13/11/2018

Na sala de aula

No dia das crianças e no dia do professor, uma das muitas situações que estes personagens da vida[…]

No dia das crianças e no dia do professor, uma das muitas situações que estes personagens da vida real deparam-se com certa frequência em nossas escolas…

Ninguém mexe com Julinho. Julinho mexe com todo mundo. A sala de aula, pequena; a turma grande. Quem passa por Julinho… Cotoveladas. Na sala Julinho dorme, acorda zangado, inflama-se de vez. Palavras grosseiras, rudes, quase ameaças. A professora intervém. Fala. Aproxima-se.

Nada.

Carlinhos só responde “nada!”.

A questão vira um problema na 5ª série. Ninguém fala mais com Julinho. Ninguém compreende o jeito dele. Todos preservam-se às suas cotoveladas. Na escola, na sala de aula, no recreio, Julinho sempre só, de cara fechada, sem culpa ou piedade, própria ou alheia. Ele entra na sala, abre o livro, escreve a tarefa. Chega em casa, fecha os olhos, não responde os exercícios. Ele não é um mau menino. É um menino mal. Mal fala, mal aprende, mal-humorado, mal-me-quer.

Uma nova aproximação da professora acontece. É a única da escola com um pouco de paciência com Julinho. Ela não conhece os cotovelos do garoto. Ele quase fala, ouve a preocupação da professora, comove-se. Incontinênti, o menino incontinente tranca-se no cofre de suas angústias infantis.

A professora desespera-se. A direção da escola é avisada do caso Julinho. “Chamem a mãe do menino!”. A mãe da criança não vem. “Chamem o pai!”. Não vem o pai. Julinho só piora na escola e na vida. A professora conversa com os coleguinhas do garoto. Não adianta. Ninguém quer aproximação com Julinho. Cotovelada dói, professora! A última vez uma criança saiu chorando.

Segue o ano letivo. Os alunos devem aprender. O conteúdo não pode atrasar.

A professora segue o curso, impotentes. Preocupa-se com a criança. Há algo muito errado por aqui. Problemas de família arrasam qualquer um. Julinho não conhece a solução. A professora tenta, inventa, faz de tudo. Nada de música para alegrar, joguinhos não resolvem, não adianta desenho. A professora recorda da universidade: não lhe ensinaram essa parte, a de resolver problemas de verdade. Nenhuma teoria disciplina Julinho. Será que os teóricos conhecem o chão da sala de aula? A professora ouve conselhos dos muitos colegas de profissão.

Um. Dois. Três.

É melhor aceitar a situação. Ninguém vai ficar doido por causa disso. Todo mundo tem problemas nos dias de hoje… A sala de aula é pequena, a turma grande. Julinho é só uma exceção estatística das escolas e dos ministérios da educação. Segue o semestre. Dia de prova. Uma criança passa próximo da carteira de Julinho. Abaixa-se, pega a borracha caída no chão. Uma cotovelada certeira no nariz.

Sangue.

A confusão está armada na sala de aula da 5ª série. A criançada agita-se: revolta de uns; medo de outros. A mãe do menino agredido é chamada à escola. Exige a expulsão imediata do agressor. Ninguém é por Julinho. Ninguém toca em Julinho. O garoto ouve sermões da montanha de sua vergonha e ameaças veladas dos degredados filhos de eva. Julinho senta na cadeira, pesado. Recolhe os cotovelos à mesa, assustadores. Abaixa a cabeça. Olha para dentro. Deixa umedecer os olhos e pronto…

Pranto.

Uma semana de suspensão para o menino mal-criado. Finalmente aparece a mãe do menino. Veste vermelho, sorri amarelo. A coisa está ruim para seu filho. Escuta a diretora num meio mundo de problemas da educação. A professora é mais breve no desabafo. A vida é curta para ser pequena, disse o poeta.

Qual o problema de Julinho? É o pai. Bate nele? Não, tem o maior amor pelo menino. Então? Tem um problema sim, a cachaça. O pai trabalha o dia todo; todo dia ele bebe à noite inteira. Aí não volta para casa. Julinho só dorme direito com o pai em casa. A criança sai pela noite à procura do pai.

Um, dois, três bares.

Julinho não aceita a situação do pai alcoólatra. Uma criança pode ficar doida por causa disso. Todo mundo tem problemas nos dias de hoje, até as crianças. Pela noite afora, o menino procura o pai. “O menino é pai do homem”, diretora. A agressividade do garoto é causada pela ausência do pai em sua vida. Uma noite, voltou o pai mais cedo, sem embriaguez. Naquele dia, Julinho dormiu sereno, circunspecto, sem culpa ou piedade, própria ou alheia.

Agora a diretora compreende o caso. Compreendem a diretora e a mãe do menino agredido por Julinho. A mãe já conversou com o pai beberrão; o pai não aprende. A mãe já explicou para Julinho; o garoto insiste. Dias se passam. O menino volta à escola. Tem dias que Julinho dorme na sala. Acorda zangado, mete a cotovelada na carteira. Todos recuam. Hoje Julinho faltou novamente. A mãe não vai aparecer. O pai não conta.

Segue o ano letivo. Os alunos devem aprender. O conteúdo não pode atrasar.

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