sofrido agressões físicas dos irmãos na frente da escola. O último abuso praticado por eles foi espalhar migalhas de pão no computador da professora Bruxinha. Os pais dos agressores, Lenhador e Esposa, nada fizeram porque são os diretores da escola e não irão expulsar os próprios filhos. A professora Bruxinha afastou-se da escola e começa seu tratamento psicológico hoje.

 

MST ocupa fazenda de agroempresário

Ocupações, tiros, gritos e muito corre-corre marcaram o fim de semana no Bosque Encantado, região próxima a Brasília. O líder do MST, Gigante ocupou uma das fazendas onde são plantados feijões mágicos pertencentes ao agroempresário João Pé de Feijão. Gigante afirma que o empresário furtou sua galinha de ovos de ouros na história original. Ele também acusar João Pé de Feijão de manipular deputados e senadores para impedir a discussão sobre a reforma agrária.  Gigante permanece na maior cela da Polícia Federal, já o empresário João Pé de Feijão será investigado pelo crime de estelionato: ele afirma vender feijões mágicos quando, na verdade, planta soja transgênica.

 

Cidadãos com necessidades especiais lutam por acessibilidade

“Acessibilidade, eu e minha esposa apenas queremos acessibilidade”. Este é o desejo do casal Soldadinho de Chumbo e Boneca Bailarina que sofrem restrições no dia a dia por conta de suas necessidades especiais. Ele é cadeirante e digitador; ela deficiente visual e recepcionista: ambos trabalham numa empresa que fica no bairro onde moram. Mas as calçadas desniveladas, os sacos de lixo soltos nas ruas e os motoristas impacientes tornaram-se empecilhos na vida do casal. No trabalho, Soldadinho de Chumbo e Boneca Bailarina afirmam que reuniões são realizadas sem a presença deles. “É como se fôssemos deficientes de tudo”, alega Bailarina. O casal atesta que a maior deficiência vivida por eles são os obstáculos encontrados no coração das pessoas.

 

Jovem rica furta sapato de cristal e alega inocência

Um sapatinho de cristal. Este foi o objeto furtado na joalheria Contos de Fadas pela universitária Cinderela, 19 anos. A jovem pertence a uma família de classe alta de Campo Maior e tem várias passagens pela delegacia. Cinderela alega inocência, mas a lista de furtos da garota é grande: bolsas de couro de jacaré, relógios suíços, diamantes africanos, pentes de ouro e perfumes importados. A dona da joalheria, Fada Madrinha, diz que este é o sexto furto da patricinha em sua loja. O advogado da acusada, Príncipe Enamorado, afirma que sua cliente é inocente, pois ela sofre de cleptomania, e que oa culpa é da madrasta de Cinderela que não soube educar a pobre menina rica.

 

Pastor explora a fé de três porquinhos

Um lobo mal, duas versões, três porquinhos. Nesta manhã, Cícero, Heitor e Prático, três porquinhos da Igreja Suíno Sagrado, acusaram o pastor Lobo Mal de desvio de dinheiro. Os três porquinhos afirmaram ao Ministério Público que ofertaram todos os seus bens no dízimo da Igreja para financiar uma excursão que nunca aconteceu. O pastor Lobo Mal desapareceu na Floresta Negra. A polícia não encontrou rastro do pastor larápio. Revoltados, os três porquinhos brigaram entre si e cada um seguiu sua vida: Cícero criou a seita Chiqueiro Suíno, uma sociedade secreta onde só entram leitões machos; Heitor voltou ao catolicismo romano; Prático ficou ateu, morreu de trombose e entrou para o reino dos céus.

E todos os leitores viveram iludidos para sempre…

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Microcontos: Bíblia Moderna – Os Evangelhos

E se os episódios da Bíblia tivessem ocorridos e escritos nos tempos de hoje? Com uma dose de[…]

A bíblia ao alcance da mão

E se os episódios da Bíblia tivessem ocorridos e escritos nos tempos de hoje? Com uma dose de bom humor (sem perder a fé!), aqui segue a versão do Novo Testamento na era digital…

A encarnação do verbo

No princípio era o Verbo… Mas hoje o verbo é clicar, acessar, navegar…

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Anunciação de Maria

Quando terminou de faze a ultrassonografia computadorizada de Maria, o médico Gabriel olha para a virgem e diz: “Parabéns, é menino!”

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Nascimento de Jesus

Manchete de portal de notícias: “Filho de mulher virgem com carpinteiro nasce em barraco de periferia”.

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Os magos

Depois de nascer na pobreza extrema, os magos Unicef, Unesco e FAO deram ao menino Jesus e sua família três presentes mágicos: casa, escola e comida.

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Batizado de Jesus

João Batista diz a Jesus:

– Eu te disse: hoje em dia festa de batizado sai muito mais caro!

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Tentação no deserto

Depois de passar quarenta dias e quarenta noites jejuando, Jesus é tentado pelo diabo do fast food do Macdonald.

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Os apóstolos

Em coletiva à imprensa, o técnico Jesus de Nazaré anuncia que vai escalar o time completo contra o Satanás Futebol Clube.

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Expulsão do vendedores do templo

Contas de bancos, dízimos vultosos, imagens caríssimas, terrenos no céu… Jesus Cristo detonou a fé mercantilista das igrejas Reze-e-Pague.

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A Santa Ceia

Nada de comidas sofisticada, restaurantes nababescos ou requintes luxuosos: a melhor ceia do mundo foi regada a pão e vinho.

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Ressurreição

Jesus precisou apenas de 3 dias para seu nome ecoar por toda a eternidade (morra de inveja, Satanás!).

Fazer poemas…

“FAZER POEMAS É FÁCIL COMO AMORDAÇAR UM LOBO” Paulo Machado, poeta piauiense, já sabia do desafio de fazer[…]

“FAZER POEMAS É FÁCIL COMO AMORDAÇAR UM LOBO”

Paulo Machado, poeta piauiense, já sabia do desafio de fazer poemas. Ele avisou, poucos ouviram…

 

Lápis Verde I

Poema

Palavra feia

Poeta

Nem profissão é…

 

Pobre de ti viver para uns versos

Porque o leitor sofre de alexia

Não quer ler, nem sabe ler, mal pode ler.

Já viu, né?

Vai ganhar menos que uma prostiputa.

 

Um pintor com um Picasso só

Pode ficar rico, capitalista

Um Carlos Drummond de Andrade

Não compra nem a tinta da tela de

Um picasso capitalista.

 

Pobre da Literatura

Ou pobre de ti.

Há poesia em um conflito mundial?

Numa guerra o Sargento diz

Ao Soldado-Poeta:

– Por favor, só não atire flores ao inimigo!

 

 

Crônica tem dessas coisas

E uma das coisas que me deixam danado da vida com a crônica é esse seu jeito ladino[…]

“Escrever é perigoso”

E uma das coisas que me deixam danado da vida com a crônica é esse seu jeito ladino de não se dar assim tão facilmente. Grosso modo, esta é uma peculiaridade das artes e também das ciências, creio eu. Mas como não faço química fina, restrinjo-me ao universo das palavras, esse carrasco rasgo que só se entrega quando bem se entende.

“Escrever é perigoso”, já nos advertia Clarice Lispector. Escrever estórias condensadas como são os contos e crônicas é mergulhar numa densidade desafiadora. Assim são os textos manifestos numa das mais antigas formas de expressão humana, a escrita. E é assim esse seu modo de ser, não ser.

Devir

Como se trata de um gênero tipicamente brasileiro, misto de literatura e jornalismo, a crônica também tem seu modus operandi, suas articulações e seu jogo de esconde-acha-esconde. Homens e mulheres deixaram suas marcas na literatura e no espírito dos leitores ao escreverem bons textos que captaram nossa essência: a de ser humano.

Ora séria e reflexiva, ora duvidosa e moleca, às vezes a crônica fica por aí, de cara para a rua, a caminhar com os pedestres na orla do açude, no sorriso da morena piauiense, na traquinagem do cão com o gato, na vassoura preguiçosa de segunda-feira. E o cronista, pensativo e desocupado, doido e político, não percebe as sutilezas dos instantes.

Escrever é dez por cento inspiração e noventa por cento transpiração, ensinou Graciliano Ramos. E associado à natureza da crônica está o tempo. Tempo e texto, dois moinhos de vento contra esse quixotesco gigante chamado ser humano.

A hora e a vez da crônica

Mas a hora vem chegando e todo homem tem a sua hora e a sua vez. A culpa é do tempo – quem inventou o relógio? O dono do pequeno jornal local vai me ligar a qualquer instante e me dirá com aquela voz: “Cadê a crônica, moço? Estou fechando a edição e só e falta seu material”. “Já vou, já vou, estou enviando o texto mais tarde”.

Saio para a rua e olho para o céu – meu Deus, quanta nuvem no céu! Crônica tem realmente essa vantagem: a de ser problemática por vocação. Percebo agora o drama existencial-literário por que passou Rubem Braga, Rachel de Queirós, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Fernando Sabino e tantos cronistas diante do fechamento das redações de jornal.

Mas se houvesse para mim ao menos um Recado ao Senhor 903, uma Casa de Farinha, uma Maria José, uma Amizade Sincera, ao menos A última crônica… Definitivamente este é um tempo de homens partidos, e como afirmou um cantor, a palavra que faz a gente diferente dos outros animais, a palavra está presa tanto em mim quanto no mundo.

Escrever, pensar, sentir

Curioso. A princípio parecia tão fácil. O pedido para atuar no jornal como cronista, a liberdade para pensar e escrever o que eu quisesse, o diálogo com o leitor do jornal impresso. E o material de trabalho, então – computador e percepções da realidade. Computadores não faltam, e se faltar, ainda existem o bom papel e velha caneta. Mas as pessoas, as histórias, as experiências, as vicissitudes do momento, as circunstâncias mais humanas possíveis!?

Meu chefe lê a crônica pré-matura e diz: “Dá pra publicar!”. Saio da redação pensando nos leitores e estes pensarão em mim quando se depararem com aquela crônica incipiente e dirão: “Que foi que aconteceu com o cronista este mês?”, “Acho que não estava inspirado com antes!”, “Devia ao menos escrever uma crônica sobre isso!”.

Tentei, pessoal, juro que tentei.

Um salto para o futuro

Começo de ano pede algumas reflexões sobre a  vida na cidade. Segue um testemunho do presente para o[…]

Começo de ano pede algumas reflexões sobre a  vida na cidade. Segue um testemunho do presente para o futuro. 

“Como será o amanhã? Responda quem puder”

O que quererá saber o cronista do futuro sobre a cidade de Campo Maior? Daqui a 100 anos o que dirão as pessoas sobre este município brasileiro? O que quererão saber historiadores, ciborgues, sociólogos, alienígenas, bisnetos ou cibernautas sobre esta pequena cidade?

Atualmente vivemos na pré-história do espírito humano porque nunca saímos da idade de ferro planetária, assim diria o educador francês Edgar Morin ao historiador local Celson Chaves. Cada historiador aponta uma origem para esta cidade centenária: uma fazenda perdida no tempo, uma família oligárquica reinante, uma igreja cristã das antigas… O certo é que por gerações diversas, o sangue do índio extinto e o suor do negro escravizado construíram essa cidade de boas famílias. Neste século 21, as fazendas seculares de Campo Maior continuam a existir e a desafiar a reforma agrária – não há notícias de sem-terra ocupando as charnecas da região.

Campo Maior possui rios – Longá, Surubim e Jenipapo, e um açude grande (está mais para lagoa morta!). Todos eles sofrem com a agressão ambiental nossa de cada dia: assoreamento, lixo e destruição. Mas há também outros rios, açudes e barragens de menor porte na cidade que ainda escapam à malevolência local. A água que chega às residências é de qualidade duvidosa para os rins de muita gente Ainda há reservas de água no subsolo, diversos poços espalhados pela região e muito desperdício urbano.

O açude permanece sujo e o povo continua a fazer caminhadas em sua orla para manter a saúde individual e a sociabilidade hospitaleira em dia, como diz o hino-plágio da cidade. A carnaúba (Copernicia prunifera) é árvore em que tudo se aproveita e sobrevive a estiagens regulares, todavia não se sabe se ela resistirá à especulação imobiliária e às alterações climáticas apocalípticas do presente futuro.

“O homem é um animal político”: há muitos animais a solto em Campo Maior, bons homens e corruptos políticos livres. A prefeitura e o comércio local ainda são as principais fontes de emprego na região. Famílias tradicionais vivem a disputar a mamata da administração pública. São clãs reacionários ora rivais, ora colegas de ocasião que se revezam no poder político há décadas. Mas há por aí uma nova geração de famílias que dizem, as línguas populares, veio para ficar et secula in seculorum.

Comerciantes dividem-se entre sonegar impostos ou pagar funcionários; empresários fazem dinheiro como podem, não como devem – culpa do capitalismo selvagem. Há empresas que pedem o melhor de cada funcionário, mas “enquanto o operário veste a camisa da empresa, o patrão veste a roupa de marca”. Salário mínimo e carteira de trabalho assinada são coisas raras. Profissionais liberais – engenheiros, jornalistas, advogados, prostitutas – disputam o cliente no restrito mercado da cidade.

Os festejos de Santo Antônio são o maior evento religioso da região dos carnaubais. A política e o comércio local alavancam-se com as treze noites de fé e festa em toda a Campo Maior. A praça Bona Primo vira um mundaréu de oportunidade para muita gente. A politiquice e seus babões oficiais, com seus sorrisos de bolso, profanam a festa do santo quando arrematam as joias do leilão e vão distribuí-las aos correligionários pobres de espírito e de cargo nas mesas das barraquinhas. Cada noite das trezenas é dedicada a um segmento social. Os esquecidos vaqueiros são lembrados pelas autoridades em uma dessas noites; depois disso, os cowboys locais voltam às fazendas de seus coronéis para o ostracismo de sempre.

O povo local somos de um jeito par e ímpar, diferentes e iguais a todo o resto do Brasil e do mundo. Tipos humanos? Aqui tem gente boa, grupinho mão-de-vaca, heróis do Jenipapo, ladrão felaputista, amigo do peito, inimigo estribado, pai coruja, mãe ganso, filho égua, família sagrada, parente afobado, menino sabido, adolescente rebelde, idoso 10 anos, mulher inteligente, homem chulado, criança a balde, imortal falecido, atleta sem patrocínio, político bom de peia, gay assumido, marombeiro selfista, comandre prendada, vizinho intrometido, partidário-capacho, cadeirante ativista, bebum infarento, vaqueiro aboiador, mendigo de corpo e alma, rico pobre de espírito, religioso de verdade, intelectual medíocre, jovem consciente, visitante fuleiro, universitário bairrista, playboy de merda, artista sonhador, patrão carrasco, trabalhador honesto e as classes sociais – os pobres, os nobres e os esnobes.

Temos muitas escolas e bons professores, mas alguns alunos não se preocupam em aprender. Salvo exceções, a saúde local é tão boa que os doentes daqui vão se tratar em Teresina. Nos tribunais da lei e da ruas, se alguém fica dividido entre a justiça e o direito, escolhe a verdade e corre. Não há meninos de rua, nem favelas por aqui, mas a periferia existe como realidade de vilas e povoados invisíveis ao poder público. No trânsito a mobilidade urbana assusta pedestres e motoristas preocupados com semáforos desorientados, vias sem sinalização e acidentes evitáveis. A feira é boa e sortida de tudo.

No esporte há condições de investir em jovens atletas que não têm um ginásio que preste para treinar. Há muitos universitários na região com boas pesquisas para publicação. Motéis e bares crescem vertiginosamente para o entretenimento geral. A fé evangélica é uma realidade para católicos, ateus e iluminati. Cultura se resumo a festa de forró na praça, teatro desativado, gastronomia gostosíssima e a lançamento de livros locais que quase ninguém lê. Alguns portais e rádios noticiam hoje o que vai acontecer amanhã.

Isto é Campo Maior nas primeiras décadas do século 21. Não sabemos o que será do mundo daqui a 100 anos, mas os fatos aqui apresentados sobre este município ficam para julgamento da posteridade. Este é, pois, a cápsula do tempo de uma testemunha ocular da vida local.

Aqui escreveu o cronista do passado para os habitantes do futuro.