21/01/2019

Um salto para o futuro

Começo de ano pede algumas reflexões sobre a  vida na cidade. Segue um testemunho do presente para o[…]

Começo de ano pede algumas reflexões sobre a  vida na cidade. Segue um testemunho do presente para o futuro. 

“Como será o amanhã? Responda quem puder”

O que quererá saber o cronista do futuro sobre a cidade de Campo Maior? Daqui a 100 anos o que dirão as pessoas sobre este município brasileiro? O que quererão saber historiadores, ciborgues, sociólogos, alienígenas, bisnetos ou cibernautas sobre esta pequena cidade?

Atualmente vivemos na pré-história do espírito humano porque nunca saímos da idade de ferro planetária, assim diria o educador francês Edgar Morin ao historiador local Celson Chaves. Cada historiador aponta uma origem para esta cidade centenária: uma fazenda perdida no tempo, uma família oligárquica reinante, uma igreja cristã das antigas… O certo é que por gerações diversas, o sangue do índio extinto e o suor do negro escravizado construíram essa cidade de boas famílias. Neste século 21, as fazendas seculares de Campo Maior continuam a existir e a desafiar a reforma agrária – não há notícias de sem-terra ocupando as charnecas da região.

Campo Maior possui rios – Longá, Surubim e Jenipapo, e um açude grande (está mais para lagoa morta!). Todos eles sofrem com a agressão ambiental nossa de cada dia: assoreamento, lixo e destruição. Mas há também outros rios, açudes e barragens de menor porte na cidade que ainda escapam à malevolência local. A água que chega às residências é de qualidade duvidosa para os rins de muita gente Ainda há reservas de água no subsolo, diversos poços espalhados pela região e muito desperdício urbano.

O açude permanece sujo e o povo continua a fazer caminhadas em sua orla para manter a saúde individual e a sociabilidade hospitaleira em dia, como diz o hino-plágio da cidade. A carnaúba (Copernicia prunifera) é árvore em que tudo se aproveita e sobrevive a estiagens regulares, todavia não se sabe se ela resistirá à especulação imobiliária e às alterações climáticas apocalípticas do presente futuro.

“O homem é um animal político”: há muitos animais a solto em Campo Maior, bons homens e corruptos políticos livres. A prefeitura e o comércio local ainda são as principais fontes de emprego na região. Famílias tradicionais vivem a disputar a mamata da administração pública. São clãs reacionários ora rivais, ora colegas de ocasião que se revezam no poder político há décadas. Mas há por aí uma nova geração de famílias que dizem, as línguas populares, veio para ficar et secula in seculorum.

Comerciantes dividem-se entre sonegar impostos ou pagar funcionários; empresários fazem dinheiro como podem, não como devem – culpa do capitalismo selvagem. Há empresas que pedem o melhor de cada funcionário, mas “enquanto o operário veste a camisa da empresa, o patrão veste a roupa de marca”. Salário mínimo e carteira de trabalho assinada são coisas raras. Profissionais liberais – engenheiros, jornalistas, advogados, prostitutas – disputam o cliente no restrito mercado da cidade.

Os festejos de Santo Antônio são o maior evento religioso da região dos carnaubais. A política e o comércio local alavancam-se com as treze noites de fé e festa em toda a Campo Maior. A praça Bona Primo vira um mundaréu de oportunidade para muita gente. A politiquice e seus babões oficiais, com seus sorrisos de bolso, profanam a festa do santo quando arrematam as joias do leilão e vão distribuí-las aos correligionários pobres de espírito e de cargo nas mesas das barraquinhas. Cada noite das trezenas é dedicada a um segmento social. Os esquecidos vaqueiros são lembrados pelas autoridades em uma dessas noites; depois disso, os cowboys locais voltam às fazendas de seus coronéis para o ostracismo de sempre.

O povo local somos de um jeito par e ímpar, diferentes e iguais a todo o resto do Brasil e do mundo. Tipos humanos? Aqui tem gente boa, grupinho mão-de-vaca, heróis do Jenipapo, ladrão felaputista, amigo do peito, inimigo estribado, pai coruja, mãe ganso, filho égua, família sagrada, parente afobado, menino sabido, adolescente rebelde, idoso 10 anos, mulher inteligente, homem chulado, criança a balde, imortal falecido, atleta sem patrocínio, político bom de peia, gay assumido, marombeiro selfista, comandre prendada, vizinho intrometido, partidário-capacho, cadeirante ativista, bebum infarento, vaqueiro aboiador, mendigo de corpo e alma, rico pobre de espírito, religioso de verdade, intelectual medíocre, jovem consciente, visitante fuleiro, universitário bairrista, playboy de merda, artista sonhador, patrão carrasco, trabalhador honesto e as classes sociais – os pobres, os nobres e os esnobes.

Temos muitas escolas e bons professores, mas alguns alunos não se preocupam em aprender. Salvo exceções, a saúde local é tão boa que os doentes daqui vão se tratar em Teresina. Nos tribunais da lei e da ruas, se alguém fica dividido entre a justiça e o direito, escolhe a verdade e corre. Não há meninos de rua, nem favelas por aqui, mas a periferia existe como realidade de vilas e povoados invisíveis ao poder público. No trânsito a mobilidade urbana assusta pedestres e motoristas preocupados com semáforos desorientados, vias sem sinalização e acidentes evitáveis. A feira é boa e sortida de tudo.

No esporte há condições de investir em jovens atletas que não têm um ginásio que preste para treinar. Há muitos universitários na região com boas pesquisas para publicação. Motéis e bares crescem vertiginosamente para o entretenimento geral. A fé evangélica é uma realidade para católicos, ateus e iluminati. Cultura se resumo a festa de forró na praça, teatro desativado, gastronomia gostosíssima e a lançamento de livros locais que quase ninguém lê. Alguns portais e rádios noticiam hoje o que vai acontecer amanhã.

Isto é Campo Maior nas primeiras décadas do século 21. Não sabemos o que será do mundo daqui a 100 anos, mas os fatos aqui apresentados sobre este município ficam para julgamento da posteridade. Este é, pois, a cápsula do tempo de uma testemunha ocular da vida local.

Aqui escreveu o cronista do passado para os habitantes do futuro.

um aluno muito especial

Dona Maria e Seu José são chamados pela diretora da escola para falar do filho deles, uma aluno[…]

Dona Maria e Seu José são chamados pela diretora da escola para falar do filho deles, uma aluno da 4ª série.

– Senhores pais, chamei-os aqui porque o filho de vocês está dando muito o que falar aqui em nossa escola.

– O que aconteceu desta vez? Responderam os pais a uma só voz.

A diretora continuou, dirigindo-se à mãe do menino-santo.

– Bom, Dona Maria, é que seu filho anda operando façanhas pelo colégio: ele resolveu a miopia de uma aluna usando barro e saliva, secou um pé de goiaba que estava prestes a cair sobre a escola, curou o pé quebrado de um colega de turma e está transformando a água do bebedouro em achocolatado na hora do recreio!

– Sabe, senhora diretora, é que nosso filho Jesus de Nazaré é um menino muito, muito especial, disse Dona Maria.

– É Verdade, interveio Seu José. Outro dia levamos Jesus para assistir a uma aula de reforço, nos desencontramos e fomos reencontrá-lo dando aulas aos mestres e doutores do Templo.

– Sim, eu ouvi falar desse episódio, informava a diretora austera.

– Pois é, Jesus é muito estudioso, disse Dona Maria. Ele adora contar parábolas, mas não é muito de escrever. Os amiguinhos Mateus, Marcos, Lucas e João é que registram suas histórias. Jesus já leu o Antigo Testamento umas mil vezes, a senhora me acredita!?

– Acredito, mas o problema é que Jesus arrasta multidões por onde passa e isso está deixando a escola alvoroçada, advertiu a diretora.

– Sabemos disso, mas garantimos que Jesus não faz isso por mal. Ele é um menino bom, ajuda todo mundo, é capaz de dar a vida por cada um de nós… Vai pro céu em vida, desabafa Seu José.

– Vejam bem a minha situação: outro dia, lembrava a diretora, Jesus tumultuou a aula de natação quando ele começou a andar por sobre as águas e todas as crianças queriam fazer a mesma coisa, pode isso!?

– Concordo, senhora diretora, mas quando a merenda da escola acabou, foi Jesus quem pegou cinco pães e dois copos de suco da cantina, multiplicou tudo e teve merenda para o resto do ano letivo, não é verdade? Interpelou Seu José.

– Sim, não posso negar que o aluno Jesus salvou a todos nós nesse dia… Só peço aos senhores mais discrição nas ações de seu filho.

– Jesus vai receber alguma advertência ou suspensão por essas ocorrências? Indagava Seu José.

– Não se preocupem, ninguém vai crucificar o seu filho!

– É mesmo!? Respondeu desconfiada Dona Maria. Tudo bem, nós falaremos com Jesus.

– Ah, antes que eu me esqueça, nesta semana o prefeito Herodes e o governador Pôncio Pilates irão inaugurar a quadra de esportes de nossa escola e Jesus fará um discurso sobre… – a diretora mexe em papéis avulsos – achei: Jesus discursará sobre um notícia nova, boa… Uma Boa Nova, assim ele me disse.

– Mas será que essas autoridades não vão se zangar com o discurso da Boa Nova de nosso filho Jesus? Quis saber José.

– Que nada, disse a diretora, daqui a dois mil anos ninguém vai lembrar mais disso!

– Será? Perguntou Maria.

heróis e super-heróis

Heróis e super-heróis Meus primeiros heróis foram meus pais. Eles me ensinaram a ler, a escrever e me[…]

Heróis e super-heróis

Meus primeiros heróis foram meus pais. Eles me ensinaram a ler, a escrever e me educaram para ser gente. Pedreiro super-responsável, meu pai acordava cedo e voava para o trabalho. Com sua forma humana, transformava desafios em trabalho, ofício em esforço e suor em pão. Voltava da lida demolido do cansaço, mas com um sorriso nos dentes de ver a esposa e os filhos bem. Minha mãe tinha o poder de ler mentes: sabia quando um dos filhos aprontava pela casa. Com sua visão de raio X, sabia escolher as melhores frutas e hortaliças na xepa da semana. Rápida como um raio, conseguia levar os filhos à escola, deixar a casa em dia, cuidar da família inteira e ainda me comprar revistinhas em quadrinhos.

Contos de fadas modernos

Anos 80. Meus primeiros super-heróis surgiram através das mídias. A cultura pop chegara à sua extensão máxima nas últimas décadas do século 20. Super-heróis surgiam de todos os lados: Batman, Homem-Aranha, Flashman, Liga da Justiça, X-Men, Super-Homem, Jaspion, Caverna do Dragão, Tartarugas Ninja, Cavaleiros do Zodíaco, Chapolim Colorado. Foram muitas as aventuras que rechearam minha adolescência de histórias fantásticas: elas foram meus contos de fadas modernos. Enquanto isso, meus pais, heróis da vida real, estoicamente lutavam para dar a melhor educação possível para nossa família. Histórias em quadrinhos, televisão e fliperamas faziam a festa da garotada. Por outro lado, a última década do século 20 chegava cheia de dúvidas para a humanidade.

Anos 90. Nova década, nova fase de vida, novo paradigma. Difícil mesmo era a vida da família brasileira que tinha de estudar, trabalhar, pagar impostos, viver! Na metade de minha adolescência, percebi que começava a gostar mais do lado humano do personagem que do seu alter-ego. Peter Parker, por exemplo, adolescente de poucos amigos, sem jeito com a garotas, CDF da escola, com problemas financeiros em casa… Esse lado da história mostrava que ante de ser super, Peter Parker era um herói da vida real. Entretanto, esse lado humano era pouco explorado em algumas HQs, já que grande parte da narrativa dos gibis consistia no “herói X lutar contra o vilão Y para salvar a cidade Z da destruição”. Enquanto isso, na vida diária dos mortais comuns, meus pais trabalhavam duro para salvar nossa família da pobreza nacional.

Dos quadrinhos para os livros

Depois de anos de aventuras com os super-heróis da cultura pop, as leituras continuaram em minha vida, mas agora era outras histórias e novos personagens despontavam em meu horizonte. Simbá, Marco Polo, Mogli – o menino-lobo, Robison Crusoé, Sherlock Holmes, Robin Wood, os heróis de Júlio Verne e as mil e um noites de Sherazade. Mas a sensação era que se poderia ir mais fundo no espírito humano. De meados dos anos 90 em diante, conheceria apenas heróis e não tanto super-heróis. Eram personagens comuns, homens e mulheres captados pela sensibilidade de escritores e imortalizados nas páginas de contos e romances universais. Heróis do cotidiano, autênticos, problemáticos, anônimos, humanos. Iracema, Brás Cubas, Emma Bovary, Bernando Soares, doutor Jekyll e senhor Hyde, Augusto Matraga, Julieta Capuleto, Victor Frankenstein, Capitu e Bentinho, José Matias, Conde Drácula, Emília, Ulisses, Macabéa, Padre Amaro, Fraülein Elza, Lucídio…

Ainda hoje aprecio quadrinhos, graphic novels, charges e tirinhas de jornal, como também admiro meus pais pelo poder que tiveram em criar seis filhos em tempos difíceis. Ler essas historinhas é meu exercício de humildade leitora, pois não quero nem devo esquecer como toda essa história começou. Tudo começou com as lições de heróis e super-heróis de dentro e de fora de casa. Assim, com os gibis e livros, adquiri o poder da leitura e do conhecimento, e como disse meu pai parafraseando o filme do Homem-Aranha, de Stan Lee: “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades”.

Na sala de aula

No dia das crianças e no dia do professor, uma das muitas situações que estes personagens da vida[…]

No dia das crianças e no dia do professor, uma das muitas situações que estes personagens da vida real deparam-se com certa frequência em nossas escolas…

Ninguém mexe com Julinho. Julinho mexe com todo mundo. A sala de aula, pequena; a turma grande. Quem passa por Julinho… Cotoveladas. Na sala Julinho dorme, acorda zangado, inflama-se de vez. Palavras grosseiras, rudes, quase ameaças. A professora intervém. Fala. Aproxima-se.

Nada.

Carlinhos só responde “nada!”.

A questão vira um problema na 5ª série. Ninguém fala mais com Julinho. Ninguém compreende o jeito dele. Todos preservam-se às suas cotoveladas. Na escola, na sala de aula, no recreio, Julinho sempre só, de cara fechada, sem culpa ou piedade, própria ou alheia. Ele entra na sala, abre o livro, escreve a tarefa. Chega em casa, fecha os olhos, não responde os exercícios. Ele não é um mau menino. É um menino mal. Mal fala, mal aprende, mal-humorado, mal-me-quer.

Uma nova aproximação da professora acontece. É a única da escola com um pouco de paciência com Julinho. Ela não conhece os cotovelos do garoto. Ele quase fala, ouve a preocupação da professora, comove-se. Incontinênti, o menino incontinente tranca-se no cofre de suas angústias infantis.

A professora desespera-se. A direção da escola é avisada do caso Julinho. “Chamem a mãe do menino!”. A mãe da criança não vem. “Chamem o pai!”. Não vem o pai. Julinho só piora na escola e na vida. A professora conversa com os coleguinhas do garoto. Não adianta. Ninguém quer aproximação com Julinho. Cotovelada dói, professora! A última vez uma criança saiu chorando.

Segue o ano letivo. Os alunos devem aprender. O conteúdo não pode atrasar.

A professora segue o curso, impotentes. Preocupa-se com a criança. Há algo muito errado por aqui. Problemas de família arrasam qualquer um. Julinho não conhece a solução. A professora tenta, inventa, faz de tudo. Nada de música para alegrar, joguinhos não resolvem, não adianta desenho. A professora recorda da universidade: não lhe ensinaram essa parte, a de resolver problemas de verdade. Nenhuma teoria disciplina Julinho. Será que os teóricos conhecem o chão da sala de aula? A professora ouve conselhos dos muitos colegas de profissão.

Um. Dois. Três.

É melhor aceitar a situação. Ninguém vai ficar doido por causa disso. Todo mundo tem problemas nos dias de hoje… A sala de aula é pequena, a turma grande. Julinho é só uma exceção estatística das escolas e dos ministérios da educação. Segue o semestre. Dia de prova. Uma criança passa próximo da carteira de Julinho. Abaixa-se, pega a borracha caída no chão. Uma cotovelada certeira no nariz.

Sangue.

A confusão está armada na sala de aula da 5ª série. A criançada agita-se: revolta de uns; medo de outros. A mãe do menino agredido é chamada à escola. Exige a expulsão imediata do agressor. Ninguém é por Julinho. Ninguém toca em Julinho. O garoto ouve sermões da montanha de sua vergonha e ameaças veladas dos degredados filhos de eva. Julinho senta na cadeira, pesado. Recolhe os cotovelos à mesa, assustadores. Abaixa a cabeça. Olha para dentro. Deixa umedecer os olhos e pronto…

Pranto.

Uma semana de suspensão para o menino mal-criado. Finalmente aparece a mãe do menino. Veste vermelho, sorri amarelo. A coisa está ruim para seu filho. Escuta a diretora num meio mundo de problemas da educação. A professora é mais breve no desabafo. A vida é curta para ser pequena, disse o poeta.

Qual o problema de Julinho? É o pai. Bate nele? Não, tem o maior amor pelo menino. Então? Tem um problema sim, a cachaça. O pai trabalha o dia todo; todo dia ele bebe à noite inteira. Aí não volta para casa. Julinho só dorme direito com o pai em casa. A criança sai pela noite à procura do pai.

Um, dois, três bares.

Julinho não aceita a situação do pai alcoólatra. Uma criança pode ficar doida por causa disso. Todo mundo tem problemas nos dias de hoje, até as crianças. Pela noite afora, o menino procura o pai. “O menino é pai do homem”, diretora. A agressividade do garoto é causada pela ausência do pai em sua vida. Uma noite, voltou o pai mais cedo, sem embriaguez. Naquele dia, Julinho dormiu sereno, circunspecto, sem culpa ou piedade, própria ou alheia.

Agora a diretora compreende o caso. Compreendem a diretora e a mãe do menino agredido por Julinho. A mãe já conversou com o pai beberrão; o pai não aprende. A mãe já explicou para Julinho; o garoto insiste. Dias se passam. O menino volta à escola. Tem dias que Julinho dorme na sala. Acorda zangado, mete a cotovelada na carteira. Todos recuam. Hoje Julinho faltou novamente. A mãe não vai aparecer. O pai não conta.

Segue o ano letivo. Os alunos devem aprender. O conteúdo não pode atrasar.

Microcontos: conto, não conto

Essa difícil arte de escrever se faz com muitas ou poucas palavras.  Seja como for, economizar é exigir[…]

Essa difícil arte de escrever se faz com muitas ou poucas palavras.  Seja como for, economizar é exigir do mínimo o melhor da expressão. Não sei se consegui, mas vão aqui uns microcontos que nasceram pequenos para os leitores.

A dor do parto

Anos de sonho do casal, seis meses de esperança e o resto da vida mortos!

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Estranhos no Paraíso

Adão não tinha umbigo. Eva nasceu de um homem: pai dela e esposa dele. Eles não tiveram infância…

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Vício

Ele saiu e não voltou. Como sempre, ela esperava: comia amargo, bebia salobro. Outro dia, trouxeram o marido morto. Silêncio bizarro: finalmente ela viveria em paz!

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Depressão

Cloridrato de sertralina. Cloridrato de paroxetina. Cloridratos: às vezes, a vida parece uma droga!

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O bicho-homem

No lixão da cidadezinha, um homem coleta sobras de vidas inteiras: no supermercado da fome, o bicho-homem é só bicho, cem bocas e sem nomes.

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Coisa Pública

Nome: Servidor Público Federal. Idade: 6.500,00 reais. Estado civil: masculino. Sexo: solteiro. Profissão: Francisco Santos. Idade: parda. O resto é humanidade.

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Epopeia de um Zé Ninguém

Era uma vez um homem que morreu…

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Dois pensadores e um ônibus

– No busão teresinense só o ônibus é coletivo!

– As pessoas são acidentes de trânsito e de ego!

Educação em três atos

  Os jornais anunciam: Depois de dois meses sem salário, o Sindicato dos Professores ocupou o jardim do[…]

 

Os jornais anunciam:

Depois de dois meses sem salário, o Sindicato dos Professores ocupou o jardim do Palácio do Governo há 7 dias. A classe reivindica melhores condições de trabalho, educação de qualidade e plano de cargos e salários. A Assessoria do Governo ainda não fez nenhum pronunciamento. Os professores aguardam ser atendidos pelo Governador.

Primeiro ato: o professor

Colegas professores. Não vamos desistir até sermos ouvidos em nossas reivindicações. Queremos o diálogo e o respeito à classe de professores, de alunos e de pais de alunos, porque nesta circunstância de greve, todos são prejudicados. A desunião dos professores nos enfraquece como classe trabalhadora e fortalece o descompromisso do estado brasileiro para conosco.  Por isso estamos em greve para fazer valer a classe docente, para termos condições de oferecer educação de qualidade . Como o aluno vai aprender algo se a escola não possui estrutura satisfatória? Como se inteirar de uma turma se o professor é lotado em várias escolas e turnos em um curto espaço de tempo?Como capacitar-se profissionalmente se a renumeração é diminuta? Como atingir qualidade de ensino em uma turma de 50 alunos quando a sala comporta apenas 40 estudantes?  Vamos juntos lutar por direitos de crescimento profissional e desenvolvimento comunitário. À luta, educadores!

Segundo ato: os pais de aluno

O pai liga a TV e irrita-se, pois seu programa favorito foi suspenso. A mídia está cobrindo a manifestação dos professores. “Mais uma vez essa chatice de greve!” . O filho chega da rua e quer saber se a greve continua porque assim ele terá mais tempo para usar o celular o dia inteiro e passear com os amigos a noite toda. A mãe se preocupa com a escola do filho e apoia a reivindicação dos professores, pois sabe que a educação precisa de melhorias urgentes.

O pai só reclama: “se os professores ganham pouco, que mudem de profissão!”. O filho diz que os docentes passam tanto conteúdo que não sobra tempo para mais nada na vida. A mãe lembra o marido da importância que a educação tem numa sociedade desigual. Ao filho ela adverte não deixar os estudos para a última hora. Mas o pai nunca vai às reuniões do colégio; o filho apronta bastante em sala de aula. Só a mãe percebe que o futuro daquela família passa pela educação. Daí insistir com o marido para visitar a escola do filho; daí fazer o filho agir como ela o havia ensinado. Dona de casa, a mãe sabia como a educação lhe fizera falta no trabalho e na vida. E a manifestação continua pela TV.

O marido pede para assistir ao futebol. O filho ouve música pela internet. A mãe faz sinal de silêncio.

Terceiro ato: o Governador

Da janela do Palácio, o Governador e o Secretário de Educação assistem aos professores instalados no jardim da sede do governo.

– Esses professores estão organizados demais para o meu gosto.

– A situação não está favorável para nós, senhor Governador. O teto de uma escola reformada desabou no fim de semana, os investimentos em educação mal cresceram em seu governo, os salários dos professores continuam atrasados e os alunos podem perder o ano letivo. Precisamos fazer alguma coisa urgente ou perderemos a próxima eleição.

– Ora bolas, a educação custa muito caro! Ou eu financio minha campanha eleitoral ou gasto tudo para todos aprenderem a ler e a escrever, pensou o Governador apedeuta.

– Concordo com o senhor – socorreu o Secretário de Educação – mas devemos fazer algo antes que os professores o façam.

– Então vamos ter que estruturar as escolas com bons livros, laboratórios, quadras de esporte, merenda de verdade, criar plano de carreira que estimule a capacitação docente e, meu Deus, teremos que aumentar o salário do professor.

O celular do Secretário de Educação toca.

– Senhor, acabei de receber uma boa notícia para nos tirar dessa situação. Um incêndio atingiu o principal shopping da cidade. Todas as equipes de repórteres que estavam no jardim do palácio cobrindo a manifestação dos professores foram noticiar o incêndio.

– Excelente! Agora chame a tropa de choque com urgência: precisamos dispersar rapidamente esses professores do jardim!

(Para os desavisados, isto não é fakenews, é literatura)

 

Carta aberta em defesa dos Jumentos Prefeitos

Jumentos revoltam-se com usurpação de prêmio de gestão por prefeitos do Brasil Carta aberta em defesa dos Jumentos[…]

Jumentos revoltam-se com usurpação de prêmio de gestão por prefeitos do Brasil

Carta aberta em defesa dos Jumentos Prefeitos

Senhor Jumento Precioso, prefeito da cidade Brasil,

Vimos por meio desta pedir desculpas por terem questionado o título de Gestor Nota 10 que o senhor Jumento tanto lutou para adquiri-lo por esforços próprios. Sabemos que o dinheiro público é coisa difícil de arrecadar e fácil de gastar, daí entendermos quão sofrível foi tirar do bolso do contribuinte essa grana boa para ir a Recife receber esta honra bem paga. Os impropérios da imprensa global são frutos de perseguição política e inveja pessoal de algum filho de uma égua qualquer.

A medalha e o diploma que o Excelentíssimo Senhor Jumento recebera mediante augusta gestão corruptível e abalável caráter administrativo, tais prêmios correm o Brasil inteiro a premiar gente como a gente – do Rio grande do Sul ao Piauí, de Picos a Campo Maior.

Acreditamos que a mídia local de sua cidade abafará o caso ou colocará panos quentes na situação até que outro caso qualquer roube a cena – porque de roubar nós entendemos bem, especialmente em viagens e outros gastos com dinheiro público. Mas convém que sua rádio e portal de fakenews noticiam Nota Oficial ao Público desmentindo essa verdade que a Rede Global lançou aos seus eleitores.

Como não ficaremos calados diante da burrice nacional, lançaremos no ano seguinte o Prêmio Jumento Nota 1000. Acreditamos relinchadamente que o Senhor vem a ser um dos grandes nomes cotados para receber esse laureado troféu como premiação de sua intelejumência administrativa.

Forte abraço e coices nas ventas!

União Brasileira de Prefeitos Jumentos – UBPJ-PI (Seção Piauí)

Aprendiz de Versos

Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Luís Vaz de Camões, grandes poetas do idioma português, são a[…]

Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Luís Vaz de Camões, grandes poetas do idioma português, são a inspiração deste aprendiz de versos para os poemas que seguem abaixo.

 

Trem de Ferro

O Trem,

Maquinista da Solidão,

É uma Saudade

De Ferro.

 

No meio do caminho de Pedra

No meio do Caminho

Tinha um Poeta.

Naquele Sapato

Tinha uma Pedra.

 

Tinha um Caminho

No meio da Pedra.

No Meio do Caminho de Pedra

Tinha um Sapato de Poeta.

 

Cabo das Tormentas

Adamastor, meu amigo

Esse teu amor gigante

Te me amaldiçoou.

 

Essa Deusa Mar-Aquário

Por que ninfa Tétis…

Por que esse amor…

Ela te me beijou…?

 

E do sublime preço apreço

Ao oceano de tormentos:

Penha-carne em pedra

Pedra-amor em rochedo

E o soçobrar duns poetas.

Futebol de rua

Menino é menino. E basta um terreno baldio, de preferencia plano, para a molecada fazer daquele espaço inútil um[…]

Foto de Claudio Vieira – Futebol de Rua

Menino é menino. E basta um terreno baldio, de preferencia plano, para a molecada fazer daquele espaço inútil um estádio de futebol, maracanã de suas glórias anônimas.

Juntam-se alguns meninoleques do bairro e formam-se times para jogar a copa do mundo das ruas. Um bom horário para o futebol de rua são os fins de tarde. O campinho improvisado é de todos, principalmente do dono do terreno baldio que vez ou outra aparece para espantalhar a criançada do local. A única coisa verde-grama naquele lugar são os sonhos pueris de alguns meninos de se tornarem um jogador profissional para vencer a pobreza nacional. As chuteiras para jogar no baldio são as da melhor marca possível – pés. As traves do gol, qualquer pedra nascida para ser trave de terreno de bairro, mas as preferidas são os tijolos que se retiram da construção da vizinhança. A bola pode ser uma cabeça de boneca, uma bola de papel envolto em plástico amarrado ou uma bola surrada de gols, quando alguém tem, é claro. Aí é colocar o pé mais que no chão e brincar de uma disputa saudável.

Craques desconhecidos

O time é formado a grito, à convocação antecipada, a cologuismo de rua, à vontade de vencer sempre e jogar contra todos. As regras do jogo são costumeiras. Dois times jogam num tempo de 10 minutos: o primeiro que fizer um gol ganha a partida e continua jogando até ser derrotado por algum time. Toda partida é um clássico. Tem escanteio cobrado, pênalti perdido, firula de craque; tem jogador fominha, goleiro-gato, atacante garapeiro, meio-campo astucioso. Juiz ali não há porque não existe julgamento sem inclinação. Levar falta é algo que deve ser um consenso entre os dois times senão dá em briga, choro e ranger de dentes.

Espectadores torcem por um amigo, um vizinho, um irmão que joga para ganhar do time adversário. Enquanto isso, outros jogadores aguardam na beirada do campinho o fim da partida para entrar em campo. Goleiro sofre com joelho ralado em defesa do gol e da honra do bairro; menino respira poeira do campinho até cair doente, mas não cede a vez para outro jogar; caco de vidro ou pedra pontuda fazem marcação cerrada nos dois times acirrados; um menino grandalhão sempre dá trombadas propositais em jogadores mirradinhos.

Bola na rede

Dar uma bicuda na bola – um chutão ao estilo patada atômica – é a apelação de um gol que não sai nunca. Aí o goleiro calça os chinelos nas mãos para aguentar as boladas que recebe. O ruim é quando a bola erra o alvo e vai bater na janela de alguma casa próxima. A rendonda às vezes não retorna, vítima de tesoura ou faca irritada; quando vem, vem cheia de xingamentos e vizinhos. E quando menos se espera, um pai-técnico surge para dar palpite no jogo da molecada. O filho-artilheiro fica todo errado. Algum tempo depois, uma mãe-torcedora aparece com um cinturão na mão, torcendo para encontrar o filho e o esposo que disseram que dariam apenas uma voltinha no bairro.

Benjamim Wright, premiado radialista e cronista de esportes, formulou o que hoje é o clichê “O futebol é uma caixinha de suspresas”. E o futebol de rua, desses de terrenos baldios do tamanho do Brasil? Como torcedor doente de um jogo saudável, a molecada escreve com os pés no chão que o futebol de rua é a porta da caixinha de surpresas.

Na festa de Santo Antônio

  De 31 de maio a 13 de junho, Campo Maior realiza a festa religiosa a Santo Antônio.[…]

 

Foto retirado de http://diocesedecampomaior.org.br

De 31 de maio a 13 de junho, Campo Maior realiza a festa religiosa a Santo Antônio. Por toda a cidade e região dos carnaubais, os festejos do santo casamenteiro impulsionam a fé sincera do povo de Deus.

É festa e a cidade se agita e se enfeita todo para o grande evento: na abertura dos festejos do santo católico acontece a procissão com a imagem, a bandeira e o mastro de Santo Antônio a conduzir o povo das portas do colégio Patronato Nossa Senhora de Lourdes e segue até a majestosa Catedral, no centro da cidade. Homens e mulheres seguram no fetiche do santo na crença de encontrar um bom partido para casar, alcançando o milagre tão sonhado.

E nessas horas de procissão, para pegar no mastro do santo (não quero dizer pau, é claro!), para pegar no mastro vale tudo: começa um empurra-empurra todo mundo; ao longe grita-se “sai da frente, por favor”; um gay reza forte para casar em breve; alguém pisa numa unha encravada de dor; algumas caras feias acendem velas; um luterano distante volta-se para a fé só em Deus; muita lágrima e suor seguem a procissão; uma mulher joga praga nas encalhadas locais que impedem a procissão de andar; algumas pessoas desmaiam para cair em cima do pau santo, entre essas e outras manifestações de fé e festa… Aí, depois da graça alcançada, após encontrarem o amor ávido, algumas pessoas, depois de certo tempo, seguem até a cidade de Altos e pedem a São José que ajeite seus maridos errantes.

Fé e festa

Santo Antônio aproveita o mês de junho e tira férias. Pedi a Deus para visitar os festejos de Campo Maior. Deus permite, mas adverte ao taumaturgo: “Cuidado, Antônio. E assim, Santo Antônio chega à cidade dos Heróis do Jenipapo, suja os santos pés no açude sujo de pecado ecológico, esbarra num político distribuindo dinheiro, mas surpreende-se com a fé feérica do povo e com as orações a embalar toda a cidade.  Aos clérigos da Igreja, Santo Antônio pede mais fé e menos amém aos patrocinadores da festa local.  O santo também reza pelas barraquinhas que não passaram por vistoria elétrica ou sanitária para funcionar em um evento deste porte. Um extintor de incêndio cairia bem nestas barracas de meu Deus.

O negócio é comer, rezar e amar. Muitos turistas vêm paras as festas nos clubes da cidade e contribuem para a balança comercial favorável dos empresários locais. Graças a Deus! O Espaço Cultural promove festas pagas com dinheiro público para aqueles que preferem o circo anual ao pão nosso de cada dia.  Para nossa vergonha regional, mendigos brotam do chão (ou de nossos olhos cegos) e esperam fora da Catedral pelo chamado de Deus, porque a piedade humana não cabe na igreja cheia de gente de bem. Não cabe, pois em meio à festa religiosa, outra fé – a do dinheiro – domina a alma de alguns cidadãos em meio à barracas de tentação capitalista.

Festa e fé

Seu Laurindo, nos seus 80 anos campo-maiorenses, viveu todas as fases de sua vida distribuídas nas treze noites dos festejos de Santo Antônio. Na infância, sua mãe obrigava Laurindo a assistir às trezenas, quando o menino só queria brincar no parque de diversões. Na adolescência, o jovem aproveitava as trezenas para marcar encontros com as moças de família entre as barracas dos festejos, com todo o cuidado para que os familiares da mocinha não vissem nada (Laurindo só casou com uma moça depois que ela pegou no pau). Quando adulto, depois da oração da igreja, Laurindo dividia-se entre saborear os pratos regionais das barracas ou correr para os cabarés da rua Santo Antônio – de toda forma acabava comendo. Agora que velho, o velho Laurindo reza e passeia placidamente pelos festejos que o viram crescer e devir. Os netos e netas vivem agora as mesmas fases que ele percorreu um dia.

Laurindo agradece aos céus. Ele encontra seu velho amigo Santo Antônio que sorri e diz: “Ano que vem tem mais”.