13/11/2019

Trabalhadores invisíveis

Quadro Operários, de Tarsila do Amaral – REPRODUÇÃO WIKIART Você já olhou para todos os lados? E se eu lhe[…]

Quadro Operários, de Tarsila do Amaral – REPRODUÇÃO WIKIART

Você já olhou para todos os lados? E se eu lhe disser que há mais vida do que a gente costuma enxergar! Nas ruas e praças, no trabalho e na volta para casa, tantas pessoas são ignoradas por nós simplesmente porque aprendemos a ver a vida virtual e não mais enxergamos o mundo real. Pois bem, apresento-lhes duas pessoas que pensam, duas vidas que existem, mas a cidade não vê.

O homem por trás da pá

Gilberto Albuquerque, 45 anos, casado, residente no bairro de Flores. Três filhos, um rim, coveiro por falta de sorte. Sabe dizer quantas pessoas já enterrou no cemitério da cidade. “Mais de 100 pessoas: gente rica e pobre, feia e bonita, todo mundo acaba na vala, meu amigo!” Nada tímido, ele mostra as mãos calejadas da labuta com a morte dos outros. Nesse tempo todo trabalhando em cemitério, afirma nunca ter visto alma; só uns sustos nas noites longas de madrugadas chuvosas, sustos que ele não sabe explicar direito.

O que mais lhe dói na profissão é ver enterro de criança, de adolescente. “Uma pena, coisa triste mesmo porque essas pessoas tinham tanto para descobrir…” Na maioria das vezes, as pessoas sequer notam o homem por trás da pá. Quando chega o dia de Finados, é aquele mundaréu de gente visitando o cemitério e nem nesse dia, Seu Gilberto é notado. “Parece até que eu já morri”, desabafa nosso herói problemático. E falando em morte, perguntado se ele teme a fealdade do horrível transe, Seu Gilberto suspira: “Só não quero morrer abandonado, sozinho, esquecido num canto ou enterrado como indigente…”.

A mulher invisível

Dona de uma beleza cansada, diante de uma casa grande, ela chega cedo ao lar alheio e se prepara para a batalha de uma empregada doméstica. Ela passa, lava e cozinha. Roupa, pratos e comida. Varre, enxuga e espana. Chão, louças e móveis. Arruma, limpa e serve. Casa, quintal e patrões. Entre uma ação e outra, sua imaginação sonha dias melhores: “Quero é ter forças pra formar minha filha na universidade”. Mãe em tempo integral, quando pode, fala com a filha pelo celular: “A menina estuda enfermagem na capital e mora com uma tia”.

O pai da criança partiu cedo e de nada mais a mãe soube. Ela mora de aluguel no bairro Fripisa, acorda cedo todo dia, paga as contas regularmente, mas faltar ao trabalho só em caso de doença. “Eu passo mais tempo dentro do serviço do que meus patrões na própria casa”. Do serviço para sua casinha? “Não, senhor, tenho escola à noite”. Senhora de sorrisos fraternos, certa vez ela encontrou o patrão e os amigos dele num shopping da capital, mas o chefe fingiu que não a conhecia… O que dói nela é apenas ser notada pelo trabalho que executa, como se não existisse além disso. “O que é mais importante, a pessoa ou o que ela faz? Gente, eu existo!”. Esta é dona Maria das Chagas, 35 anos.

Os eventos acima bem que poderiam ser obra de ficção: os nomes são fictícios, as histórias,  reais. Este é apenas o encontro da vida com a dura realidade nossa de cada dia. Literatura? Jornalismo? Não, isso são as vidas que ninguém vê.

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