20/11/2018

heróis e super-heróis

Heróis e super-heróis Meus primeiros heróis foram meus pais. Eles me ensinaram a ler, a escrever e me[…]

Heróis e super-heróis

Meus primeiros heróis foram meus pais. Eles me ensinaram a ler, a escrever e me educaram para ser gente. Pedreiro super-responsável, meu pai acordava cedo e voava para o trabalho. Com sua forma humana, transformava desafios em trabalho, ofício em esforço e suor em pão. Voltava da lida demolido do cansaço, mas com um sorriso nos dentes de ver a esposa e os filhos bem. Minha mãe tinha o poder de ler mentes: sabia quando um dos filhos aprontava pela casa. Com sua visão de raio X, sabia escolher as melhores frutas e hortaliças na xepa da semana. Rápida como um raio, conseguia levar os filhos à escola, deixar a casa em dia, cuidar da família inteira e ainda me comprar revistinhas em quadrinhos.

Contos de fadas modernos

Anos 80. Meus primeiros super-heróis surgiram através das mídias. A cultura pop chegara à sua extensão máxima nas últimas décadas do século 20. Super-heróis surgiam de todos os lados: Batman, Homem-Aranha, Flashman, Liga da Justiça, X-Men, Super-Homem, Jaspion, Caverna do Dragão, Tartarugas Ninja, Cavaleiros do Zodíaco, Chapolim Colorado. Foram muitas as aventuras que rechearam minha adolescência de histórias fantásticas: elas foram meus contos de fadas modernos. Enquanto isso, meus pais, heróis da vida real, estoicamente lutavam para dar a melhor educação possível para nossa família. Histórias em quadrinhos, televisão e fliperamas faziam a festa da garotada. Por outro lado, a última década do século 20 chegava cheia de dúvidas para a humanidade.

Anos 90. Nova década, nova fase de vida, novo paradigma. Difícil mesmo era a vida da família brasileira que tinha de estudar, trabalhar, pagar impostos, viver! Na metade de minha adolescência, percebi que começava a gostar mais do lado humano do personagem que do seu alter-ego. Peter Parker, por exemplo, adolescente de poucos amigos, sem jeito com a garotas, CDF da escola, com problemas financeiros em casa… Esse lado da história mostrava que ante de ser super, Peter Parker era um herói da vida real. Entretanto, esse lado humano era pouco explorado em algumas HQs, já que grande parte da narrativa dos gibis consistia no “herói X lutar contra o vilão Y para salvar a cidade Z da destruição”. Enquanto isso, na vida diária dos mortais comuns, meus pais trabalhavam duro para salvar nossa família da pobreza nacional.

Dos quadrinhos para os livros

Depois de anos de aventuras com os super-heróis da cultura pop, as leituras continuaram em minha vida, mas agora era outras histórias e novos personagens despontavam em meu horizonte. Simbá, Marco Polo, Mogli – o menino-lobo, Robison Crusoé, Sherlock Holmes, Robin Wood, os heróis de Júlio Verne e as mil e um noites de Sherazade. Mas a sensação era que se poderia ir mais fundo no espírito humano. De meados dos anos 90 em diante, conheceria apenas heróis e não tanto super-heróis. Eram personagens comuns, homens e mulheres captados pela sensibilidade de escritores e imortalizados nas páginas de contos e romances universais. Heróis do cotidiano, autênticos, problemáticos, anônimos, humanos. Iracema, Brás Cubas, Emma Bovary, Bernando Soares, doutor Jekyll e senhor Hyde, Augusto Matraga, Julieta Capuleto, Victor Frankenstein, Capitu e Bentinho, José Matias, Conde Drácula, Emília, Ulisses, Macabéa, Padre Amaro, Fraülein Elza, Lucídio…

Ainda hoje aprecio quadrinhos, graphic novels, charges e tirinhas de jornal, como também admiro meus pais pelo poder que tiveram em criar seis filhos em tempos difíceis. Ler essas historinhas é meu exercício de humildade leitora, pois não quero nem devo esquecer como toda essa história começou. Tudo começou com as lições de heróis e super-heróis de dentro e de fora de casa. Assim, com os gibis e livros, adquiri o poder da leitura e do conhecimento, e como disse meu pai parafraseando o filme do Homem-Aranha, de Stan Lee: “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades”.

Na sala de aula

No dia das crianças e no dia do professor, uma das muitas situações que estes personagens da vida[…]

No dia das crianças e no dia do professor, uma das muitas situações que estes personagens da vida real deparam-se com certa frequência em nossas escolas…

Ninguém mexe com Julinho. Julinho mexe com todo mundo. A sala de aula, pequena; a turma grande. Quem passa por Julinho… Cotoveladas. Na sala Julinho dorme, acorda zangado, inflama-se de vez. Palavras grosseiras, rudes, quase ameaças. A professora intervém. Fala. Aproxima-se.

Nada.

Carlinhos só responde “nada!”.

A questão vira um problema na 5ª série. Ninguém fala mais com Julinho. Ninguém compreende o jeito dele. Todos preservam-se às suas cotoveladas. Na escola, na sala de aula, no recreio, Julinho sempre só, de cara fechada, sem culpa ou piedade, própria ou alheia. Ele entra na sala, abre o livro, escreve a tarefa. Chega em casa, fecha os olhos, não responde os exercícios. Ele não é um mau menino. É um menino mal. Mal fala, mal aprende, mal-humorado, mal-me-quer.

Uma nova aproximação da professora acontece. É a única da escola com um pouco de paciência com Julinho. Ela não conhece os cotovelos do garoto. Ele quase fala, ouve a preocupação da professora, comove-se. Incontinênti, o menino incontinente tranca-se no cofre de suas angústias infantis.

A professora desespera-se. A direção da escola é avisada do caso Julinho. “Chamem a mãe do menino!”. A mãe da criança não vem. “Chamem o pai!”. Não vem o pai. Julinho só piora na escola e na vida. A professora conversa com os coleguinhas do garoto. Não adianta. Ninguém quer aproximação com Julinho. Cotovelada dói, professora! A última vez uma criança saiu chorando.

Segue o ano letivo. Os alunos devem aprender. O conteúdo não pode atrasar.

A professora segue o curso, impotentes. Preocupa-se com a criança. Há algo muito errado por aqui. Problemas de família arrasam qualquer um. Julinho não conhece a solução. A professora tenta, inventa, faz de tudo. Nada de música para alegrar, joguinhos não resolvem, não adianta desenho. A professora recorda da universidade: não lhe ensinaram essa parte, a de resolver problemas de verdade. Nenhuma teoria disciplina Julinho. Será que os teóricos conhecem o chão da sala de aula? A professora ouve conselhos dos muitos colegas de profissão.

Um. Dois. Três.

É melhor aceitar a situação. Ninguém vai ficar doido por causa disso. Todo mundo tem problemas nos dias de hoje… A sala de aula é pequena, a turma grande. Julinho é só uma exceção estatística das escolas e dos ministérios da educação. Segue o semestre. Dia de prova. Uma criança passa próximo da carteira de Julinho. Abaixa-se, pega a borracha caída no chão. Uma cotovelada certeira no nariz.

Sangue.

A confusão está armada na sala de aula da 5ª série. A criançada agita-se: revolta de uns; medo de outros. A mãe do menino agredido é chamada à escola. Exige a expulsão imediata do agressor. Ninguém é por Julinho. Ninguém toca em Julinho. O garoto ouve sermões da montanha de sua vergonha e ameaças veladas dos degredados filhos de eva. Julinho senta na cadeira, pesado. Recolhe os cotovelos à mesa, assustadores. Abaixa a cabeça. Olha para dentro. Deixa umedecer os olhos e pronto…

Pranto.

Uma semana de suspensão para o menino mal-criado. Finalmente aparece a mãe do menino. Veste vermelho, sorri amarelo. A coisa está ruim para seu filho. Escuta a diretora num meio mundo de problemas da educação. A professora é mais breve no desabafo. A vida é curta para ser pequena, disse o poeta.

Qual o problema de Julinho? É o pai. Bate nele? Não, tem o maior amor pelo menino. Então? Tem um problema sim, a cachaça. O pai trabalha o dia todo; todo dia ele bebe à noite inteira. Aí não volta para casa. Julinho só dorme direito com o pai em casa. A criança sai pela noite à procura do pai.

Um, dois, três bares.

Julinho não aceita a situação do pai alcoólatra. Uma criança pode ficar doida por causa disso. Todo mundo tem problemas nos dias de hoje, até as crianças. Pela noite afora, o menino procura o pai. “O menino é pai do homem”, diretora. A agressividade do garoto é causada pela ausência do pai em sua vida. Uma noite, voltou o pai mais cedo, sem embriaguez. Naquele dia, Julinho dormiu sereno, circunspecto, sem culpa ou piedade, própria ou alheia.

Agora a diretora compreende o caso. Compreendem a diretora e a mãe do menino agredido por Julinho. A mãe já conversou com o pai beberrão; o pai não aprende. A mãe já explicou para Julinho; o garoto insiste. Dias se passam. O menino volta à escola. Tem dias que Julinho dorme na sala. Acorda zangado, mete a cotovelada na carteira. Todos recuam. Hoje Julinho faltou novamente. A mãe não vai aparecer. O pai não conta.

Segue o ano letivo. Os alunos devem aprender. O conteúdo não pode atrasar.

Microcontos: conto, não conto

Essa difícil arte de escrever se faz com muitas ou poucas palavras.  Seja como for, economizar é exigir[…]

Essa difícil arte de escrever se faz com muitas ou poucas palavras.  Seja como for, economizar é exigir do mínimo o melhor da expressão. Não sei se consegui, mas vão aqui uns microcontos que nasceram pequenos para os leitores.

A dor do parto

Anos de sonho do casal, seis meses de esperança e o resto da vida mortos!

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Estranhos no Paraíso

Adão não tinha umbigo. Eva nasceu de um homem: pai dela e esposa dele. Eles não tiveram infância…

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Vício

Ele saiu e não voltou. Como sempre, ela esperava: comia amargo, bebia salobro. Outro dia, trouxeram o marido morto. Silêncio bizarro: finalmente ela viveria em paz!

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Depressão

Cloridrato de sertralina. Cloridrato de paroxetina. Cloridratos: às vezes, a vida parece uma droga!

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O bicho-homem

No lixão da cidadezinha, um homem coleta sobras de vidas inteiras: no supermercado da fome, o bicho-homem é só bicho, cem bocas e sem nomes.

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Coisa Pública

Nome: Servidor Público Federal. Idade: 6.500,00 reais. Estado civil: masculino. Sexo: solteiro. Profissão: Francisco Santos. Idade: parda. O resto é humanidade.

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Epopeia de um Zé Ninguém

Era uma vez um homem que morreu…

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Dois pensadores e um ônibus

– No busão teresinense só o ônibus é coletivo!

– As pessoas são acidentes de trânsito e de ego!

Educação em três atos

  Os jornais anunciam: Depois de dois meses sem salário, o Sindicato dos Professores ocupou o jardim do[…]

 

Os jornais anunciam:

Depois de dois meses sem salário, o Sindicato dos Professores ocupou o jardim do Palácio do Governo há 7 dias. A classe reivindica melhores condições de trabalho, educação de qualidade e plano de cargos e salários. A Assessoria do Governo ainda não fez nenhum pronunciamento. Os professores aguardam ser atendidos pelo Governador.

Primeiro ato: o professor

Colegas professores. Não vamos desistir até sermos ouvidos em nossas reivindicações. Queremos o diálogo e o respeito à classe de professores, de alunos e de pais de alunos, porque nesta circunstância de greve, todos são prejudicados. A desunião dos professores nos enfraquece como classe trabalhadora e fortalece o descompromisso do estado brasileiro para conosco.  Por isso estamos em greve para fazer valer a classe docente, para termos condições de oferecer educação de qualidade . Como o aluno vai aprender algo se a escola não possui estrutura satisfatória? Como se inteirar de uma turma se o professor é lotado em várias escolas e turnos em um curto espaço de tempo?Como capacitar-se profissionalmente se a renumeração é diminuta? Como atingir qualidade de ensino em uma turma de 50 alunos quando a sala comporta apenas 40 estudantes?  Vamos juntos lutar por direitos de crescimento profissional e desenvolvimento comunitário. À luta, educadores!

Segundo ato: os pais de aluno

O pai liga a TV e irrita-se, pois seu programa favorito foi suspenso. A mídia está cobrindo a manifestação dos professores. “Mais uma vez essa chatice de greve!” . O filho chega da rua e quer saber se a greve continua porque assim ele terá mais tempo para usar o celular o dia inteiro e passear com os amigos a noite toda. A mãe se preocupa com a escola do filho e apoia a reivindicação dos professores, pois sabe que a educação precisa de melhorias urgentes.

O pai só reclama: “se os professores ganham pouco, que mudem de profissão!”. O filho diz que os docentes passam tanto conteúdo que não sobra tempo para mais nada na vida. A mãe lembra o marido da importância que a educação tem numa sociedade desigual. Ao filho ela adverte não deixar os estudos para a última hora. Mas o pai nunca vai às reuniões do colégio; o filho apronta bastante em sala de aula. Só a mãe percebe que o futuro daquela família passa pela educação. Daí insistir com o marido para visitar a escola do filho; daí fazer o filho agir como ela o havia ensinado. Dona de casa, a mãe sabia como a educação lhe fizera falta no trabalho e na vida. E a manifestação continua pela TV.

O marido pede para assistir ao futebol. O filho ouve música pela internet. A mãe faz sinal de silêncio.

Terceiro ato: o Governador

Da janela do Palácio, o Governador e o Secretário de Educação assistem aos professores instalados no jardim da sede do governo.

– Esses professores estão organizados demais para o meu gosto.

– A situação não está favorável para nós, senhor Governador. O teto de uma escola reformada desabou no fim de semana, os investimentos em educação mal cresceram em seu governo, os salários dos professores continuam atrasados e os alunos podem perder o ano letivo. Precisamos fazer alguma coisa urgente ou perderemos a próxima eleição.

– Ora bolas, a educação custa muito caro! Ou eu financio minha campanha eleitoral ou gasto tudo para todos aprenderem a ler e a escrever, pensou o Governador apedeuta.

– Concordo com o senhor – socorreu o Secretário de Educação – mas devemos fazer algo antes que os professores o façam.

– Então vamos ter que estruturar as escolas com bons livros, laboratórios, quadras de esporte, merenda de verdade, criar plano de carreira que estimule a capacitação docente e, meu Deus, teremos que aumentar o salário do professor.

O celular do Secretário de Educação toca.

– Senhor, acabei de receber uma boa notícia para nos tirar dessa situação. Um incêndio atingiu o principal shopping da cidade. Todas as equipes de repórteres que estavam no jardim do palácio cobrindo a manifestação dos professores foram noticiar o incêndio.

– Excelente! Agora chame a tropa de choque com urgência: precisamos dispersar rapidamente esses professores do jardim!

(Para os desavisados, isto não é fakenews, é literatura)

 

Carta aberta em defesa dos Jumentos Prefeitos

Jumentos revoltam-se com usurpação de prêmio de gestão por prefeitos do Brasil Carta aberta em defesa dos Jumentos[…]

Jumentos revoltam-se com usurpação de prêmio de gestão por prefeitos do Brasil

Carta aberta em defesa dos Jumentos Prefeitos

Senhor Jumento Precioso, prefeito da cidade Brasil,

Vimos por meio desta pedir desculpas por terem questionado o título de Gestor Nota 10 que o senhor Jumento tanto lutou para adquiri-lo por esforços próprios. Sabemos que o dinheiro público é coisa difícil de arrecadar e fácil de gastar, daí entendermos quão sofrível foi tirar do bolso do contribuinte essa grana boa para ir a Recife receber esta honra bem paga. Os impropérios da imprensa global são frutos de perseguição política e inveja pessoal de algum filho de uma égua qualquer.

A medalha e o diploma que o Excelentíssimo Senhor Jumento recebera mediante augusta gestão corruptível e abalável caráter administrativo, tais prêmios correm o Brasil inteiro a premiar gente como a gente – do Rio grande do Sul ao Piauí, de Picos a Campo Maior.

Acreditamos que a mídia local de sua cidade abafará o caso ou colocará panos quentes na situação até que outro caso qualquer roube a cena – porque de roubar nós entendemos bem, especialmente em viagens e outros gastos com dinheiro público. Mas convém que sua rádio e portal de fakenews noticiam Nota Oficial ao Público desmentindo essa verdade que a Rede Global lançou aos seus eleitores.

Como não ficaremos calados diante da burrice nacional, lançaremos no ano seguinte o Prêmio Jumento Nota 1000. Acreditamos relinchadamente que o Senhor vem a ser um dos grandes nomes cotados para receber esse laureado troféu como premiação de sua intelejumência administrativa.

Forte abraço e coices nas ventas!

União Brasileira de Prefeitos Jumentos – UBPJ-PI (Seção Piauí)

Aprendiz de Versos

Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Luís Vaz de Camões, grandes poetas do idioma português, são a[…]

Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Luís Vaz de Camões, grandes poetas do idioma português, são a inspiração deste aprendiz de versos para os poemas que seguem abaixo.

 

Trem de Ferro

O Trem,

Maquinista da Solidão,

É uma Saudade

De Ferro.

 

No meio do caminho de Pedra

No meio do Caminho

Tinha um Poeta.

Naquele Sapato

Tinha uma Pedra.

 

Tinha um Caminho

No meio da Pedra.

No Meio do Caminho de Pedra

Tinha um Sapato de Poeta.

 

Cabo das Tormentas

Adamastor, meu amigo

Esse teu amor gigante

Te me amaldiçoou.

 

Essa Deusa Mar-Aquário

Por que ninfa Tétis…

Por que esse amor…

Ela te me beijou…?

 

E do sublime preço apreço

Ao oceano de tormentos:

Penha-carne em pedra

Pedra-amor em rochedo

E o soçobrar duns poetas.

Futebol de rua

Menino é menino. E basta um terreno baldio, de preferencia plano, para a molecada fazer daquele espaço inútil um[…]

Foto de Claudio Vieira – Futebol de Rua

Menino é menino. E basta um terreno baldio, de preferencia plano, para a molecada fazer daquele espaço inútil um estádio de futebol, maracanã de suas glórias anônimas.

Juntam-se alguns meninoleques do bairro e formam-se times para jogar a copa do mundo das ruas. Um bom horário para o futebol de rua são os fins de tarde. O campinho improvisado é de todos, principalmente do dono do terreno baldio que vez ou outra aparece para espantalhar a criançada do local. A única coisa verde-grama naquele lugar são os sonhos pueris de alguns meninos de se tornarem um jogador profissional para vencer a pobreza nacional. As chuteiras para jogar no baldio são as da melhor marca possível – pés. As traves do gol, qualquer pedra nascida para ser trave de terreno de bairro, mas as preferidas são os tijolos que se retiram da construção da vizinhança. A bola pode ser uma cabeça de boneca, uma bola de papel envolto em plástico amarrado ou uma bola surrada de gols, quando alguém tem, é claro. Aí é colocar o pé mais que no chão e brincar de uma disputa saudável.

Craques desconhecidos

O time é formado a grito, à convocação antecipada, a cologuismo de rua, à vontade de vencer sempre e jogar contra todos. As regras do jogo são costumeiras. Dois times jogam num tempo de 10 minutos: o primeiro que fizer um gol ganha a partida e continua jogando até ser derrotado por algum time. Toda partida é um clássico. Tem escanteio cobrado, pênalti perdido, firula de craque; tem jogador fominha, goleiro-gato, atacante garapeiro, meio-campo astucioso. Juiz ali não há porque não existe julgamento sem inclinação. Levar falta é algo que deve ser um consenso entre os dois times senão dá em briga, choro e ranger de dentes.

Espectadores torcem por um amigo, um vizinho, um irmão que joga para ganhar do time adversário. Enquanto isso, outros jogadores aguardam na beirada do campinho o fim da partida para entrar em campo. Goleiro sofre com joelho ralado em defesa do gol e da honra do bairro; menino respira poeira do campinho até cair doente, mas não cede a vez para outro jogar; caco de vidro ou pedra pontuda fazem marcação cerrada nos dois times acirrados; um menino grandalhão sempre dá trombadas propositais em jogadores mirradinhos.

Bola na rede

Dar uma bicuda na bola – um chutão ao estilo patada atômica – é a apelação de um gol que não sai nunca. Aí o goleiro calça os chinelos nas mãos para aguentar as boladas que recebe. O ruim é quando a bola erra o alvo e vai bater na janela de alguma casa próxima. A rendonda às vezes não retorna, vítima de tesoura ou faca irritada; quando vem, vem cheia de xingamentos e vizinhos. E quando menos se espera, um pai-técnico surge para dar palpite no jogo da molecada. O filho-artilheiro fica todo errado. Algum tempo depois, uma mãe-torcedora aparece com um cinturão na mão, torcendo para encontrar o filho e o esposo que disseram que dariam apenas uma voltinha no bairro.

Benjamim Wright, premiado radialista e cronista de esportes, formulou o que hoje é o clichê “O futebol é uma caixinha de suspresas”. E o futebol de rua, desses de terrenos baldios do tamanho do Brasil? Como torcedor doente de um jogo saudável, a molecada escreve com os pés no chão que o futebol de rua é a porta da caixinha de surpresas.

Na festa de Santo Antônio

  De 31 de maio a 13 de junho, Campo Maior realiza a festa religiosa a Santo Antônio.[…]

 

Foto retirado de http://diocesedecampomaior.org.br

De 31 de maio a 13 de junho, Campo Maior realiza a festa religiosa a Santo Antônio. Por toda a cidade e região dos carnaubais, os festejos do santo casamenteiro impulsionam a fé sincera do povo de Deus.

É festa e a cidade se agita e se enfeita todo para o grande evento: na abertura dos festejos do santo católico acontece a procissão com a imagem, a bandeira e o mastro de Santo Antônio a conduzir o povo das portas do colégio Patronato Nossa Senhora de Lourdes e segue até a majestosa Catedral, no centro da cidade. Homens e mulheres seguram no fetiche do santo na crença de encontrar um bom partido para casar, alcançando o milagre tão sonhado.

E nessas horas de procissão, para pegar no mastro do santo (não quero dizer pau, é claro!), para pegar no mastro vale tudo: começa um empurra-empurra todo mundo; ao longe grita-se “sai da frente, por favor”; um gay reza forte para casar em breve; alguém pisa numa unha encravada de dor; algumas caras feias acendem velas; um luterano distante volta-se para a fé só em Deus; muita lágrima e suor seguem a procissão; uma mulher joga praga nas encalhadas locais que impedem a procissão de andar; algumas pessoas desmaiam para cair em cima do pau santo, entre essas e outras manifestações de fé e festa… Aí, depois da graça alcançada, após encontrarem o amor ávido, algumas pessoas, depois de certo tempo, seguem até a cidade de Altos e pedem a São José que ajeite seus maridos errantes.

Fé e festa

Santo Antônio aproveita o mês de junho e tira férias. Pedi a Deus para visitar os festejos de Campo Maior. Deus permite, mas adverte ao taumaturgo: “Cuidado, Antônio. E assim, Santo Antônio chega à cidade dos Heróis do Jenipapo, suja os santos pés no açude sujo de pecado ecológico, esbarra num político distribuindo dinheiro, mas surpreende-se com a fé feérica do povo e com as orações a embalar toda a cidade.  Aos clérigos da Igreja, Santo Antônio pede mais fé e menos amém aos patrocinadores da festa local.  O santo também reza pelas barraquinhas que não passaram por vistoria elétrica ou sanitária para funcionar em um evento deste porte. Um extintor de incêndio cairia bem nestas barracas de meu Deus.

O negócio é comer, rezar e amar. Muitos turistas vêm paras as festas nos clubes da cidade e contribuem para a balança comercial favorável dos empresários locais. Graças a Deus! O Espaço Cultural promove festas pagas com dinheiro público para aqueles que preferem o circo anual ao pão nosso de cada dia.  Para nossa vergonha regional, mendigos brotam do chão (ou de nossos olhos cegos) e esperam fora da Catedral pelo chamado de Deus, porque a piedade humana não cabe na igreja cheia de gente de bem. Não cabe, pois em meio à festa religiosa, outra fé – a do dinheiro – domina a alma de alguns cidadãos em meio à barracas de tentação capitalista.

Festa e fé

Seu Laurindo, nos seus 80 anos campo-maiorenses, viveu todas as fases de sua vida distribuídas nas treze noites dos festejos de Santo Antônio. Na infância, sua mãe obrigava Laurindo a assistir às trezenas, quando o menino só queria brincar no parque de diversões. Na adolescência, o jovem aproveitava as trezenas para marcar encontros com as moças de família entre as barracas dos festejos, com todo o cuidado para que os familiares da mocinha não vissem nada (Laurindo só casou com uma moça depois que ela pegou no pau). Quando adulto, depois da oração da igreja, Laurindo dividia-se entre saborear os pratos regionais das barracas ou correr para os cabarés da rua Santo Antônio – de toda forma acabava comendo. Agora que velho, o velho Laurindo reza e passeia placidamente pelos festejos que o viram crescer e devir. Os netos e netas vivem agora as mesmas fases que ele percorreu um dia.

Laurindo agradece aos céus. Ele encontra seu velho amigo Santo Antônio que sorri e diz: “Ano que vem tem mais”.

Microcontos: eu conto, tu contas

Microconto é isso: expressar o máximo de emoção possível com o mínimo de palavras necessárias. Por quê? Porque[…]

Microconto é isso: expressar o máximo de emoção possível com o mínimo de palavras necessárias. Por quê? Porque as palavras só dizem metade de tudo aquilo que sentimos. Vale a pena tentar.

 

Química do amor

            – Eu te átomo!

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Itinerário de Pasárgada

            Pasárgada? Onde fica  Pasárgada? Na minha casa. No teu quarto. Na minha cama. No teu corpo.

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Novos tempos

Papai, o que é sexo? Sexo é a união carnal de dois seres para a reprodução, fricção interna das genitálias, explosão espasmódicas de mucos… Hum, adulto diz cada coisa!

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Gravidez masculina

O poeta é um homem grávido. Escrever é dar a luz às palavras.

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Poeta em sala de aula

– O que é gramática? A professora olha para o aluno-poeta.

– É uma ilha de regras cercada de exceções por todos  os lados.

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Conflito de gerações

A criança aprendeu a falar porra com desenvoltura de adulto. Era porra pra lá, porra pra cá. “Porra não, minha filha, diga: meu Deus”, raiou o pai. “Porra, meu Deus!” Respondeu a filha.

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Amores eternos

– Jamais te esquecerei… Eh… Ah…

– Arlete, meu nome é Arlete.

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Velório

Ele abraça a viúva ao lado do caixão. Solta um flato rasteiro. O odor espalha-se ao redor do morto. O peidante reclama à viúva: “Começou a feder, tá na hora de enterrar”.

 

 

Trabalhadores invisíveis

Quadro Operários, de Tarsila do Amaral – REPRODUÇÃO WIKIART Você já olhou para todos os lados? E se eu lhe[…]

Quadro Operários, de Tarsila do Amaral – REPRODUÇÃO WIKIART

Você já olhou para todos os lados? E se eu lhe disser que há mais vida do que a gente costuma enxergar! Nas ruas e praças, no trabalho e na volta para casa, tantas pessoas são ignoradas por nós simplesmente porque aprendemos a ver a vida virtual e não mais enxergamos o mundo real. Pois bem, apresento-lhes duas pessoas que pensam, duas vidas que existem, mas a cidade não vê.

O homem por trás da pá

Gilberto Albuquerque, 45 anos, casado, residente no bairro de Flores. Três filhos, um rim, coveiro por falta de sorte. Sabe dizer quantas pessoas já enterrou no cemitério da cidade. “Mais de 100 pessoas: gente rica e pobre, feia e bonita, todo mundo acaba na vala, meu amigo!” Nada tímido, ele mostra as mãos calejadas da labuta com a morte dos outros. Nesse tempo todo trabalhando em cemitério, afirma nunca ter visto alma; só uns sustos nas noites longas de madrugadas chuvosas, sustos que ele não sabe explicar direito.

O que mais lhe dói na profissão é ver enterro de criança, de adolescente. “Uma pena, coisa triste mesmo porque essas pessoas tinham tanto para descobrir…” Na maioria das vezes, as pessoas sequer notam o homem por trás da pá. Quando chega o dia de Finados, é aquele mundaréu de gente visitando o cemitério e nem nesse dia, Seu Gilberto é notado. “Parece até que eu já morri”, desabafa nosso herói problemático. E falando em morte, perguntado se ele teme a fealdade do horrível transe, Seu Gilberto suspira: “Só não quero morrer abandonado, sozinho, esquecido num canto ou enterrado como indigente…”.

A mulher invisível

Dona de uma beleza cansada, diante de uma casa grande, ela chega cedo ao lar alheio e se prepara para a batalha de uma empregada doméstica. Ela passa, lava e cozinha. Roupa, pratos e comida. Varre, enxuga e espana. Chão, louças e móveis. Arruma, limpa e serve. Casa, quintal e patrões. Entre uma ação e outra, sua imaginação sonha dias melhores: “Quero é ter forças pra formar minha filha na universidade”. Mãe em tempo integral, quando pode, fala com a filha pelo celular: “A menina estuda enfermagem na capital e mora com uma tia”.

O pai da criança partiu cedo e de nada mais a mãe soube. Ela mora de aluguel no bairro Fripisa, acorda cedo todo dia, paga as contas regularmente, mas faltar ao trabalho só em caso de doença. “Eu passo mais tempo dentro do serviço do que meus patrões na própria casa”. Do serviço para sua casinha? “Não, senhor, tenho escola à noite”. Senhora de sorrisos fraternos, certa vez ela encontrou o patrão e os amigos dele num shopping da capital, mas o chefe fingiu que não a conhecia… O que dói nela é apenas ser notada pelo trabalho que executa, como se não existisse além disso. “O que é mais importante, a pessoa ou o que ela faz? Gente, eu existo!”. Esta é dona Maria das Chagas, 35 anos.

Os eventos acima bem que poderiam ser obra de ficção: os nomes são fictícios, as histórias,  reais. Este é apenas o encontro da vida com a dura realidade nossa de cada dia. Literatura? Jornalismo? Não, isso são as vidas que ninguém vê.