24/03/2019

Crônica tem dessas coisas

E uma das coisas que me deixam danado da vida com a crônica é esse seu jeito ladino[…]

“Escrever é perigoso”

E uma das coisas que me deixam danado da vida com a crônica é esse seu jeito ladino de não se dar assim tão facilmente. Grosso modo, esta é uma peculiaridade das artes e também das ciências, creio eu. Mas como não faço química fina, restrinjo-me ao universo das palavras, esse carrasco rasgo que só se entrega quando bem se entende.

“Escrever é perigoso”, já nos advertia Clarice Lispector. Escrever estórias condensadas como são os contos e crônicas é mergulhar numa densidade desafiadora. Assim são os textos manifestos numa das mais antigas formas de expressão humana, a escrita. E é assim esse seu modo de ser, não ser.

Devir

Como se trata de um gênero tipicamente brasileiro, misto de literatura e jornalismo, a crônica também tem seu modus operandi, suas articulações e seu jogo de esconde-acha-esconde. Homens e mulheres deixaram suas marcas na literatura e no espírito dos leitores ao escreverem bons textos que captaram nossa essência: a de ser humano.

Ora séria e reflexiva, ora duvidosa e moleca, às vezes a crônica fica por aí, de cara para a rua, a caminhar com os pedestres na orla do açude, no sorriso da morena piauiense, na traquinagem do cão com o gato, na vassoura preguiçosa de segunda-feira. E o cronista, pensativo e desocupado, doido e político, não percebe as sutilezas dos instantes.

Escrever é dez por cento inspiração e noventa por cento transpiração, ensinou Graciliano Ramos. E associado à natureza da crônica está o tempo. Tempo e texto, dois moinhos de vento contra esse quixotesco gigante chamado ser humano.

A hora e a vez da crônica

Mas a hora vem chegando e todo homem tem a sua hora e a sua vez. A culpa é do tempo – quem inventou o relógio? O dono do pequeno jornal local vai me ligar a qualquer instante e me dirá com aquela voz: “Cadê a crônica, moço? Estou fechando a edição e só e falta seu material”. “Já vou, já vou, estou enviando o texto mais tarde”.

Saio para a rua e olho para o céu – meu Deus, quanta nuvem no céu! Crônica tem realmente essa vantagem: a de ser problemática por vocação. Percebo agora o drama existencial-literário por que passou Rubem Braga, Rachel de Queirós, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Fernando Sabino e tantos cronistas diante do fechamento das redações de jornal.

Mas se houvesse para mim ao menos um Recado ao Senhor 903, uma Casa de Farinha, uma Maria José, uma Amizade Sincera, ao menos A última crônica… Definitivamente este é um tempo de homens partidos, e como afirmou um cantor, a palavra que faz a gente diferente dos outros animais, a palavra está presa tanto em mim quanto no mundo.

Escrever, pensar, sentir

Curioso. A princípio parecia tão fácil. O pedido para atuar no jornal como cronista, a liberdade para pensar e escrever o que eu quisesse, o diálogo com o leitor do jornal impresso. E o material de trabalho, então – computador e percepções da realidade. Computadores não faltam, e se faltar, ainda existem o bom papel e velha caneta. Mas as pessoas, as histórias, as experiências, as vicissitudes do momento, as circunstâncias mais humanas possíveis!?

Meu chefe lê a crônica pré-matura e diz: “Dá pra publicar!”. Saio da redação pensando nos leitores e estes pensarão em mim quando se depararem com aquela crônica incipiente e dirão: “Que foi que aconteceu com o cronista este mês?”, “Acho que não estava inspirado com antes!”, “Devia ao menos escrever uma crônica sobre isso!”.

Tentei, pessoal, juro que tentei.

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