18/02/2019

heróis e super-heróis

Heróis e super-heróis Meus primeiros heróis foram meus pais. Eles me ensinaram a ler, a escrever e me[…]

Heróis e super-heróis

Meus primeiros heróis foram meus pais. Eles me ensinaram a ler, a escrever e me educaram para ser gente. Pedreiro super-responsável, meu pai acordava cedo e voava para o trabalho. Com sua forma humana, transformava desafios em trabalho, ofício em esforço e suor em pão. Voltava da lida demolido do cansaço, mas com um sorriso nos dentes de ver a esposa e os filhos bem. Minha mãe tinha o poder de ler mentes: sabia quando um dos filhos aprontava pela casa. Com sua visão de raio X, sabia escolher as melhores frutas e hortaliças na xepa da semana. Rápida como um raio, conseguia levar os filhos à escola, deixar a casa em dia, cuidar da família inteira e ainda me comprar revistinhas em quadrinhos.

Contos de fadas modernos

Anos 80. Meus primeiros super-heróis surgiram através das mídias. A cultura pop chegara à sua extensão máxima nas últimas décadas do século 20. Super-heróis surgiam de todos os lados: Batman, Homem-Aranha, Flashman, Liga da Justiça, X-Men, Super-Homem, Jaspion, Caverna do Dragão, Tartarugas Ninja, Cavaleiros do Zodíaco, Chapolim Colorado. Foram muitas as aventuras que rechearam minha adolescência de histórias fantásticas: elas foram meus contos de fadas modernos. Enquanto isso, meus pais, heróis da vida real, estoicamente lutavam para dar a melhor educação possível para nossa família. Histórias em quadrinhos, televisão e fliperamas faziam a festa da garotada. Por outro lado, a última década do século 20 chegava cheia de dúvidas para a humanidade.

Anos 90. Nova década, nova fase de vida, novo paradigma. Difícil mesmo era a vida da família brasileira que tinha de estudar, trabalhar, pagar impostos, viver! Na metade de minha adolescência, percebi que começava a gostar mais do lado humano do personagem que do seu alter-ego. Peter Parker, por exemplo, adolescente de poucos amigos, sem jeito com a garotas, CDF da escola, com problemas financeiros em casa… Esse lado da história mostrava que ante de ser super, Peter Parker era um herói da vida real. Entretanto, esse lado humano era pouco explorado em algumas HQs, já que grande parte da narrativa dos gibis consistia no “herói X lutar contra o vilão Y para salvar a cidade Z da destruição”. Enquanto isso, na vida diária dos mortais comuns, meus pais trabalhavam duro para salvar nossa família da pobreza nacional.

Dos quadrinhos para os livros

Depois de anos de aventuras com os super-heróis da cultura pop, as leituras continuaram em minha vida, mas agora era outras histórias e novos personagens despontavam em meu horizonte. Simbá, Marco Polo, Mogli – o menino-lobo, Robison Crusoé, Sherlock Holmes, Robin Wood, os heróis de Júlio Verne e as mil e um noites de Sherazade. Mas a sensação era que se poderia ir mais fundo no espírito humano. De meados dos anos 90 em diante, conheceria apenas heróis e não tanto super-heróis. Eram personagens comuns, homens e mulheres captados pela sensibilidade de escritores e imortalizados nas páginas de contos e romances universais. Heróis do cotidiano, autênticos, problemáticos, anônimos, humanos. Iracema, Brás Cubas, Emma Bovary, Bernando Soares, doutor Jekyll e senhor Hyde, Augusto Matraga, Julieta Capuleto, Victor Frankenstein, Capitu e Bentinho, José Matias, Conde Drácula, Emília, Ulisses, Macabéa, Padre Amaro, Fraülein Elza, Lucídio…

Ainda hoje aprecio quadrinhos, graphic novels, charges e tirinhas de jornal, como também admiro meus pais pelo poder que tiveram em criar seis filhos em tempos difíceis. Ler essas historinhas é meu exercício de humildade leitora, pois não quero nem devo esquecer como toda essa história começou. Tudo começou com as lições de heróis e super-heróis de dentro e de fora de casa. Assim, com os gibis e livros, adquiri o poder da leitura e do conhecimento, e como disse meu pai parafraseando o filme do Homem-Aranha, de Stan Lee: “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades”.

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