20/11/2019

Aniversário

Antes a morte era para mim uma ideia estranha, abstrata e distante. Na infância, ouvia falar que fulano[…]

“Aquele que crê em mim viverá” – Jesus Cristo

Antes a morte era para mim uma ideia estranha, abstrata e distante.

Na infância, ouvia falar que fulano morrera, beltrano partiu de repente e cicrano foi desta para a melhor. Achava que morrer era mudar-se para um lugar bem longe onde a saudade não alcançasse o saudoso, mas dor dói de qualquer jeito. Não pensava muito na morte e nem ela em mim. Vivíamos cada um a sua vida (!) sem nos incomodarmos com a presença/ausência um do outro.

Nunca gostei do culto que fazem em respeito a ela: o velório. É certo que eu a encontrava quando via um animalzinho morto na rua; no acidente gratuito na esquina do bairro, na casa do vizinho. Também assistia a ela pela TV em cores frias e assustadoras. Lia sobre a morte na biografia de meus autores preferidos. E assim, um dia, a capa dura do livro da vida bateu à porta de minha casa… E daquele dia em diante a morte tornou-se para mim vital, ordinária e íntima.

Vital! Comecei a percebê-la nos aniversários mais do que em dia de finados. Porque “cada minuto de vida nunca é mais, é sempre menos”, como poetizou Cassiano Ricardo. Morte e eu aproximávamos/distanciávamos cada vez mais do ponto em que tínhamos iniciados: o nascimento. Comecei a perceber que tempo de aniversário era momento de reflexão. O lado bom da “fealdade do horrível transe” é que ela nos obriga a datar nossos planos, uma vez que não viveremos todo o sempre. E assim, o leitor e eu vamos enchendo o bagageiro da vida com viagens, amores, metas, amigos, momentos. E como o bagageiro é relativamente grande, também colocamos nele medos, disputas, tristezas, indiferenças.

“Aniversário é uma festa pra te lembrar o que resta” excogitou poeticamente Lemiski. Pensar na morte em pleno aniversário não é pessimismo. É balanço, saldo credor da existência. É vital que se pense nela, porém o mais importante é como se pensar nela: como a última música a ser dançada na festa da vida antes que o baile da existência termine. Seus dois mistérios são estes: como e quando ela vem.  Definitivamente “esta vida é uma estranha hospedaria de onde se parte quase sempre às tontas”, me ensinou outro bardo, Mário Quintana.

Ordinária!? Da abstração a morte evoluiu para uma situação banal. Uma vez inevitável, paciência! Até ela chegar é ocupar-se da existência, da própria vida, que da vida dos outros a eles mesmos interessam. O complicado em ser esta situação ordinária – a de morrer – é que a partida deixa uma saudade danada para quem fica do lado de cá. Aí se chora, aí se queixa a Deus acusando-o de maldoso quando esquecemos que morrer faz parte do espetáculo da vida e esta parte foi escolha nossa – “o salário do pecado é a morte”, dizem as Escrituras. Nessa circunstância, o tempo, senhor dos instantes, mestre das passagens, general das horas, o tempo camufla a dor da saudade e muda o cenário da solidão para algo mais possível.

Íntima? Nos dias dos anos da vida de qualquer pessoa, ela está lá fora, assistindo à festa natalícia para lembrar: “Vamos, viva!”. Nisso, fica uma intimidade assaz desconcertante e atrevida, mas não cruel ou rígida. O aniversário chega e junto dele a velhice em doses homeopáticas, e lá, no fim da curva – porque se fizéssemos a curva seríamos imortais imorais – lá no fim da curva ela espera pacientemente.

– Vá-se embora daqui! dizemos todos quando ela passa bem perto de nós.

Os elos da vida de uma pessoa são os pais. Cada um deles é um semicírculo que juntos formam um círculo completo de onde surgimos. De lá vieram você e eu. E quando o círculo se rompe, quando uma parte dele vai embora, ficamos incompleto, na evidência de sermos atingidos, sorteados, apresentados a esta ideia agora vital, ordinária e íntima.

Ponto final.

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