24/01/2020

Prova Final

Prova final é daquele jeito. É um dia em que se observa todo tipo de comportamento humano de[…]

“Quem passa direto é trem!” (frase de aluno). Quem dá ponto é costureira!” (frase de professor)

Prova final é daquele jeito. É um dia em que se observa todo tipo de comportamento humano de alunos e professores em sala de aula e fora dela.  E como não bastasse um dia, a escola elenca uma semana de provas finais decisivas na vida dos alunos.

Sim, provas escritas. Uma avaliação feita com dez questões subjetivas/objetivas sobre os assuntos trabalhados pelo professor no bimestre ou mesmo no ano letivo. Depois de tantas aulas expositivas, abordagens dialogadas, vários exercícios de fixação e trabalhos de pesquisa para fazer, vive-se o ajuste de contas do ensino-aprendizagem entre professor e aluno, como vaticina o sistema de ensino brasileiro.

O que uma prova quer provar?

No dia da avaliação, o mestre entra na escola seríssimo, impoluto e decidido em aplicar, com todas as forças do sistema de ensino, aquilo que pode ser a prova da vida daqueles alunos. A figura do diretor circula os corredores da escola como para manter a lei e a ordem que a ocasião exige. Como a turma mostra-se hiperativa porque cinquenta e cinco cabeças retinentes desdobram-se num espaço onde cabem quarenta, professores ocupam a sala de aula para a aplicação das avaliações finais. Tchau, cola!

As carteiras estão organizadas em filas regulares, ocupam toda a sala, há somente lápis e caneta sobre a carteira. O sino toca, a prova começa, o coração dispara. Alguém vez ou outra passa mal, é de praxe. Dois professores circulam pela sala silenciosos: o primeiro docente é mais tranquilo, acompanha com entusiasmo a evolução discente na prova escrita; o outro, com seu olhar panóptico, observa cauteloso a todos contra a fraude da cola inconformada.

O professor, o aluno, a escola, a sociedade estão ali. 

A praga da cola, ou pesca, é vírus pandêmico na cultura educacional brasileira, assim me disseram alguns alunos de mestrado e doutorado. A meritocracia escolar ainda se baseia no acúmulo de conhecimento para a reprodução de ideologias. Uma hora de prova e os estudantes entreolham-se. A pesca pode estar em todos os lugares possíveis: na palma da mão amiga, no bolso da calça rasgada, no inofensivo papel rolando no chão, na ida ao banheiro suspeito, no celular da moda passageira, no caderno entreaberto, na lousa mágica, no código morse corporal, nas coxas, nas bocas e principalmente no coração. Alguns alunos gastaram mais tempo fazendo uma cola do que estudando para as matérias…

Alunos, tão circunspectos em pensamentos e dúvidas: paira sobre a sala, sobre a escola, sobre o mundo, um silêncio áspero para alguns e sossegado para poucos.  Olhos desconfiados vigiam outros olhos nervosos. Uma caneta tímida arrisca uma alternativa correta. As mãos descansam num queixo cansado. Dedos frágeis tateiam uma folha vazia. Dentes riem ante a prova tão fácil para quem estudou. A mente gira procurando no teto da sala a resposta esquecida. Pernas tremem de tanta certeza. Um lápis castiga a prova no ritmo do relógio como se isso pudesse segurar o tempo. Nariz coça de irritação diante da pesca que não vem. As costas aliviam-se por saber tanto. Uma boca brava desconta sua frustração em neurônios preguiçosos. O suor na testa escorre numa sala de cinquenta e cinco silêncios.

Na semana seguinte, os discentes encontram o professor:

– Bom dia, turma! Atenção, vou entregar o resultado da prova final.

 

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