21/01/2019

Um salto para o futuro

Começo de ano pede algumas reflexões sobre a  vida na cidade. Segue um testemunho do presente para o[…]

Começo de ano pede algumas reflexões sobre a  vida na cidade. Segue um testemunho do presente para o futuro. 

“Como será o amanhã? Responda quem puder”

O que quererá saber o cronista do futuro sobre a cidade de Campo Maior? Daqui a 100 anos o que dirão as pessoas sobre este município brasileiro? O que quererão saber historiadores, ciborgues, sociólogos, alienígenas, bisnetos ou cibernautas sobre esta pequena cidade?

Atualmente vivemos na pré-história do espírito humano porque nunca saímos da idade de ferro planetária, assim diria o educador francês Edgar Morin ao historiador local Celson Chaves. Cada historiador aponta uma origem para esta cidade centenária: uma fazenda perdida no tempo, uma família oligárquica reinante, uma igreja cristã das antigas… O certo é que por gerações diversas, o sangue do índio extinto e o suor do negro escravizado construíram essa cidade de boas famílias. Neste século 21, as fazendas seculares de Campo Maior continuam a existir e a desafiar a reforma agrária – não há notícias de sem-terra ocupando as charnecas da região.

Campo Maior possui rios – Longá, Surubim e Jenipapo, e um açude grande (está mais para lagoa morta!). Todos eles sofrem com a agressão ambiental nossa de cada dia: assoreamento, lixo e destruição. Mas há também outros rios, açudes e barragens de menor porte na cidade que ainda escapam à malevolência local. A água que chega às residências é de qualidade duvidosa para os rins de muita gente Ainda há reservas de água no subsolo, diversos poços espalhados pela região e muito desperdício urbano.

O açude permanece sujo e o povo continua a fazer caminhadas em sua orla para manter a saúde individual e a sociabilidade hospitaleira em dia, como diz o hino-plágio da cidade. A carnaúba (Copernicia prunifera) é árvore em que tudo se aproveita e sobrevive a estiagens regulares, todavia não se sabe se ela resistirá à especulação imobiliária e às alterações climáticas apocalípticas do presente futuro.

“O homem é um animal político”: há muitos animais a solto em Campo Maior, bons homens e corruptos políticos livres. A prefeitura e o comércio local ainda são as principais fontes de emprego na região. Famílias tradicionais vivem a disputar a mamata da administração pública. São clãs reacionários ora rivais, ora colegas de ocasião que se revezam no poder político há décadas. Mas há por aí uma nova geração de famílias que dizem, as línguas populares, veio para ficar et secula in seculorum.

Comerciantes dividem-se entre sonegar impostos ou pagar funcionários; empresários fazem dinheiro como podem, não como devem – culpa do capitalismo selvagem. Há empresas que pedem o melhor de cada funcionário, mas “enquanto o operário veste a camisa da empresa, o patrão veste a roupa de marca”. Salário mínimo e carteira de trabalho assinada são coisas raras. Profissionais liberais – engenheiros, jornalistas, advogados, prostitutas – disputam o cliente no restrito mercado da cidade.

Os festejos de Santo Antônio são o maior evento religioso da região dos carnaubais. A política e o comércio local alavancam-se com as treze noites de fé e festa em toda a Campo Maior. A praça Bona Primo vira um mundaréu de oportunidade para muita gente. A politiquice e seus babões oficiais, com seus sorrisos de bolso, profanam a festa do santo quando arrematam as joias do leilão e vão distribuí-las aos correligionários pobres de espírito e de cargo nas mesas das barraquinhas. Cada noite das trezenas é dedicada a um segmento social. Os esquecidos vaqueiros são lembrados pelas autoridades em uma dessas noites; depois disso, os cowboys locais voltam às fazendas de seus coronéis para o ostracismo de sempre.

O povo local somos de um jeito par e ímpar, diferentes e iguais a todo o resto do Brasil e do mundo. Tipos humanos? Aqui tem gente boa, grupinho mão-de-vaca, heróis do Jenipapo, ladrão felaputista, amigo do peito, inimigo estribado, pai coruja, mãe ganso, filho égua, família sagrada, parente afobado, menino sabido, adolescente rebelde, idoso 10 anos, mulher inteligente, homem chulado, criança a balde, imortal falecido, atleta sem patrocínio, político bom de peia, gay assumido, marombeiro selfista, comandre prendada, vizinho intrometido, partidário-capacho, cadeirante ativista, bebum infarento, vaqueiro aboiador, mendigo de corpo e alma, rico pobre de espírito, religioso de verdade, intelectual medíocre, jovem consciente, visitante fuleiro, universitário bairrista, playboy de merda, artista sonhador, patrão carrasco, trabalhador honesto e as classes sociais – os pobres, os nobres e os esnobes.

Temos muitas escolas e bons professores, mas alguns alunos não se preocupam em aprender. Salvo exceções, a saúde local é tão boa que os doentes daqui vão se tratar em Teresina. Nos tribunais da lei e da ruas, se alguém fica dividido entre a justiça e o direito, escolhe a verdade e corre. Não há meninos de rua, nem favelas por aqui, mas a periferia existe como realidade de vilas e povoados invisíveis ao poder público. No trânsito a mobilidade urbana assusta pedestres e motoristas preocupados com semáforos desorientados, vias sem sinalização e acidentes evitáveis. A feira é boa e sortida de tudo.

No esporte há condições de investir em jovens atletas que não têm um ginásio que preste para treinar. Há muitos universitários na região com boas pesquisas para publicação. Motéis e bares crescem vertiginosamente para o entretenimento geral. A fé evangélica é uma realidade para católicos, ateus e iluminati. Cultura se resumo a festa de forró na praça, teatro desativado, gastronomia gostosíssima e a lançamento de livros locais que quase ninguém lê. Alguns portais e rádios noticiam hoje o que vai acontecer amanhã.

Isto é Campo Maior nas primeiras décadas do século 21. Não sabemos o que será do mundo daqui a 100 anos, mas os fatos aqui apresentados sobre este município ficam para julgamento da posteridade. Este é, pois, a cápsula do tempo de uma testemunha ocular da vida local.

Aqui escreveu o cronista do passado para os habitantes do futuro.

Veja também