09/12/2019

“Dizem que sou louco”

  (crédito da foto: https://www.trestempos.com.br/louco-eu/) Dizem que toda rua tem um doido. Aliás, todo bairro, toda cidade ou planeta[…]

 

(crédito da foto: https://www.trestempos.com.br/louco-eu/)

Dizem que toda rua tem um doido. Aliás, todo bairro, toda cidade ou planeta deve ter seus doidos. Ainda na infância conheci alguns deles; na adolescência apareceram outros mais e na atual fase adulta, percebi que o mundo inteiro é um manicômio de portas abertas. Eles são tantos que parece que nós, os ditos normais, tornamo-nos minoria e eles a regra banal desse sistema de coisas que é o mundo.

Em São Luís do Maranhão, na infância serena e cheia de esperanças, conheci Adalto. Adalto era um rapagão magro, preto-petróleo, voz áspera, olhos vigilantes, sempre com uma vara na mão. Era o caçador oficial das pipas de rua, pipas cortadas por cerol rival na disputa da molecada; era a pipa se perder no azul e o negro correr como papa-léguas rumo à conquista lúdica. Não havia obstáculo, muro agigantado, cachorro raivoso, vizinho ameaçador: Adalto saltava sobre todos eles em direção à sua monomania. Ele só falava de pipa, fazia pipa, capturava, consertava, comprava… Sua vida era uma pipa. Algumas pessoas – os derrotados do cerol – detestavam Adalto e chamavam-lhe de doido velho, preto maluco, zé pilantra; até chegaram a jogar-lhe pedras e acionar a polícia contra ele. Eu respeitava o gigantismo de Adalto e por isso surgiu entre nós apreço. Quando ele não tomava os remédios, tinha convulsões no meio da captura das pipas. Todas ficávamos com medo, sem entender direito tudo aquilo. Mudei-me de São Luís, mas comigo levei a lembrança de Adalto, um gigante pássaro negro que só queria voar num céu de pipas azuis.

Teresina tornou-se a cidade universitária de minha fase adulta, cheia de estudos, enganos e desafios. A capital conta com o Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu. Lá internaram Esteves Faustino que depois de fugir do tratamento médico, vivia pelos pontos de ônibus da cidade à procura de sua mãe. “Mamãe vai voltar qualquer horinha, você vai ver!”. Dava dó: ele observava quem descia do busão na esperança de ver sua mãe; falava sozinho por horas até um coletivo se aproximar, aí ficava naquele silêncio inocente, todos desciam do ônibus e nada da mãe chegar. “Mamãe não veio hoje, mas amanhã ela vem”. O povo contava que depois de uma gravidez adolescente, a mãe de Faustino tomara remédios para abortar. Ele nasceu sem problemas, mas a cólera da mãe e os abusos do padrasto fizeram Faustino trancar-se num mundo de amor por uma mãe que não existia para ele. Certo dia, desceu de um carrão uma madame a quem Faustino lançou-se em prantos. “É mamãe, mamãe voltou pra mim!”; a mulher gritou assustada, o povo afastou o rapaz da madame que saiu desconfiada do local. Faustino jura que aquela mulher é a sua mãe. Dia seguinte, lá está ele à espera de uma mãe mais doente do coração do que Faustino da cabeça.

Piripiri me apresentou a Doida do Mercado quando eu, já cansado da bondade humana, fui trabalhar naquela cidade. Antes, contavam que a vida dela era correr atrás de políticos da região; por acreditar demais, decepcionou-se profundamente com os partidos que lhe tiraram o pouco que tinha. Caiu na miséria e no desespero, passou fome e frio, viveu a solidão e o escárnio amigo. Conhecedora os podres políticos, começou a abrir o verbo, mas para muitos, a pobreza extrema prejudicou-lhe a sanidade.  Agora ela passa os dias no mercado central da cidade, trabalhando para os vendedores em troca de comida. Estatura e humor baixos, olho e juízo vesgos, cabelo e paciência curtos. Às vezes, algum feirante confia-lhe uma faca para descascar frutas. Caução nessa hora: se passa um político qualquer, a Doida do Mercado explode sua loucura e propinas rompem entre denúncias reais e fictícias com nomes públicos e número de contas privadas. Mas num país como o nosso, isso não é loucura. É normalidade.

Adalto, Esteves Faustino, a Doida do Mercado. Indivíduos abandonados pela vida, gente que sorri, chora e sangra como a gente, homens e mulheres que desafiam nossa lógica porque não amam  loucuras modernas pelas quais nós, pessoas de bem, matamos ou morremos. Por serem estranhos, loucos como a gente, eles não deixam de ser humanos. Ao seu modo, frente à crueza da vida, eles são felizes. “Dizem que sou louco por pensar assim / Se sou muito louco por eu ser feliz / Mas louco é quem me diz /Que não é feliz, não é feliz”.

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