17/07/2019

Educação em três atos

  Os jornais anunciam: Depois de dois meses sem salário, o Sindicato dos Professores ocupou o jardim do[…]

 

Os jornais anunciam:

Depois de dois meses sem salário, o Sindicato dos Professores ocupou o jardim do Palácio do Governo há 7 dias. A classe reivindica melhores condições de trabalho, educação de qualidade e plano de cargos e salários. A Assessoria do Governo ainda não fez nenhum pronunciamento. Os professores aguardam ser atendidos pelo Governador.

Primeiro ato: o professor

Colegas professores. Não vamos desistir até sermos ouvidos em nossas reivindicações. Queremos o diálogo e o respeito à classe de professores, de alunos e de pais de alunos, porque nesta circunstância de greve, todos são prejudicados. A desunião dos professores nos enfraquece como classe trabalhadora e fortalece o descompromisso do estado brasileiro para conosco.  Por isso estamos em greve para fazer valer a classe docente, para termos condições de oferecer educação de qualidade . Como o aluno vai aprender algo se a escola não possui estrutura satisfatória? Como se inteirar de uma turma se o professor é lotado em várias escolas e turnos em um curto espaço de tempo?Como capacitar-se profissionalmente se a renumeração é diminuta? Como atingir qualidade de ensino em uma turma de 50 alunos quando a sala comporta apenas 40 estudantes?  Vamos juntos lutar por direitos de crescimento profissional e desenvolvimento comunitário. À luta, educadores!

Segundo ato: os pais de aluno

O pai liga a TV e irrita-se, pois seu programa favorito foi suspenso. A mídia está cobrindo a manifestação dos professores. “Mais uma vez essa chatice de greve!” . O filho chega da rua e quer saber se a greve continua porque assim ele terá mais tempo para usar o celular o dia inteiro e passear com os amigos a noite toda. A mãe se preocupa com a escola do filho e apoia a reivindicação dos professores, pois sabe que a educação precisa de melhorias urgentes.

O pai só reclama: “se os professores ganham pouco, que mudem de profissão!”. O filho diz que os docentes passam tanto conteúdo que não sobra tempo para mais nada na vida. A mãe lembra o marido da importância que a educação tem numa sociedade desigual. Ao filho ela adverte não deixar os estudos para a última hora. Mas o pai nunca vai às reuniões do colégio; o filho apronta bastante em sala de aula. Só a mãe percebe que o futuro daquela família passa pela educação. Daí insistir com o marido para visitar a escola do filho; daí fazer o filho agir como ela o havia ensinado. Dona de casa, a mãe sabia como a educação lhe fizera falta no trabalho e na vida. E a manifestação continua pela TV.

O marido pede para assistir ao futebol. O filho ouve música pela internet. A mãe faz sinal de silêncio.

Terceiro ato: o Governador

Da janela do Palácio, o Governador e o Secretário de Educação assistem aos professores instalados no jardim da sede do governo.

– Esses professores estão organizados demais para o meu gosto.

– A situação não está favorável para nós, senhor Governador. O teto de uma escola reformada desabou no fim de semana, os investimentos em educação mal cresceram em seu governo, os salários dos professores continuam atrasados e os alunos podem perder o ano letivo. Precisamos fazer alguma coisa urgente ou perderemos a próxima eleição.

– Ora bolas, a educação custa muito caro! Ou eu financio minha campanha eleitoral ou gasto tudo para todos aprenderem a ler e a escrever, pensou o Governador apedeuta.

– Concordo com o senhor – socorreu o Secretário de Educação – mas devemos fazer algo antes que os professores o façam.

– Então vamos ter que estruturar as escolas com bons livros, laboratórios, quadras de esporte, merenda de verdade, criar plano de carreira que estimule a capacitação docente e, meu Deus, teremos que aumentar o salário do professor.

O celular do Secretário de Educação toca.

– Senhor, acabei de receber uma boa notícia para nos tirar dessa situação. Um incêndio atingiu o principal shopping da cidade. Todas as equipes de repórteres que estavam no jardim do palácio cobrindo a manifestação dos professores foram noticiar o incêndio.

– Excelente! Agora chame a tropa de choque com urgência: precisamos dispersar rapidamente esses professores do jardim!

(Para os desavisados, isto não é fakenews, é literatura)

 

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