24/01/2020

Imposto é roubo!

Vou contar-lhe uma história, isso mesmo, com ‘h’ pois se baseia em fatos reais. Encerrava-se o ano de[…]

Vou contar-lhe uma história, isso mesmo, com ‘h’ pois se baseia em fatos reais.

Encerrava-se o ano de 2008. José da Silva de 22 anos, estudante de uma escola rural no interior do Piauí, estava cansado da lida sofrida do interior. Perdeu o pai antes de completar os 12 anos e sentiu o peso da responsabilidade de ajudar a mãe criar os outros cinco irmãos menores. Não tinha moleza: acordava bem antes de o sol começar a esquentar, pra cuidar da roça ou abater algum animal pra vender no povoado. Ainda lembrava o conselho do pai, mandando se esforçar pro estudo, que “essa vida de roça não é vida não!” Disso José não tinha dúvida, mesmo com atraso conseguiu sofrivelmente terminar o ensino médio. Tinha esperança de arrumar algum emprego na cidade. Alguns lhe chamaram de sortudo, quando na sua primeira entrevista conseguiu “fichar” numa loja de departamentos.  José era do interior, mas não era bobo de perder oportunidades. Tirou CPF, abriu conta no Banco do Brasil e suspirou eufórico: “agora virei gente!”. Ao receber o primeiro pagamento, foi reclamar com o gerente da loja por que não havia recebido o “valor completo”. Saiu de lá sem compreender como trabalhou um mês inteiro e não tinha recebido o ‘valor da carteira’, pois o governo lhe havia tirado uma parte. Pois bem, a vida continuou. Tinha desejo de crescer na vida e com seus esforços, conseguiu passar de zelador a vendedor em menos de um ano. Agora iria vestir “camisa por dentro”, “pano-passado”, sua mãe até comentou que ele iria mudar de “istartu”, palavra que ele não entendia muito bem, mas pensava ser algo bom.

Seus sonhos não eram tão grandes: o primeiro conseguiu logo realizar, deixou de comer poeira para fazer poeira encima de uma moto. Quase um ano depois, quando o nosso personagem começou a realizar o segundo sonho (construir uma casa de alvenaria pra mãe), o governo resolveu reduzir o IPI da linha de eletrodomésticos, o que alavancou e muito as vendas e as comissões de José,  começou a fazer uma poupança. O gerente de José havia lhe perguntado se ele não estava se preparando para a “mordida do leão”. Na sua ingenuidade de rapaz do “interior”, José não ligava muito para esses assuntos e achava que o “leão” estava longe dele.

O tempo passou, e como uma “marolinha” extemporânea, as boas vendas também. Contudo, José estava satisfeito e o valor que tinha guardado daria pra finalizar a construção iniciada no ano anterior. No dia seguinte, ele usou o horário do almoço para ir ao banco. Antes de chegar ao banco, encontrou uma blitz da polícia. Por ser um homem honesto, não esboçou nenhuma reação ao ser abordado. A autoridade policial logo lhe pediu os “documentos”. Qual foi sua surpresa, quando o policial o mandou descer da moto e lhe informou que ela seria apreendida: “Mas como? Paguei essa moto com meu trabalho senhor, não é roubada!”. José custou a entender que para andar na sua moto, comprada com seu suor, teria de pagar ao governo. Ele não achava isso legítimo. Porém, não poderia reclamar, afinal estava diante de um Agente do Estado. Então pensou consigo: “Não basta o desconto todo mês no meu salário, tenho que pagar ao Governo pra trabalhar e agora essa!”. Como nordestino que é, José não esmoreceu. Levantou a fronte e dirigiu-se ao banco, que não ficava distante dali. José não sabia, mas ao tentar sacar o dinheiro, sua conta estava bloqueada e fora orientado a procurar a Receita Federal, o que faria no dia seguinte.

Esses acontecimentos deixaram José preocupado, reflexivo. Não conseguiu dormir direito e por um momento pensou que as poucas coisas que tinha conquistado, lhe seriam arrebatadas de vez. De carona, chegou cedo ao Posto de Atendimento da Receita Federal onde descobriu que sua conta estava bloqueada por dever imposto de renda.

Transtornado, sentiu-se vilipendiado, abusado, roubado. Quase sem equilíbrio nas pernas, sentou-se. Um filme passa pela sua cabeça: lembra de todos os revezes que já passou pela vida. As muitas lutas, as poucas conquistas. Coagido, sentiu um peso maior do que poderia suportar. Naquele mesmo instante a esperança lhe fugiu do peito. Lágrimas começaram a correr em seus olhos. Seus lábios em um balbuciar incontido, replicavam sem cessar: – Imposto é roubo! Imposto é roubo!

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