06/04/2020

Crianças, pais e médicos

Teresina é o polo de saúde do Piauí. Por isso uma procissão do interior do estado vai à[…]

Para alivio dos pais, crianças poderiam não adoecer. FotoMarcelo-Gladson

Teresina é o polo de saúde do Piauí. Por isso uma procissão do interior do estado vai à capital saber de consultas e exames médicos. Assim caminha a modernidade. Nisso, crianças e médicos encontram-se nos consultórios das clínicas e hospitais da capital quando a doença se instala no corpinho pueril que mal aprendeu a viver.

Deveria existir uma lei universal proibindo as crianças de adoecer !

Imaginem se todas as crianças não fossem atingidas por moléstia alguma. Nem vírus, bactérias, fungos ou vermes. Imunidade a mil! Imaginem se nada atingisse as criancinhas até os 10 anos de idade! Seria a alegria geral dos pais, o milagre da vida humana preservada nesta tenra fase. Os cientistas debruçar-se-iam de curiosidade sobre os pequeninos, fazendo-se perguntas sobre a resistência, a defesa e a vitalidade do organismo infantil. Nenhum distúrbio atingiria os pequeninos.

Fraqueza, tontura,  dor de garganta. Sarampo, catapora, rubéola, caxumba, gripes, poliomielite e outras doenças infectocontagiosas: tudo em vão! Nossos infantes seriam imunes até os 10 anos de idade. Porque uma criança doente adoece um pai e uma mãe de preocupação e medo. E quando ainda são muito pequenos, mal conseguem dizer que mal lhes abate e os deixa acamados por dias.

Vamos ao médico!

Mas o que se veem são criancinhas tristes e enfermas, aguardando serem chamadas pelo médico. A bebê Camila, 2 anos, tosse tanto que assustou os pais Miguel e Rute. A criança tem sorte de possuir uma família completa e um plano de saúde básico para quem sequer tinha planos de adoecer. A mãe embala a doentinha, o pai compartilha a preocupação como pode:

– Ela tem febre, está muito gripada… A coitadinha não sabe dizer o que dói tanto…

Olhos fundos, corpo tão magro. Morena, e devido à doença, tem uma palidez que não combina com seus cachos negros. Eu a enxergo de perto. Triste e séria, entreolhamo-nos com profunda inquietação: “o que eu fiz para merecer isso?” Outra criança chora longe dali – uma injeção aplicada. Seu manifesto de dor ante a picada é ouvido por todos na clínica, mas adultos esquecidos da infância irritam-se com o brado retumbante do brasileirinho.

Uma lei natural, uma lei que protegesse as crianças de doenças deveria existir, meu Deus! Entretanto, por incrível que se possa imaginar, as doenças têm lá suas vantagens: fortalecem nosso organismo quando produzem anticorpos; chamam nossa atenção para o que realmente importa; a doença nos faz lembrar como é bom estar vivo… Mas quase ninguém pensa assim quando adoece, muito menos as crianças que desejam apenas descobrir e brincar.

– Camila de tal… Consultório 11, com a pediatra Rosângela. Me acompanhem.

A hora da verdade

Pais e filha entram na sala com a esperança de uma vida inteira pela frente. A médica pergunta aos pais o que há com a pequena. A resposta vem em forma de tosse da criança. Os pais expõem a crise de saúde da filha. A médica leva suas mãos à pequena; um estetoscópio ausculta o pulmão infantil. Os pais olham impotentes a médica analisar a filha daquele jovem casal. A médica finalmente expõe o que a bebê tem; diz os exames que a criança irá fazer; receita o remédio que a pequena deve tomar para aliviar a tosse. A dúvida materna é inevitável:

– Ela vai ficar boa, né, doutora?

A médica especialista – doutor é título acadêmico – pede para aguardar os exames. Os pais respiram apreensivos, mas cônscios de que a saúde da filha vai melhorar logo. “Vinde a mim as criancinhas”. O Mestre já conhecia a doçura dos pequeninos. Imaginem se Ele tivesse proferido: “Vinde a mim as criancinhas, pois elas não adoecerão até os 10 anos de idade!”.

Sim, a bebê Camila, assim como as outras crianças consultadas naquele dia, crescerá e tornar-se-á uma adulta normal. Sim, ela adoecerá de doenças provocadas por cigarros estúpidos, estresse laboral e enfermidades alcoólicas. Adoecerá como adoecem todas as outras pessoas por conta de suas taras psicológicas, desatenções no trânsito, má alimentação, sedentarismo… Mas Camila lembrará vagamente o tempo em que foi criança, protegida por uma lei fictícia, a mesma lei que um dia ela gostaria que existisse para seu filho doentinho.

Deveria existir uma lei universal proibindo as crianças de adoecer!

Família visita avó que se sentia sozinha em apartamento …Foi uma felicidade quando um dos filhos ligou para[…]

Família visita avó que se sentia sozinha em apartamento

…Foi uma felicidade quando um dos filhos ligou para a mãe dizendo que todos, filhos e netos, visitariam e passariam o dia inteiro com aquela velhinha. Há meses que a senhorinha não via os parentes. Ao todo eram quatro filhos. Dois homens, duas mulheres, seis netos e um bisnetinho.

Naquele dia a senhora poria a solidão para fora de casa. Mas a situação pedia uma faxina na casa inteira. Corre-se a uma diarista para deixar a casa um primor. A família da velhinha era um povo que gostava de comer muito e comer bem. Agora lembrar o que cada um deles gostava de comer era um desafio.

Mas para isso tinha um aliado fiel, o celular. Como morava no centro, longe de todos, saiu ligando para cada um deles. A conversa rápida rendeu-lhe trabalho. “Mamãe, eu gosto disso”. “Vovó, eu gosto daquilo”. “Não se preocupe, o que a senhora fizer, eu como”. “Musse de maracujá, mãe”. “Sorvete de sobremesa, vó”.” Faça pra sobrar porque eu quero levar um pouquinho pra casa, sogrinha…”

Como ela era uma velhinha moderna, aprendeu com os netos a usufruir da internet: pesquisou receitas, ornamentou a casa, procurou assuntos da modernidade que pudesse falar com todos. Coisa boa essa internet, uma invenção divina!

Depois de muito tempo, reuniria a família de novo. Foi uma felicidade ver cada um deles chegando, conversando, sorrindo e falando todos os gerúndios possíveis e palatáveis àquela ocasião. Todos vieram. Ninguém faltou. Os cumprimentosos rituais de praxe. Os assuntos os mais banais possíveis. Os comentários triviais de sempre. Parece que tinham conversado ontem. Mesmo assim, alegria total. A velhinha era só felicidades.

Diante da satisfação familiar, um começo de choro da matriarca solitária comoveu a filhos e netos e bisnetos. Vieram desculpas corriqueiras: a semana inteira de trabalho dos filhos afastou-os da casa materna; o namoro e amizades intermináveis dos adolescentes só perdia para a internet; a escola com atividades extracurriculares inundava a vida inteira das crianças-executivas. Desculpas aceitas, a senhora correu a cozinha providenciando café para servir. De lá conversava em voz alta para vencer as paredes mudas e frias. Paredes impedem as pessoas de conversar. As ondas chegam comprometidas aos tímpanos. São muros de Berlim domésticos.

Dois minutos depois uma calma total. Ela viu que falava sozinha. Meu Deus! Ao chegar à sala, uma tragédia pós-moderna. Doces intocáveis, corpos curvados, olhos fixos na internet do celular. Um segundo, dois minutos, três horas. Rendida à nova solidão, a vovó senta-se no sofá da sala onde toda a família está conectada ao outro lado da vida: redes sociais, shows e filmes, jogos on-line, fake e news.

Solitária, ainda que cercada de filhos e netos por todos os lados, a presença da avó era definitivamente deletada pela internet dos celulares. Só perceberam que a velha tinha morrido quando caiu o sinal do wi-fi…

“A solidão é fera, a solidão devora…”

Prova Final

Prova final é daquele jeito. É um dia em que se observa todo tipo de comportamento humano de[…]

“Quem passa direto é trem!” (frase de aluno). Quem dá ponto é costureira!” (frase de professor)

Prova final é daquele jeito. É um dia em que se observa todo tipo de comportamento humano de alunos e professores em sala de aula e fora dela.  E como não bastasse um dia, a escola elenca uma semana de provas finais decisivas na vida dos alunos.

Sim, provas escritas. Uma avaliação feita com dez questões subjetivas/objetivas sobre os assuntos trabalhados pelo professor no bimestre ou mesmo no ano letivo. Depois de tantas aulas expositivas, abordagens dialogadas, vários exercícios de fixação e trabalhos de pesquisa para fazer, vive-se o ajuste de contas do ensino-aprendizagem entre professor e aluno, como vaticina o sistema de ensino brasileiro.

O que uma prova quer provar?

No dia da avaliação, o mestre entra na escola seríssimo, impoluto e decidido em aplicar, com todas as forças do sistema de ensino, aquilo que pode ser a prova da vida daqueles alunos. A figura do diretor circula os corredores da escola como para manter a lei e a ordem que a ocasião exige. Como a turma mostra-se hiperativa porque cinquenta e cinco cabeças retinentes desdobram-se num espaço onde cabem quarenta, professores ocupam a sala de aula para a aplicação das avaliações finais. Tchau, cola!

As carteiras estão organizadas em filas regulares, ocupam toda a sala, há somente lápis e caneta sobre a carteira. O sino toca, a prova começa, o coração dispara. Alguém vez ou outra passa mal, é de praxe. Dois professores circulam pela sala silenciosos: o primeiro docente é mais tranquilo, acompanha com entusiasmo a evolução discente na prova escrita; o outro, com seu olhar panóptico, observa cauteloso a todos contra a fraude da cola inconformada.

O professor, o aluno, a escola, a sociedade estão ali. 

A praga da cola, ou pesca, é vírus pandêmico na cultura educacional brasileira, assim me disseram alguns alunos de mestrado e doutorado. A meritocracia escolar ainda se baseia no acúmulo de conhecimento para a reprodução de ideologias. Uma hora de prova e os estudantes entreolham-se. A pesca pode estar em todos os lugares possíveis: na palma da mão amiga, no bolso da calça rasgada, no inofensivo papel rolando no chão, na ida ao banheiro suspeito, no celular da moda passageira, no caderno entreaberto, na lousa mágica, no código morse corporal, nas coxas, nas bocas e principalmente no coração. Alguns alunos gastaram mais tempo fazendo uma cola do que estudando para as matérias…

Alunos, tão circunspectos em pensamentos e dúvidas: paira sobre a sala, sobre a escola, sobre o mundo, um silêncio áspero para alguns e sossegado para poucos.  Olhos desconfiados vigiam outros olhos nervosos. Uma caneta tímida arrisca uma alternativa correta. As mãos descansam num queixo cansado. Dedos frágeis tateiam uma folha vazia. Dentes riem ante a prova tão fácil para quem estudou. A mente gira procurando no teto da sala a resposta esquecida. Pernas tremem de tanta certeza. Um lápis castiga a prova no ritmo do relógio como se isso pudesse segurar o tempo. Nariz coça de irritação diante da pesca que não vem. As costas aliviam-se por saber tanto. Uma boca brava desconta sua frustração em neurônios preguiçosos. O suor na testa escorre numa sala de cinquenta e cinco silêncios.

Na semana seguinte, os discentes encontram o professor:

– Bom dia, turma! Atenção, vou entregar o resultado da prova final.

 

Sexta-feira negra (Black Friday)

  Você recebe na rede social do seu celular a mensagem de um amigo sobre a megapromoção de[…]

 

Quem é você, consumo?

Você recebe na rede social do seu celular a mensagem de um amigo sobre a megapromoção de uma grande loja de varejo. É semana de Black Friday (black fraude para alguns) e todos que podem, querem comprar o impossível.

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Aniversário

Antes a morte era para mim uma ideia estranha, abstrata e distante. Na infância, ouvia falar que fulano[…]

“Aquele que crê em mim viverá” – Jesus Cristo

Antes a morte era para mim uma ideia estranha, abstrata e distante.

Na infância, ouvia falar que fulano morrera, beltrano partiu de repente e cicrano foi desta para a melhor. Achava que morrer era mudar-se para um lugar bem longe onde a saudade não alcançasse o saudoso, mas dor dói de qualquer jeito. Não pensava muito na morte e nem ela em mim. Vivíamos cada um a sua vida (!) sem nos incomodarmos com a presença/ausência um do outro.

Nunca gostei do culto que fazem em respeito a ela: o velório. É certo que eu a encontrava quando via um animalzinho morto na rua; no acidente gratuito na esquina do bairro, na casa do vizinho. Também assistia a ela pela TV em cores frias e assustadoras. Lia sobre a morte na biografia de meus autores preferidos. E assim, um dia, a capa dura do livro da vida bateu à porta de minha casa… E daquele dia em diante a morte tornou-se para mim vital, ordinária e íntima.

Vital! Comecei a percebê-la nos aniversários mais do que em dia de finados. Porque “cada minuto de vida nunca é mais, é sempre menos”, como poetizou Cassiano Ricardo. Morte e eu aproximávamos/distanciávamos cada vez mais do ponto em que tínhamos iniciados: o nascimento. Comecei a perceber que tempo de aniversário era momento de reflexão. O lado bom da “fealdade do horrível transe” é que ela nos obriga a datar nossos planos, uma vez que não viveremos todo o sempre. E assim, o leitor e eu vamos enchendo o bagageiro da vida com viagens, amores, metas, amigos, momentos. E como o bagageiro é relativamente grande, também colocamos nele medos, disputas, tristezas, indiferenças.

“Aniversário é uma festa pra te lembrar o que resta” excogitou poeticamente Lemiski. Pensar na morte em pleno aniversário não é pessimismo. É balanço, saldo credor da existência. É vital que se pense nela, porém o mais importante é como se pensar nela: como a última música a ser dançada na festa da vida antes que o baile da existência termine. Seus dois mistérios são estes: como e quando ela vem.  Definitivamente “esta vida é uma estranha hospedaria de onde se parte quase sempre às tontas”, me ensinou outro bardo, Mário Quintana.

Ordinária!? Da abstração a morte evoluiu para uma situação banal. Uma vez inevitável, paciência! Até ela chegar é ocupar-se da existência, da própria vida, que da vida dos outros a eles mesmos interessam. O complicado em ser esta situação ordinária – a de morrer – é que a partida deixa uma saudade danada para quem fica do lado de cá. Aí se chora, aí se queixa a Deus acusando-o de maldoso quando esquecemos que morrer faz parte do espetáculo da vida e esta parte foi escolha nossa – “o salário do pecado é a morte”, dizem as Escrituras. Nessa circunstância, o tempo, senhor dos instantes, mestre das passagens, general das horas, o tempo camufla a dor da saudade e muda o cenário da solidão para algo mais possível.

Íntima? Nos dias dos anos da vida de qualquer pessoa, ela está lá fora, assistindo à festa natalícia para lembrar: “Vamos, viva!”. Nisso, fica uma intimidade assaz desconcertante e atrevida, mas não cruel ou rígida. O aniversário chega e junto dele a velhice em doses homeopáticas, e lá, no fim da curva – porque se fizéssemos a curva seríamos imortais imorais – lá no fim da curva ela espera pacientemente.

– Vá-se embora daqui! dizemos todos quando ela passa bem perto de nós.

Os elos da vida de uma pessoa são os pais. Cada um deles é um semicírculo que juntos formam um círculo completo de onde surgimos. De lá vieram você e eu. E quando o círculo se rompe, quando uma parte dele vai embora, ficamos incompleto, na evidência de sermos atingidos, sorteados, apresentados a esta ideia agora vital, ordinária e íntima.

Ponto final.

“Dizem que sou louco”

  (crédito da foto: https://www.trestempos.com.br/louco-eu/) Dizem que toda rua tem um doido. Aliás, todo bairro, toda cidade ou planeta[…]

 

(crédito da foto: https://www.trestempos.com.br/louco-eu/)

Dizem que toda rua tem um doido. Aliás, todo bairro, toda cidade ou planeta deve ter seus doidos. Ainda na infância conheci alguns deles; na adolescência apareceram outros mais e na atual fase adulta, percebi que o mundo inteiro é um manicômio de portas abertas. Eles são tantos que parece que nós, os ditos normais, tornamo-nos minoria e eles a regra banal desse sistema de coisas que é o mundo.

Em São Luís do Maranhão, na infância serena e cheia de esperanças, conheci Adalto. Adalto era um rapagão magro, preto-petróleo, voz áspera, olhos vigilantes, sempre com uma vara na mão. Era o caçador oficial das pipas de rua, pipas cortadas por cerol rival na disputa da molecada; era a pipa se perder no azul e o negro correr como papa-léguas rumo à conquista lúdica. Não havia obstáculo, muro agigantado, cachorro raivoso, vizinho ameaçador: Adalto saltava sobre todos eles em direção à sua monomania. Ele só falava de pipa, fazia pipa, capturava, consertava, comprava… Sua vida era uma pipa. Algumas pessoas – os derrotados do cerol – detestavam Adalto e chamavam-lhe de doido velho, preto maluco, zé pilantra; até chegaram a jogar-lhe pedras e acionar a polícia contra ele. Eu respeitava o gigantismo de Adalto e por isso surgiu entre nós apreço. Quando ele não tomava os remédios, tinha convulsões no meio da captura das pipas. Todas ficávamos com medo, sem entender direito tudo aquilo. Mudei-me de São Luís, mas comigo levei a lembrança de Adalto, um gigante pássaro negro que só queria voar num céu de pipas azuis.

Teresina tornou-se a cidade universitária de minha fase adulta, cheia de estudos, enganos e desafios. A capital conta com o Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu. Lá internaram Esteves Faustino que depois de fugir do tratamento médico, vivia pelos pontos de ônibus da cidade à procura de sua mãe. “Mamãe vai voltar qualquer horinha, você vai ver!”. Dava dó: ele observava quem descia do busão na esperança de ver sua mãe; falava sozinho por horas até um coletivo se aproximar, aí ficava naquele silêncio inocente, todos desciam do ônibus e nada da mãe chegar. “Mamãe não veio hoje, mas amanhã ela vem”. O povo contava que depois de uma gravidez adolescente, a mãe de Faustino tomara remédios para abortar. Ele nasceu sem problemas, mas a cólera da mãe e os abusos do padrasto fizeram Faustino trancar-se num mundo de amor por uma mãe que não existia para ele. Certo dia, desceu de um carrão uma madame a quem Faustino lançou-se em prantos. “É mamãe, mamãe voltou pra mim!”; a mulher gritou assustada, o povo afastou o rapaz da madame que saiu desconfiada do local. Faustino jura que aquela mulher é a sua mãe. Dia seguinte, lá está ele à espera de uma mãe mais doente do coração do que Faustino da cabeça.

Piripiri me apresentou a Doida do Mercado quando eu, já cansado da bondade humana, fui trabalhar naquela cidade. Antes, contavam que a vida dela era correr atrás de políticos da região; por acreditar demais, decepcionou-se profundamente com os partidos que lhe tiraram o pouco que tinha. Caiu na miséria e no desespero, passou fome e frio, viveu a solidão e o escárnio amigo. Conhecedora os podres políticos, começou a abrir o verbo, mas para muitos, a pobreza extrema prejudicou-lhe a sanidade.  Agora ela passa os dias no mercado central da cidade, trabalhando para os vendedores em troca de comida. Estatura e humor baixos, olho e juízo vesgos, cabelo e paciência curtos. Às vezes, algum feirante confia-lhe uma faca para descascar frutas. Caução nessa hora: se passa um político qualquer, a Doida do Mercado explode sua loucura e propinas rompem entre denúncias reais e fictícias com nomes públicos e número de contas privadas. Mas num país como o nosso, isso não é loucura. É normalidade.

Adalto, Esteves Faustino, a Doida do Mercado. Indivíduos abandonados pela vida, gente que sorri, chora e sangra como a gente, homens e mulheres que desafiam nossa lógica porque não amam  loucuras modernas pelas quais nós, pessoas de bem, matamos ou morremos. Por serem estranhos, loucos como a gente, eles não deixam de ser humanos. Ao seu modo, frente à crueza da vida, eles são felizes. “Dizem que sou louco por pensar assim / Se sou muito louco por eu ser feliz / Mas louco é quem me diz /Que não é feliz, não é feliz”.

Perna de pau, mão de ferro

A superação está em todos os lugares e acompanha a vida de cada um de nós.  Perna de[…]

A superação está em todos os lugares e acompanha a vida de cada um de nós. 

Perna de pau! Este era o apelido que os amigos de escola davam a mim quando jogávamos futebol nos tempos de colégio. Eu nunca fui feliz com a bola no pé: os amigos de turma não me deixavam esquecer isso: sempre me escalavam por último nas partidas de futebol.

Tínhamos 13 anos. Eu, sem fôlego profundo nos pulmões, adolescente nerd e tímido de nascimento, esperava alguém olhar para mim – ter esperança ou piedade – e me escalar para jogar no time da turma.

Como eu ficava por último nas escalações do time, estrava em campo com a vantagem dos adversários cansados. Mas coisa difícil era a bola chegar aos meus pés. Eu corria a quadra, a escola, o mundo inteiro atrás dela. Quando finalmente alcançava a bola (oba, peguei a bola!), uma leva de meninos lançava-se na direção da redonda para tirar de mim aquilo que eu mal havia tocado com os pés (ou teria sido com o coração!?).

 

Os jogos escolares

No meio do ano, vieram os Jogos Interclasses – o campeonato das salas de aula, a olimpíada dos alunos, a copa do mundo das turmas do colégio. Feliz, fui escalado na condição de reserva do zagueiro da minha turma. Os jogos seguiram: várias substituições e nada de mim.

Mas já na final do Interclasses, o diabo do nosso goleiro se machucou numa defesa espetacular e botaram a mim (nessas horas lembram da gente!), botaram a mim para proteger o gol e substituir o melhor goleiro do Interclasses.

O jogo corria 0 x 0. Aí veio o pênalti duvidoso contra minha turma, contra mim. O garoto que ia bater o pênalti, chamavam-no de incrível Hulk: tinha uma bomba no pé, seu chute entortava a bola de tanta força empregada naquele coice humano.

Do outro lado do pênalti, estava eu, o reserva do zagueiro com a missão impossível de defender a bomba do Hulk. Sentia-me diante de um pelotão de fuzilamento. Era o incrível Hulk, o time dele, a escola dele que bateria o pênalti contra mim…

 

A hora da verdade

Silêncio mortal. O juiz sem juízo apita para Hulk matar o Homem-Formiga. O menino dá um chutão. A bola dispara a mil quilômetros por segundo. E eu tenho que decidir: “se eu defender a bola, serei louvado pelos colegas, querido pelas garotas, o novo herói da escola; porém, se eu falhar, serei excluído da existência colegial, reduzido a vilão odiado por todos e xingado pelo tempo que existir escola”. Tudo isso cogitei buscando a aprovação dos outros. No que eu parei para pensar, deixei de agir e… Gooool!

A vitória do Hulk passou por minhas mãos, bateu na trave e entrou no gol. Por conta disso, ganhei dos meus queridos colegas o irônico apelido de mão de ferro. No ano seguinte não participei do Interclasses da escola (mais crescido, vi que não tinha que provar nada a ninguém, senão a mim mesmo).

Vi também que meu talento não estava nos pés, mas nestas mãos que serviram naquele ano para torcer pelo futebol da minha turma e hoje servem para contar histórias como essa.

 

Jornal dos contos de fadas

Coisa difícil é saber o que é jornalismo nos dias de hoje. Atualmente as notícias falsas invadem as[…]

Contos de fadas moderno: três porquinhos contra o lobo mal da pós-verdade

Coisa difícil é saber o que é jornalismo nos dias de hoje. Atualmente as notícias falsas invadem as redes sociais e misturam fatos a fakes, news a nóias. E a ficção, o que tem a dizer? Aqui vão as versões de como seriam as notícias dos contos de fada em tempos de comunicação sensacionalista.

 

Médica é presa após receber dinheiro da máfia das próteses

A médica Branca de Neve foi presa esta manhã em sua mansão com 500 mil reais pagos pela máfia das próteses. A médica implantava prótese e órteses em pacientes saudáveis no hospital público de Campo Maior. A Polícia Federal cercou a mansão Castelo Branco, de propriedade da médica, e prendeu em flagrante Branca de Neve recebendo propina de sete anões empresários envolvidos no esquema fraudulento. O agente federal Príncipe Valente continua à procura de dois integrantes da quadrilha, Madrasta Malvada e Fiel Caçador, que fugiram da mansão por uma passagem secreta. “Um espelho mágico”, informou o agente.

 

Avó e neta denunciam compra de votos

Já faz dois meses que as eleitoras Chapeuzinho Vermelho, 16, e Vovozinha, 80, denunciaram o candidato Lobo Esfomeado ao TRE por compra de votos. Lobo Esfomeado, candidato a deputado federal, compra os votos dos eleitores da humilde Floresta Mágica na promessa de lhes oferecer cestas básica, sacos de cimento e emprego-fantasma no serviço público da região. Trilhando um caminho perigoso, Fiel Lenhador, juiz do TRE, arquivou o processo do futuro deputado e suspendeu o título eleitoral de Chapeuzinho Vermelho e Vovozinha por perturbarem a ordem pública dos poderosos da região.

 

Professora sofre ameaças de alunos na escola

Dona Bruxinha, 40 anos, é a professora mais querida do colégio Casa de Doces, uma escola para alunos do ensino fundamental. Mas depois de chamar a atenção de dois alunos que bagunçavam sua aula, a docente vem sofrendo constantes ameaças. Os dois alunos, os irmãos João e Maria, infernizam a vida da professora em redes sociais diariamente. Dona Bruxinha também afirma ter sofrido agressões físicas dos irmãos na frente da escola. O último abuso praticado por eles foi espalhar migalhas de pão no computador da professora Bruxinha. Os pais dos agressores, Lenhador e Esposa, nada fizeram porque são os diretores da escola e não irão expulsar os próprios filhos. A professora Bruxinha afastou-se da escola e começa seu tratamento psicológico hoje.

 

MST ocupa fazenda de agroempresário

Ocupações, tiros, gritos e muito corre-corre marcaram o fim de semana no Bosque Encantado, região próxima a Brasília. O líder do MST, Gigante ocupou uma das fazendas onde são plantados feijões mágicos pertencentes ao agroempresário João Pé de Feijão. Gigante afirma que o empresário furtou sua galinha de ovos de ouros na história original. Ele também acusar João Pé de Feijão de manipular deputados e senadores para impedir a discussão sobre a reforma agrária.  Gigante permanece na maior cela da Polícia Federal, já o empresário João Pé de Feijão será investigado pelo crime de estelionato: ele afirma vender feijões mágicos quando, na verdade, planta soja transgênica.

 

Cidadãos com necessidades especiais lutam por acessibilidade

“Acessibilidade, eu e minha esposa apenas queremos acessibilidade”. Este é o desejo do casal Soldadinho de Chumbo e Boneca Bailarina que sofrem restrições no dia a dia por conta de suas necessidades especiais. Ele é cadeirante e digitador; ela deficiente visual e recepcionista: ambos trabalham numa empresa que fica no bairro onde moram. Mas as calçadas desniveladas, os sacos de lixo soltos nas ruas e os motoristas impacientes tornaram-se empecilhos na vida do casal. No trabalho, Soldadinho de Chumbo e Boneca Bailarina afirmam que reuniões são realizadas sem a presença deles. “É como se fôssemos deficientes de tudo”, alega Bailarina. O casal atesta que a maior deficiência vivida por eles são os obstáculos encontrados no coração das pessoas.

 

Jovem rica furta sapato de cristal e alega inocência

Um sapatinho de cristal. Este foi o objeto furtado na joalheria Contos de Fadas pela universitária Cinderela, 19 anos. A jovem pertence a uma família de classe alta de Campo Maior e tem várias passagens pela delegacia. Cinderela alega inocência, mas a lista de furtos da garota é grande: bolsas de couro de jacaré, relógios suíços, diamantes africanos, pentes de ouro e perfumes importados. A dona da joalheria, Fada Madrinha, diz que este é o sexto furto da patricinha em sua loja. O advogado da acusada, Príncipe Enamorado, afirma que sua cliente é inocente, pois ela sofre de cleptomania, e que oa culpa é da madrasta de Cinderela que não soube educar a pobre menina rica.

 

Pastor explora a fé de três porquinhos

Um lobo mal, duas versões, três porquinhos. Nesta manhã, Cícero, Heitor e Prático, três porquinhos da Igreja Suíno Sagrado, acusaram o pastor Lobo Mal de desvio de dinheiro. Os três porquinhos afirmaram ao Ministério Público que ofertaram todos os seus bens no dízimo da Igreja para financiar uma excursão que nunca aconteceu. O pastor Lobo Mal desapareceu na Floresta Negra. A polícia não encontrou rastro do pastor larápio. Revoltados, os três porquinhos brigaram entre si e cada um seguiu sua vida: Cícero criou a seita Chiqueiro Suíno, uma sociedade secreta onde só entram leitões machos; Heitor voltou ao catolicismo romano; Prático ficou ateu, morreu de trombose e entrou para o reino dos céus.

E todos os leitores viveram iludidos para sempre…

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Microcontos: Bíblia Moderna – Os Evangelhos

E se os episódios da Bíblia tivessem ocorridos e escritos nos tempos de hoje? Com uma dose de[…]

A bíblia ao alcance da mão

E se os episódios da Bíblia tivessem ocorridos e escritos nos tempos de hoje? Com uma dose de bom humor (sem perder a fé!), aqui segue a versão do Novo Testamento na era digital…

A encarnação do verbo

No princípio era o Verbo… Mas hoje o verbo é clicar, acessar, navegar…

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Anunciação de Maria

Quando terminou de faze a ultrassonografia computadorizada de Maria, o médico Gabriel olha para a virgem e diz: “Parabéns, é menino!”

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Nascimento de Jesus

Manchete de portal de notícias: “Filho de mulher virgem com carpinteiro nasce em barraco de periferia”.

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Os magos

Depois de nascer na pobreza extrema, os magos Unicef, Unesco e FAO deram ao menino Jesus e sua família três presentes mágicos: casa, escola e comida.

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Batizado de Jesus

João Batista diz a Jesus:

– Eu te disse: hoje em dia festa de batizado sai muito mais caro!

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Tentação no deserto

Depois de passar quarenta dias e quarenta noites jejuando, Jesus é tentado pelo diabo do fast food do Macdonald.

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Os apóstolos

Em coletiva à imprensa, o técnico Jesus de Nazaré anuncia que vai escalar o time completo contra o Satanás Futebol Clube.

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Expulsão do vendedores do templo

Contas de bancos, dízimos vultosos, imagens caríssimas, terrenos no céu… Jesus Cristo detonou a fé mercantilista das igrejas Reze-e-Pague.

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A Santa Ceia

Nada de comidas sofisticada, restaurantes nababescos ou requintes luxuosos: a melhor ceia do mundo foi regada a pão e vinho.

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Ressurreição

Jesus precisou apenas de 3 dias para seu nome ecoar por toda a eternidade (morra de inveja, Satanás!).

Fazer poemas…

“FAZER POEMAS É FÁCIL COMO AMORDAÇAR UM LOBO” Paulo Machado, poeta piauiense, já sabia do desafio de fazer[…]

“FAZER POEMAS É FÁCIL COMO AMORDAÇAR UM LOBO”

Paulo Machado, poeta piauiense, já sabia do desafio de fazer poemas. Ele avisou, poucos ouviram…

 

Lápis Verde I

Poema

Palavra feia

Poeta

Nem profissão é…

 

Pobre de ti viver para uns versos

Porque o leitor sofre de alexia

Não quer ler, nem sabe ler, mal pode ler.

Já viu, né?

Vai ganhar menos que uma prostiputa.

 

Um pintor com um Picasso só

Pode ficar rico, capitalista

Um Carlos Drummond de Andrade

Não compra nem a tinta da tela de

Um picasso capitalista.

 

Pobre da Literatura

Ou pobre de ti.

Há poesia em um conflito mundial?

Numa guerra o Sargento diz

Ao Soldado-Poeta:

– Por favor, só não atire flores ao inimigo!