20/11/2018

O Julgamento das Nações

Obra do historiador Christopher Dawson, escrita durante a Segunda Guerra Mundial, que busca apontar as razões que levaram o Ocidente ao colapso e como resolver a situação

Em O Julgamento das Nações, Christopher Dawson discute o problema da secularização do ocidente, que culminou, segundo ele, em regimes políticos totalitários numa Europa descaracterizada de sua cultura milenar: a cultura cristã. Dawson foi um historiador de destaque nos seus dias, admirado pela lucidez e pela forma como interpretou a história do Ocidente. Ele formou-se no Trinity College, Oxford, e lecionou na Universidade de Exeter.

Em sua carreira como historiador, procurou sempre interpretar o mundo a partir de uma hermenêutica cristã, isto é, analisando os eventos mundiais a partir de uma perspectiva cristã. Dawson escreveu O Julgamento das Nações em 1942, quando a Segunda Guerra Mundial já estava acontecendo, o poder do nazismo avançava sob a mão de Hitler, na Alemanha, e a Rússia já vivia um regime totalitário comunista com Stalin.

Neste livro, Dawson procurou estabelecer um elo entre o fracasso do Ocidente, especialmente da Europa, e o abandono quase que total da religião cristã, ou da cultura cristã. Para Dawson, a civilização europeia foi forjada pela religião cristã, primeiro pela igreja católica, e secundariamente pelo protestantismo. A Europa, que tinha uma alta espiritualidade, paulatinamente foi sendo secularizada, e aderiu ao puro racionalismo. O autor compreendeu que a espiritualidade cristã foi trocada pela secularização e pela maquinaria tecnológica, que geraram os males que a Europa estava enfrentando.

O livro está dividido em duas partes: (1) A desintegração da civilização Ocidental; (2) A restauração de uma ordem cristã. Na primeira parte, Dawson faz um levantamento da Europa e da ascensão dos regimes totalitários. O autor também demonstra que a Liga das Nações, organismo internacional que prometia a paz mundial, foi um grande fracasso, e com ele, fica estampado também o fracasso da democracia e o surgimento da Guerra Total.

Na segunda parte do livro Dawson aponta o caminho de volta que a Europa precisa trilhar, esse caminho é um retorno às raízes espirituais da fé cristã. Engana-se que pensa que o livro é uma obra evangelística, ou um livro eclesiástico ou uma História da Igreja. Não é. O autor faz uma análise histórica profunda do Ocidente e provou que a cultura ocidental foi moldada pela fé cristã, e isso pode ser visto facilmente pelo desenvolvimento das instituições, das leis, da educação, e de muitos outros aspectos importantes, que são basilares numa civilização.

O livro mostra que o pensamento de Christopher Dawson foi influenciado pelo teólogo Agostinho, especialmente em sua obra A Cidade de Deus e a Cidade dos Homens; nas expressões da Igreja Católica, especialmente em encíclicas papais, cujos fragmentos são citados diretamente em alguns trechos do livro; e por Edmund Burke, conservador francês.

A análise de Dawson é importante, especialmente porque o livro foi escrito há mais de 70 anos, e muitas das advertências do autor podem, agora, ser observadas. A secularização europeia aumentou ainda mais, e já se alastra velozmente pelos Estados Unidos (pelo menos antes de Trump o ritmo era acelerado). À semelhança da Liga das Nações, a ONU se mostra um fracasso para a paz mundial, isso se comprova pelo avanço das guerras pelo mundo. E pior ainda, a ONU é um dos mecanismos responsáveis diretamente pela secularização das nações e pela extinção da cultura cristã no planeta. As respostas de Dawson para a salvação da Europa continuam válidas em nosso tempo, só que agora não apenas a Europa, mas o mundo está em risco de um colapso.

Notas para a Definição de Cultura

Notas Para a Definição de Cultura foi publicado em 1948, e completou 70 anos esse ano. Permanece como um dos livros mais importantes já escritos sobre cultura

No Brasil o livro de T. S. Eliot foi publicado pele editora É Realizações

Alguns livros são bons, outros são muito bons, mas alguns são excelentes. O livro de T. S. Eliot, Notas Para a Definição de Cultura pode ser classificado como muito bom, e não será exagero nenhum classifica-lo como excelente. Além da complexidade do tema (Eliot tem o objetivo de definir cultura), a relevância do livro para a nossa época é inquestionável.

Eliot foi um poeta de grande talento e deixou um legado importante para o mundo. Nascido nos Estados Unidos, ele migrou para a Inglaterra muito cedo, e logo foi naturalizado inglês. Ele influenciou muitos pensadores importantes, como Russel Kirk, Roger Scruton e, no Brasil, o valor de sua obra já foi reconhecido pelo filósofo brasileiro Olavo de Carvalho.

Notas Para a Definição de Cultura foi publicado em 1948, e completou 70 anos esse ano. Contudo, é um livro relevante para os estudos atuais da Sociologia. O livro está dividido em uma introdução, 6 capítulos e um apêndice. Segundo o autor, existem três sentidos onde o termo cultura se aplica, e, embora se relacionem, eles diferem um do outro (capítulo 1). Eliot fala da cultura do indivíduo, da cultura do grupo ou classe, e da cultura da sociedade. Partindo de três observações diferentes, sempre aglutinando mais pessoas em cada segmento por ele observado. A cultura de uma nação ou de um continente, no caso dele a civilização europeia, seria a cultura de uma sociedade. Dentro da sociedade existem as variadas classes e grupos, com suas elites, que representam um outro extrato cultural, mas que não deve ser confundido com o todo da cultura da sociedade. E no âmbito menor, o indivíduo, com sua própria cultura, ou seja, o conjunto de culturação apreendido por cada pessoa.

Eliot vai continuar seu argumento apresentando explicações de cultura sobre os grupos e as elites (capítulo 2); sobre a diversidade e a unidade cultural presente em cada região (capítulo 3); depois ele apresenta os aspectos e influencias da cultura e sua relação com a religião, especialmente as divisões e variações encontradas na religião (capítulo 4); os dois últimos capítulos ele discute as relações de cultura e política e cultura e educação.

É uma preocupação do autor estabelecer uma distinção entre política e cultura, demonstrando que embora a política procure exercer um certo controle ou domínio sobre a cultura, a própria cultura, em tempos passado, foi quem estabeleceu a política. Ou seja, a política é um elemento cultural, originado pela cultura de um povo, que foi desenvolvendo na sociedade mecanismo de governo, de leis, que mais tarde se tornaram o que os gregos (e nós) chamaram de política.

Mesmo apresentando sua ideia de cultura em cada capítulo, a definição de cultura de T. S. Eliot só é apresentada diretamente no fim do livro, nas últimas páginas, ou seja, no apêndice: “por ‘cultura’, então, quero dizer, acima de tudo, o que os antropólogos dizem: o modo de vida de um povo em particular que vive junto em algum lugar” (p. 136). Para ele, cultura está em três níveis, que são separadas, mas que se relacionam.

T.S. Eliot, um dos grandes pensadores do século XX

O conjunto cultural de uma sociedade é o acúmulo desses três níveis culturais, do indivíduo, do grupo/classe e da sociedade em geral. Eliot também destaca que a origem cultural dos povos de culturas distintas é a religião (p. 138). Esse é o elemento formador, unificador e mantenedor da cultura de uma civilização. Esse é o papel que o cristianismo desempenha, por exemplo, na cultura europeia.

A Igreja de Santo Antônio e seus três templos

Primeiro templo religioso de Campo Maior, a Igreja de Santo Antônio está na sua terceira edificação. São mais de 300 anos de história e até um pedido de esmola para a rainha de Portugal

Igreja de Santo Antônio: três templos 1711, 1779 e 1944

A freguesia de Santo Antônio do Surubim foi instalada entre os anos de 1711 a 1713. A data proposta por Eduardo Zielski (1715), último bispo de Campo Maior, é historicamente insustentável. Prova disso são as referências em correspondências dessa época apontando algumas pessoas que residiam na dita freguesia em 1713. Algumas pesquisas já foram realizadas sobre a história da igreja de Santo Antônio. A atual construção corresponde ao terceiro templo, erguido no mesmo lugar. O primeiro foi erigido pelos escravos de Bernardo de Carvalho em 1711. O segundo já estava sendo construído em 1779, pela Irmandade de Santo Antônio, conforme correspondência dos confrades dessa irmandade à rainha de Portugal, Maria I. O terceiro templo foi erigido na segunda metade do século XX, com suas obras iniciadas em 1944 e sua conclusão em 1966, tudo sob a direção do padre Mateus.

Em 2015, apenas um mês depois do lançamento do livro Campo Maior: origens, onde apresento documentação inédita sobre a segunda construção da igreja de Santo Antônio, e a prova inconteste da demolição do primeiro templo, a historiadora Natália Oliveira e a professora Dra. Alcília Afonso lançaram o excelente livro Da Matriz Vejo a Cidade: a igreja de Santo Antônio de Campo Maior, onde relatam, dentre outros aspectos apresentados na obra, um histórico da velha matriz. Infelizmente as autoras não tinham conhecimento da documentação portuguesa relativa à igreja, e não tiveram tempo de consultar minha obra, onde a documentação é descrita. As autoras defendem dois momentos para a igreja, cada um deles representado por um dos templos (no entender delas, apenas dois templos). O primeiro momento cobre mais de dois séculos (1711 a 1944). O segundo momento cobre os anos de 1944 a 1971. Meu desejo é desfazer de uma vez por todas esse mal-entendido, e afirmar, com provas, que a igreja de Santo Antônio segue em sua terceira edificação.

É importante ressaltar que o primeiro momento, conforme destacado pelas autoras, na realidade, corresponde a dois momentos. Nesse extenso recorte temporal, Campo Maior viu o soerguimento a primeira igreja e também sua demolição, que deve ter ocorrido por volta de 1788, ou data bem aproximada, mas não depois desse ano. Nesse caso, o primeiro momento representa os anos de 1711 a 1788, aproximadamente. O segundo momento começa logo em seguida, 1789/90 (provavelmente, ou mais adiante um pouco) e segue até 1944. O terceiro momento, levantado pelas autoras, corresponde em exatidão histórica.

OS TRÊS TEMPLOS

Dessa forma, defendo o seguinte recorte: (1) Primeiro templo: 1711 – 1788. Corresponde à construção realizada pelos escravos de Bernardo de Carvalho; (2) segundo templo: 1789/90 – 1944. Correspondendo à construção capitaneada pela Irmandade de Santo Antônio da vila de Campo Maior, com recursos da coroa portuguesa, até sua demolição; (3) terceiro templo: 1944 – 1971. Esse é o atual templo e sua realização se deve aos esforços do padre Mateus Rufino.

Meu segundo momento, que era até então desconhecido até pela diocese, onde apresenta a construção do segundo templo, é o que pretendo demonstrar a partir de agora. Em 1779 a Irmandade de Santo Antônio, já bem organizada, escreve diretamente à Rainha de Portugal, Maria I, solicitando recurso para terminar a construção da nova igreja de Santo Antônio na vila de Campo Maior, isso porque a primeira, já demolida, não suportava o crescente número de fiéis. O texto apresenta o pedido como uma “esmola” e “ajuda de custo” requerido à Rainha para comunidade católica de Campo Maior. Segundo: a “esmola” solicitada tinha a finalidade de terminar as obras da nova igreja, que substituía a primeira, erguida à custa de Bernardo de Carvalho. A igreja, que já não era suficientemente grande para abrigar todos os fiéis da vila, foi demolida e a irmandade estava a buscar recursos para terminar o novo templo, erguido naquele período.

CARTA À RAINHA DE PORTUGAL

Conforme o teor da carta revela, esse templo que foi construído pela Irmandade de Santo Antônio é o segundo templo na história da edificação da igreja de Santo Antônio. O que se entendia até hoje era que o templo que o Padre Mateus demoliu em 1944, era o templo que Bernardo de Carvalho havia construído, e que a atual catedral era o segundo templo. Segundo a carta, o primeiro templo foi construído “a custa dos indivíduos da nova freguesia”, contudo, adverte que o primeiro templo era “formado de frágil material segundo a impossibilidade daqueles tempos com defeito de muito pequeno”.[1] O templo construído em 1711 era muito mais um símbolo da presença portuguesa e da religião católica do que um santuário para receber um grande número de fiéis. Com a chegada constante de novos moradores às proximidades da igreja, e, principalmente, com a povoação se tornando vila de Campo Maior (1762), era de se esperar que a pequena igreja não fosse mais suficiente para acolher o crescente número de fiéis:

“hoje, pelo aumento do povo,  com decência não se podia nele celebrarem os ofícios divinos, causas  porque nós resolvemos acrescentá-lo  e pô-lo em melhor formalidade  para cujo efeito entramos no projeto  de demolir o que existe para o devido fim, e posta em execução esta nova determinação nos achamos impossibilitados para o por  na sua total perfeição e por isso nos necessitou de recorrermos a cristandade e real piedade de Vossa Majestade Fidelíssima”.[2]

Segue então a conclusão que a atual Catedral de Santo Antônio de Campo Maior é o terceiro templo construído. O primeiro templo, iniciado de 1711, muito pequeno, foi construído por custo de Bernardo de Carvalho; o segundo templo, de 1779, foi construído pela Irmandade de Santo Antônio, sendo concluído na primeira metade do século XIX. O terceiro templo foi construído sob a liderança do padre Mateus Cortez Rufino, quando ele autorizou a demolição do templo construído pela Irmandade, fato que aconteceu em 1944.

A terceira e mais importante observação que esse documento nos remete é o crescente aumento da população da vila. Na carta lemos que “Hoje, pelo aumento do povo…”, indicando que a vila já era muito povoada em 1779.  O Surubim era o centro do norte piauiense. Só mais um detalhe: a reunião da irmandade, quando o documento foi redigido, aconteceu no dia 13 de junho.

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[1] Carta da Irmandade de Santo Antonio, da Vila de Campo Maior, à rainha Maria I, 13 de junho de 1779. Arquivo Histórico Ultramarino.

[2] Ibid.

Campo Maior, terra de muitas águas

A história primitiva de Campo Maior traz consigo um elemento de importância ímpar: água. Não se vive sem[…]

Barragem do Surubim, em Campo Maior. Um dos principais rios na história campomaiorense. Em suas margens foi erigida a igreja de Santo Antonio

A história primitiva de Campo Maior traz consigo um elemento de importância ímpar: água. Não se vive sem água. Geralmente as origens de Campo Maior estão sempre ligadas à criação de gado e à religião católica. Contudo, nada disso seria possível sem a água. O açude tem papel indispensável, porém quase sempre despercebido. Quando Bernardo de Carvalho chegou na região que mais tarde receberia o nome de Campo Maior, ali já estava a portentosa Lagoa Grande. Quando os primeiros sacerdotes católicos chegaram à região e a igreja de Santo Antonio foi erigida, a Lagoa Grande já estava ali, testemunhando todos os acontecimentos. Hoje, mais de 300 anos depois do inicio da civilização na região dos Alongazes, ela continua presente. Não mais como uma lagoa, mas como açude, que fulgura no coração da cidade.

As primeiras fazendas de gado que se estabeleceram na região dos Alongazes, especialmente a área que corresponde hoje à cidade de Campo Maior, não foram plantadas às cegas e nem de modo descuidado. A localização de cada fazenda Foi escolhida a dedo pelos portugueses. A área era extremamente favorável para a criação do gado, sendo grande negócio o estabelecimento de currais. Além de ser uma região de beleza ímpar, com “alegres e espaçosas campinas” que enchiam os olhos por conta de sua pompa campestre, tinha ainda um detalhe que era de todo o mais importante: era região rica em água.

Portugal já havia ordenado o desbravamento das terras, o sertão selvagem do então Piauhy. A área da região de Campo Maior tornou-se um corredor por onde passavam os colonizadores e os padres jesuítas, no intuito de cumprir a ordem da coroa portuguesa, em um fluxo de movimento cruzado, principalmente entre Ceará, Maranhão, Pernambuco e Bahia. Ao cruzarem a região dos Alongazes, os colonizadores, atentos, observaram a beleza e a riqueza da terra com seus pastos espetaculares e sua abundância de água. A terra, excelente para a criação do gado, foi chamada de “bons pastos” pelos primeiros colonizadores que buscavam estabelecer suas fazendas. O esplendor da terra e o olhar atento dos colonizadores foi determinante para a ocupação da região com a implantação de currais de gado. Exatamente como observou Meridan Knox: “Geografia e história interagem no primeiro movimento. Não foram os rios e a fertilidade das várzeas que conduziram o gado e os vaqueiros? Não foram as rotas de comércio de gado que localizaram os primeiros povoados?” (KNOX, p.7).

Para o estabelecimento de currais de gado era imprescindível que houvesse muita água no lugar. Naquela área (Campo Maior) o rio Longá cortava a região, seguido pelo rio Surubim e o Jenipapo. Segue ainda o riacho pintadas (e muitos outros) e as várias lagoas que se espalhavam ao longo da malha verde que cobria todo o terreno. Isso sem falar numa multiplicidade de riachos menores e lagoas de menor volume que pontilhavam as imediações. Em meio a todas as pequenas aguadas, a Lagoa Grande se destacava. Além de essencial para o gado, a água seria indispensável para o próprio consumo humano.

O curral deveria ser plantado em lugar estratégico, com boa área para a criação do gado e o cultivo da terra para subsistência. Assim, o português Bernardo de Carvalho e Aguiar pode ter estabelecido sua fazenda, a Bitorocara, na confluência do rio Surubim com o Longá, no ano de 1695, como defende o padre Cláudio Melo.  Se foi assim, ele escolheu um lugar central, abundante em água, entre o rio Surubim e o Longá. Mesmo sem determinarmos o local exato que ele plantou sua fazenda, certamente escolheu um lugar próximo de fontes de água.

 

E Fidié, venceu mesmo a Batalha do Jenipapo?

Sobre o combate do jenipapo, as colocações de Antonio Prudêncio são inquietantes: “como é possível uma luta corporal[…]

Major Fidié: depois da batalha do Jenipapo perdeu sua força e não teve como resistir. Acabou preso e deportado.

Sobre o combate do jenipapo, as colocações de Antonio Prudêncio são inquietantes: “como é possível uma luta corporal de mais de cinco horas, onde milhares lutaram ferozmente e restarem apenas dezesseis inimigos mortos? E a artilharia brasileira, com uma ou duas peças, nada fez?”.

É quase impossível acreditar nos relatos portugueses, de pouquíssimos mortos no exército de Fidié, quando analisamos que 2.000 homens, aproximadamente, enfrentaram outros 2.000, ou perto disso, e somente uma fagulha caem mortos de um lado, e Fidié, depois do combate, fica completamente desnorteado, sem capacidade de dar continuidade, sequer, à sua marcha para Oeiras.

Os registros orais, que apresentam muitas outras mortes do exército português, estão mais consonantes com o contexto histórico, e são uma ajuda muito melhor do que as fontes portuguesas para nos levar ao entendimento dos fatos que se sucederam depois da Batalha do Jenipapo. Registros muito fidedignos da oralidade apresentam um destacamento de soldados portugueses que fugiu, abandonando seu comandante. Houve fugas de portugueses em várias direções. Um grupo de soldados que foi acuado, sem ter como se juntar ao grosso das tropas portuguesas, fugiu pelos campos abertos para longe do epicentro do combate. Foram localizados pelas tropas brasileiras depois de dois dias de busca, quando se faziam patrulhas a procura de feridos ou mesmo de soldados portugueses que poderiam estar escondidos para um novo ataque. O grupo de soldados que foi descoberto não aceitou a rendição proposta pelos brasileiros. Todos os portugueses fugitivos morreram naquele dia, fuzilados pelas armas do exército patriota. O lugar foi chamado de “Capão do Fidié”, e a tradição acerca desse acontecimento foi preservada. Um cemitério onde os corpos foram enterrados permaneceu intacto por décadas. O “Capão do Fidié” fica a 12 km do Campo do Batalhão, onde aconteceu o confronto do 13 de março.

No pós-batalha a perseguição das tropas brasileiras aos portugueses foi implacável. Soldados de Fidié são avistados em Livramento, escondidos no topo de uma serra. O medo havia se alojado no espírito dos homens que compunham aquele poderoso exército. Mais um confronto entre Brasil e Portugal, entre soldados profissionais e homens que foram, do dia para a noite, forjados em soldados. Resultado: mais doze soldados de Fidié mortos e sete são levados presos em ferros. Com eles uma manada de mais de 100 bois é recuperada. O que ainda restava das forças portuguesas padecia da fome.

Fontes documentadas revelam que Fidié e seu exército estava em frangalhos, carregando gente doente em redes, “vinte e tantas redes” diz o observador, e outros soldados com ferimentos de menor gravidade seguiam trôpegos, horrorizados, caminhando em aflição. “Clarões” nas tropas do inimigo são registrados, continua a observar o espia das tropas patriotas. Falta muita gente nos pelotões militares do exército de Fidié. As notícias dão conta de que o exército português foi abalado pelas tropas da independência.

A guerra em Campo Maior fez com que o experiente Major Fidié retornasse abatido, quase desarmado, sem suas peças de artilharia, sem bagagem, sem remédios e em completa frustração. Ele ficou incapaz de prosseguir com seus planos de sufocar os independentes de Oeiras. Não teve mais condições de seguir para o sul do Piauí. As tropas dos independentes, reforçadas, espreitam o exército português por onde ele vai. Ficam acuados. Fidié foi para o Estanhado, e de lá seguiu para o Maranhão, mudando seus planos em desespero. Por todos os modos, tentava escapar. Em cada parada do Português, um novo medo se apodera e a certeza da derrota cresce. Meses depois, Fidié se rende, é capturado e levado preso, e depois regressou para sua pátria portuguesa com muitas histórias para contar sobre a bravura dos campo-maiorenses e cearenses que enfrentou no campo do Jenipapo.

A tradição foi especialmente preservada pela família do vaqueiro Cosme Borges da Silva, que teve origem com seu avô, Cosme Damião, que preservou o cemitério com cruzes fixadas por muitos anos: “Cosme Borges foi uma espécie de guardião e zelador desse cemitério. No início remontava a cruzes, muitas delas caídas e as recolocava nas suas devidas covas. Na sua época ainda se percebiam os montes de areia característicos de sepultamentos individuais” (BRASIL, p. 39). Quando foi entrevistado, o neto do guardião do cemitério tinha mais de 100 anos de idade, e gozando de plena lucidez. Essa história ele contou ao longo de sua vida.

trecho do livro: Batalha do Jenipapo: morte e liberdade na mais sangrenta guerra pela independência do Brasil (2018).

Uma descrição do cemitério dos Heróis do Jenipapo – 1938

Apresento aqui o relato de uma fonte histórica jamais historicizada pelos historiadores da Batalha do Jenipapo. No relato, que me limitarei a[…]

Túmulos, obelisco e cruzeiro do Cemitério do Batalhão: autentico, só o obelisco.

Apresento aqui o relato de uma fonte histórica jamais historicizada pelos historiadores da Batalha do Jenipapo. No relato, que me limitarei a destacar apenas um pequeno trecho, há uma preocupação quanto ao abandono do cemitério do Batalhão. Sobretudo, o registro histórico nos ajuda a entender que o cemitério do batalhão já foi alterado, abusado, adulterado, acrescido, violado e desrespeitado, e ainda caberia aqui uma dúzia de adjetivos, sinônimos ou não, para realçarmos o absurdo que esse patrimônio histórico vem sofrendo.

Há quase um século, mais precisamente há 80 anos atrás (o registro é de 1938), esteve em Campo Maior, enviado do governo federal, Paulo Barreto. Ele esteve no Cemitério do Batalhão, e fez um breve relato do que viu. Além disso, ele fez fotografias – valiosíssimas por sinal –  sobre o lugar. As imagens registradas por Barreto também  nos ajudam a entender como era o cemitério dos heróis da guerra do Jenipapo.

Os túmulos

Barreto fala que algumas cruzes estão espalhadas pelo chão, outras fincadas no local, e ainda alguns casebres que protegem outros túmulos. As cruzes são muito parecidas com as de hoje, mas, claro, não são as mesmas. Estão em sua grande parte em torno do velho obelisco e do cruzeiro, soerguidos em 1922. Também pode ser visto um túmulo com pedras, mas apenas um (se havia outros, as imagens não captaram). Os túmulos de pedra, iguais aos de hoje, foram mandados construir em 1922, pelo Major Lula, na época, Intendente (posto similar ao de um prefeito) de Campo Maior. Antes nada havia.

Mausoléu dos mortos

As fotos revelam que os casebres, pelo menos três, consistiam simplesmente num cerco de forquilhas cobertas com telha. Os casebres também são cercados com estacas, tudo bem rústico. No interior deles, túmulos. Provavelmente túmulos de pessoas que morreram muito depois da Batalha do Jenipapo, e os familiares os sepultaram ali por causa da mística que o lugar ganhou com a construção do obelisco em 1922, e do grande cruzeiro de madeira, símbolo dos cemitérios. Um dos casebres abriga, no topo do telhado, um grande cupinzeiro, que reina absoluto e surge como um terrível ornamento arquitetônico natural.

Obelisco e o cruzeiro

O obelisco e um cruzeiro também aparecem. O cruzeiro é novo, de madeira cerrada e bem trabalhada, parece estar polido, com as extremidades arredondadas. O obelisco já apresenta algum desgaste, e está especialmente enegrecido pela fumaça e fuligem. Era lugar onde  velas eram acesas para os mortos. Assim como hoje, o descaso com o lugar era patente e um ralo matagal cobria boa parte da área. Não existiam árvores, como hoje se vê, ao longo do cemitério. O local era muito mais desértico e árido, muito mais campestre do que é hoje. Pode-se considerar até mesmo um lugar inóspito.

Cemitério violado, patrimônio desrespeitado

Hoje o cenário claramente apresenta um upgrade, realizado ao longo desses 80 anos pelo Governo do Estado. Com exceção do obelisco, tudo está bem diferente. A sepulturas enchem o espaço do cemitério, o que é uma forma de valorizar o cenário para os visitantes. O acréscimo de sepulturas é devastador, a julgar pelas fotos de 1938. E mais interessante: boa parte das sepulturas marcadas só por cruzes estão bem próximas ao obelisco. Hoje o obelisco tem um círculo quase perfeito em seu entorno, que também envolve o cruzeiro, que não é mais o mesmo. Esse espaço vazio de hoje representa, sobretudo, o desrespeito e o ultraje com a memória, com a história e com a preservação.

O Campo do Batalhão

No cenário em volta, ao fundo, vê-se toda a grandeza do campo do Batalhão, nome que foi dado àquela região por causa da Batalha do Jenipapo. Só campo, sem nenhum traço de concreto. Ao longo da vastidão, percebe-se as carnaubeiras de Campo Maior, símbolo natural da cidade, e, agora, também o símbolo do Piauí.

O relato de 1938 – correspondência federal

Para não deixar o leitor na mão, segue um pedacinho do registro de 1938, provavelmente um dos mais antigos que ainda existem em relação ao cemitério do Batalhão:

“As sepulturas são indicadas por várias cruzes de madeira; algumas delas estão protegidas com cercas … toda essa área se encontra aberta, e em sua maioria as cruzes se acham deixadas no solo, caídas … É de interesse conserva-se esse cemitério pelo seu valor histórico e pela sua expressão profundamente campestre”.

O leitor vai precisar aguardar mais um pouco para ter o relato completo e para ver as imagens que foram registradas pelo autor do relato. Em breve serão publicadas na íntegra (em livro), inclusive com uma série de outros documentos.

Batalha do Jenipapo: quantas pessoas morreram naquela guerra?

Até hoje é incerto o número de mortos na Batalha do Jenipapo. O que não é duvidoso, de[…]

Batalha do Jenipapo: o número de mortos é outra incógnita histórica

Até hoje é incerto o número de mortos na Batalha do Jenipapo. O que não é duvidoso, de modo algum, é que centenas de pessoas caíram mortas naquele confronto entre as forças portuguesas comandadas por Fidié e as tropas brasileiras. Eu levantei um problema em relação ao Cemitério do Batalhão, lugar onde, supostamente, estão enterrados os brasileiros mortos naquela guerra. A verdade é que não sabemos se os mortos estão sepultados no simbólico Cemitério ou não. A força da tradição é que tem sustentado a própria tradição, perpetuada ha mais de 100 anos no conjunto de tradições e culturas do povo piauiense, em especial do campomaiorense. Mas isso eu tratarei brevemente no meu próximo livro, até lá o leitor terá que se contentar com alguns textos que eu já publiquei em portais e jornais.

A dúvida quanto aos lugar de sepultamento dos mortos não significa que haja dúvidas quento a realidade dos mortos. Uma questão não anula a outra de jeito nenhum. Mas, quanto aos mortos, especialmente ao número de mortos na Batalha do Jenipapo, temos um novo dilema não resolvido e muito mais difícil de ser resolvido do que o outro. Eu diria impossível de ser solucionado em absoluto e com toda precisão. Quantas pessoas morreram na Batalha do Jenipapo? Eu vou usar dois textos bem antigos para demonstrar ao leitor que há dificuldades praticamente intransponíveis nessa questão

Vieira da Silva

O primeiro a falar sobre essa questão foi Vieira da Silva, que disse, sucintamente:

“Calculou-se a perda das tropas brasileiras em mais de 200 homens, entre mortos e feridos, 542 prisioneiros (…) Da tropa portuguesa pereceram 16 soldados, 1 sargento, 1 alferes e 1 capitão. Saíram feridos 60 homens” (SILVA, p. 91).

A informação de Vieira da Silva advém das fontes estrangeiras e tem aspectos de oralidade envolvidos, sobretudo, nas dúvidas notadas no seu texto. Contudo, onde Fidié não se pronunciou, ele lançou alguma luz. Quanto aos mortos portugueses ele acrescenta informação: 19 mortos no total. Sobre o número de feridos ele é taxativo: 60. Vieira da Silva menciona que as tropas de Fidié contaram apenas sessenta homens feridos, um contraste fortíssimo com as narrativas brasileiras, que atestam um número maior.

Abdias Neves

Das narrativas piauienses, Abdias Neves registrou a primeira:

“Não se sabe, ao certo, o número de mortos que tiveram os portugueses, porque Fidié reuniu os cadáveres em cinco sepulturas e não as enumerou na parte da ação … Fidié, no entanto, tratou logo de enterrar seus mortos, acomodar os feridos e abandonar o campo de luta” (NEVES, p. 148).

Abdias Neves preferiu não ser taxativo à exatidão de números, mas seguiu as narrativas portuguesas. Ele demonstrou isso citando os números apresentados por Vieira da Silva, que, por sua vez, tomou por base suas informações a partir da narrativa de Fidié. Abdias colheu alguma informação oral, oriunda da tradição popular da Batalha, contudo, quanto aos números, não os contabilizou. Deve ter encontrado muitos desacordos nas informações.

Se não há um acordo dentre os pesquisadores mais antigos, nem mesmo em Vieira da Silva, que escreveu pouco tempo depois da Batalha do Jenipapo, que diremos mais tarde, quando comprovou-se a ausência de fontes documentais que tratam desse aspecto. Se existe alguma fonte fidedigna que revele isso, ele está perdida em algum lugar. Os autores que vem em seguida, apresentam números ainda mais desencontrados nos dois lados. Alguns sugerem números que ultrapassam os 1000 mortos, outros reduzem muito as baixas, especialmente no lado português.

 

Minhas leituras de 2017, e mais os 10 melhores que li no ano

Como faço todos os anos, disponibilizo aqui minhas leituras realizadas em 2017. A maioria dos livros são excelentes,[…]

Como faço todos os anos, disponibilizo aqui minhas leituras realizadas em 2017. A maioria dos livros são excelentes, alguns poucos eu me decepcionei um pouco, porque esperava mais. Eu sempre divido a minha lista em duas partes: livros da área teológica, visto ser essa a minha principal leitura; e livros em áreas gerais, como história, política, clássicos, etc.

Caso o leitor tenha lido algum desses livros e queira comentar ou discutir comigo, podemos fazer isso via Facebook, no privado ou publicamente. No facebook eu também listei os “10 melhores”, na minha opinião. As discussões sempre nos levam a aprender mais. Também aproveito para indicar essas leituras, mesmo as que eu, particularmente, esperava extrair algo mais. Pode ser que para o leitor, esse seja exatamente o livro que você precisava. Boa leitura!

10 melhores livros que eu li em 2017: https://www.facebook.com/marcus.paixao.5/posts/1683708761685163?notif_id=1513883998561320&notif_t=like

 

  1. DEMAR, Gary. Quem Controla a Escola Governa o Mundo. Monergismo, Brasília-DF, 2014. (Kindle).

 

  1. GENTRY JR, Kenneth. O Apocalipse para Leigos: você pode entender a profecia bíblica. Monergismo, Brasília, 2014. (Kindle).

 

  1. SPROUL, R. C. Estes São os Últimos Dias? Editora Fiel, São José dos Campos – SP, 2013. (Kindle).

 

  1. MORECRAFT III, Joe. Com Liberdade e Justiça para Todos: política cristã simplificada. Monergismo, Brasília – DF, 2016. (Kindle).

 

  1. SANDLIN, P. Andrew. Cultura Cristã: uma introdução. Monergismo, Brasília – DF, 2016. (Kindle).

 

  1. McDURMON, Joel. O Que Jesus Beberia? um estudo cheio do Espírito. Monergismo, Brasília – DF, 2012. (Kindle).

 

  1. DENAUT, Pascal. The Distinctiveness of Baptist Covenant Theology. (Kindle).

 

  1. KELLER, Timothy. Pregação: comunicando a fé na era do ceticismo. Vida Nova, São Paulo, 2017.

 

  1. DEMAR, Gary. Será que Jesus Virá em Breve? Monergismo, Brasília-DF, 2009.

 

  1. BEDDOME, Benjamin. A Scriptural Exposition of the Baptist Catechism. Solid Ground Christian Books, 2 ed. Birmingham – AL, 2006.

 

  1. PIPER, John. Uma Glória Peculiar: como a Bíblia se revela completamente verdadeira. Fiel, São José dos Campos – SP, 2017.

 

  1. BERNARDIN, Pascal. Maquiavel Pedagogo ou O Mistério da Reforma Psicológica. Eclesiastes; Vide Editorial. Campinas – SP,

 

  1. FERRARETO, Elisa; FERRARETO, Luiz. Assessoria de Imprensa: teoria e prática. Summus, São Paulo, 2009.

 

  1. PORTE, Wilson. Um Pregador da Graça: a fé reformada na vida de Benjamin Keach. Edição do autor, São Paulo, 2017.

 

  1. LAWSON, Steven. As Sete Igrejas do Apocalipse: o alerta final de Cristo para seu povo. CPAD. Rio de Janeiro, 1996.

 

  1. BRIDGES, Jerry. Quem Sou Eu? Nossa identidade em Cristo. Vida Nova, São Paulo, 2015.

 

  1. LOPES, Augustus Nicodemus. Os Milagres de Jesus no Evangelho de João. Estação da Fé. Goiânia – GO, 2016.

 

  1. SANDEL, Michael. Justiça: o que é fazer a coisa certa. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2017.

 

  1. LIOYD-JONES, Martin. Romanos: o justo juízo de Deus, capítulos 2.1-3.20. PES, São Paulo, 1999.

 

  1. WILKER, Benjamin. 10 Livros que Todo Conservador Deve ler. Mais quatro imperdíveis e um impostor. Vide Editorial, Campinas – SP, 2016.

 

  1. MAcARTHUR JR, John. O Pastor Como Pregador: pregando a Palavra de Deus com paixão e poder. Editora Peregrino, Eusebio – CE, 2016.

 

  1. ABRAHAM, Larry; ALLEN, Gary. Política, Ideologia e Conspirações: a sujeita por trás das ideias que dominam o mundo. Faro editorial, Barueri – SP, 2017.

 

  1. LÊ GOFF, Jacques. Uma Vida para a História: conversações com Marc Heurgon. Unesp, São Paulo, 2007.

 

  1. STREET, John D. Purificando o Coração da Idolatria Sexual. Nutra Publicações, São Paulo, 2009.

 

  1. STEVENSON, Robert Louis. A Ilha do Tesouro. Abril, São Paulo, 2012.

 

  1. ESOLEN, Anthony. Dez Maneiras de Destruir a Imaginação do seu Filho. Vide Editorial, Campinas – SP, 2017.

 

  1. PACEPA, Ion Mihai; RYCHLAK, Ronald J. Desinformação: ex-chefe de espionagem revela estratégias secretas para solapar a liberdade, atacar a religião, e promover o terrorismo. Vide Editorial, Campinas – SP, 2015.

 

  1. SCRUTON, Roger. Pensadores da Nova Esquerda. É Realizações, São Paulo, 2014.

 

  1. REEVES, Michael. A Chama Inextinguível: descobrindo o cerne da Reforma. Monergismo, Brasília – DF, 2016.

 

  1. SANTOS, Mário Ferreira. A Invasão Vertical dos Bárbaros. É Realizações, São Paulo, 2012.

 

  1. LÊ GOFF, Jacques. Por Amor às Cidades. Fundação editora da UNESP, São Paulo, 1998.

 

  1. BRIDGES, Jerry. A Busca da Santidade. Monergismo, Brasília – DF, 2013.

 

  1. BEEKE, Joel; KLEYN, Diana. Como Deus Usou Uma Tempestade e Outras Histórias Devocionais. Knox Publicações, Ananindeua – PA, 2015.

 

  1. FERREIRA, Franklin. Pilares da Fé: a atualidade da mensagem da Reforma. Vida Nova, São Paulo, 2017.

 

  1. BEEKE, Joel; PEDERSON, Randall. Paixão Pela Pureza: conheça os puritanos. PES, São Paulo, 2010.

 

  1. LAWSON, Steven. A Heroica Ousadia de Martinho Lutero. Fiel, São José dos Campos – SP, 2013.

 

  1. SOARES, Esequias. Septuaginta: guia histórico e literário.

 

  1. JUDT, Tony. O Mal Ronda a Terra: um retrato sobre as insatisfações do presente. Objetiva, Rio de Janeiro, 2011.

 

  1. SCRUTON, Roger. As Vantagens do Pessimismo: e o perigo da falsa esperança. É Realizações, São Paulo, 2015.

 

  1. SCHREINER, Thomas; WRIGHT, Shawn. Beliver´s Baptism: sign of the new covenant in Crhist. B&H Academic, Nashivelle – Tenesse, 2004.

 

  1. LLOYD-JONES, D. Martin. Pregação e Pregadores. Fiel, São José dos Campos, 2003.

 

  1. WATSON, Thomas. Como Ler a Bíblia. Trad. Tiago F. Cunha. 2017.

 

  1. QUINTELA, Flávio; BARBOSA, Bene. Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento. Vide Editorial, Campinas – SP, 2015.

 

  1. FERRARI, Pollyana. Jornalismo Digital. 4. ed. Contexto, São Paulo, 2017.

 

  1. CARVALHO, Olavo. Maquiavel, ou a Confissão Demoníaca. Vide Editorial, Campinas – SP, 2011.
  2. TRUMP, Donald. América Debilitada: como tornar a América grande outra vez. Citadel, Porto Alegre, 2016.

 

  1. CARSON, D. A. Jesus, o Filho de Deus: o título cristológico muitas vezes negligenciado, às vezes mal compreendido e atualmente questionado. Vida Nova, São Paulo, 2015.

 

 

 

Onde estão sepultados os mortos da Batalha do Jenipapo

O destino dos corpos dos homens que morreram na guerra do Jenipapo é incerto.

Cemitério do Batalhão, em Campo Maior. Dúvidas sobre o destino dos corpos dos combatentes do Jenipapo

Onde estão os restos mortais daqueles que tombaram na épica Batalha do Jenipapo? A resposta mais comum, claro, é que eles estão sepultados no “Cemitério do Batalhão”, em Campo Maior.

– CEMITÉRIO DO BATALHÃO, EM CAMPO MAIOR. A TRADIÇÃO DIZ QUE NESSE CEMITÉRIO ESTÃO SEPULTADOS OS “HERÓIS DO JENIPAPO”.

A história do cemitério dos mortos da Batalha do Jenipapo se desenvolveu, especialmente, através da tradição popular e de uma religiosidade exacerbada, que podemos denominar de catolicismo popular. Não há registros documentais precisos sobre o lugar dos sepultamentos. Talvez a maior parte dos piauienses (e também os campo-maiorenses) não saiba, mas o Cemitério do Batalhão, na configuração que ele tem hoje, com toda a disposição de sepulturas, nasceu a partir do soerguimento do Obelisco, em 1922, portanto, há 95 anos atrás, quase um século atrás. Esse Obelisco foi levantado como lembrança à memória dos heróis que lutaram na guerra do Jenipapo, e o lugar escolhido para construção do obelisco não foi “o cemitério”, como poderíamos esperar no documento. O texto, conforme está escrito na ata do Conselho Municipal de Campo Maior, destaca que esse primeiro monumento foi erguido num lugar chamado “Campo do Batalhão”.

Esse texto do Conselho de Campo Maior me causou estranheza. Conforme sugere a tradição secular da Batalha do Jenipapo, os mortos, combatentes da guerra, foram sepultados no atual “Cemitério do Batalhão”. Era natural que os conselheiros municipais de Campo Maior destacassem que o Obelisco seria erguido no cemitério onde jazem os mortos da batalha, e não simplesmente no grande “campo do Batalhão”. Mas não o fizeram. Isso seria importante não apenas para identificar o cemitério dos heróis de guerra, mas para deixar a informação da localização muito mais precisa. O cemitério seria o melhor ponto de referência para os conselheiros municipais indicarem onde seria erguido o Obelisco. Contudo, o texto negligencia esse cemitério.

– OBELISCO ERIGIDO EM 1922, LOCALIZADO NO CEMITÉRIO DO BATALHÃO, EM HOMENAGEM AOS MORTOS NA GUERRA

O “Campo do Batalhão” é uma designação ao campo de batalha onde o combate foi travado. Indica o largo espaço geográfico que se deu o confronto. Os conselheiros campo-maiorenses, ao que parece, decidiram erguer o Obelisco num determinado ponto do campo de batalha e não precisamente em um cemitério, visto que o texto jamais se refere a qualquer cemitério. A região, de fato, depois da guerra ficou conhecido popularmente como o “Campo do Batalhão”. Era desejo do Conselho homenagear os heróis que morreram na guerra do Jenipapo com um Obelisco que seria levantado no lugar da batalha.

Depois de 1922, quando o Obelisco foi erguido, o lugar passou a ser visto simbolicamente como o lugar dos mortos do Batalhão. Repito: não há nenhuma informação de que o lugar, anteriormente, já fosse um cemitério. Mas é fato que a partir de 1922 ele passou a ser visto como cemitério. O Obelisco tornou-se um marco para onde as pessoas peregrinavam para rezar aos mortos da guerra. Também para lá as pessoas afluíam para pagar suas promessas e, posteriormente, o lugar passou a receber ex-votos dos fiéis católicos. Foi daí que surgiu a tradição das “Almas do Batalhão”, isto é, a tradição do catolicismo popular de que as almas que morreram no combate eram milagrosas. Acredito que a tradição de que os mortos da Batalha do Jenipapo estão sepultados naquele cemitério também ganhou força nesse mesmo período.

Outro fato importante é que, depois de 1922, é certo que muitas pessoas começaram a sepultar seus defuntos junto ao Obelisco, com a ideia de que o campo sagrado (sagrado por causa dos mortos da guerra) poderia de alguma forma ajudar os mortos. Dessa forma, muitas sepulturas que estão localizadas no cemitério são, na realidade, de pessoas que morreram mais de um século depois da Batalha do Jenipapo.

As produções historiográficas que abordam a temática, desde Luís Antônio Vieira da Silva, que em 1862 escreveu o primeiro registro histórico da Batalha do Jenipapo, até as últimas pesquisas publicadas até 2010, nenhuma informação consta sobre a existência desse cemitério. Nada acrescenta sobre isso Abdias Neves. Em sua obra não há a menor referência de que o lugar onde os mortos foram sepultados é esse cemitério. Odilon Nunes e Mons. Chaves também não afirmam isso e os documentos citados por eles em nada tratam desse assunto. Os autores modernos também nada afirmam. Na realidade, eles também não negam, e provavelmente seguem a tradição que foi desenvolvida em Campo Maior.

– LIVRO DE ABDIAS NEVES, O PRIMEIRO LIVRO PIAUIENSE SOBRE A BATALHA DO JENIPAPO. NENHUMA REFERÊNCIA AO LOCAL ONDE ESTÃO SEPULTADOS OS MORTOS DA GUERRA.

Abdias Neves é um caso interessante a ser examinado. Esperava-se que ele, por ter escrito seu livro sobre a Batalha do Jenipapo, A Guerra de Fidié, em 1907, fizesse alguma menção ao velho cemitério dos heróis. Abdias Neves nada fala sobre isso. Nada. Sua obra foi escrita quando apenas 84 anos haviam se passado da Batalha do Jenipapo. É no mínimo estranho que ele, destacando o bravo feito dos homens que lutaram na guerra, a bravura e o patriotismo deles, não faça nenhuma menção ao lugar em que eles estão sepultados.

Se toda essa discussão que levanto já não bastasse, merece consideração o fato de o antigo Cemitério do Batalhão sofrer constantemente violações e acréscimos de sepulturas para dar-lhe a aparência de mais monumental. Uma quantidade considerável de túmulos ou montículos de pedra foi posicionada de modo a aumentar o número de supostos sepultados. Uma tentativa de fraudar a história. Qualquer fotografia antiga, especialmente aquelas que antecedem a construção do Monumento do Jenipapo (1973), revelam que o local foi violado inúmeras vezes. Além disso, a passarela que foi aberta em meio a alguns antigos sepulcros é um absurdo inaceitável. O cenário foi completamente alterado.

Dessa forma, sabendo que estou mexendo num vespeiro, pois sei que o assunto é caro para todos nós, levanto a discussão, a fim de fomentar a pesquisa e buscar a verdade dos fatos sobre o lugar onde os mortos da Batalha do Jenipapo estão sepultados.

A carne de sol de Campo Maior e sua história

Existe um traço histórico que explica a fama da carne de sol de Campo Maior, que hoje já é reconhecida como a melhor do país.

A carne de Sol de Campo Maior: insuperável!

Em todo o Estado do Piauí e em muitas cidades brasileiras, o município de Campo Maior é conhecido como a terra da carne de sol. Aqui no Piauí esse título é consenso, ninguém discute mais a questão, ninguém toma de Campo Maior esse mérito. No Brasil, por conta dos turistas que tem visitado nossa terra – especialmente por causa da Batalha do Jenipapo, festejos religiosos, etc. – no decorrer de anos, a fama e o título começam a ganhar peso nacional. Ano passado a revista Veja publicou em seu site matéria explicando as origens da “Maria Izabel”, arroz à base de carne de sol e destacou a cidade de Campo Maior. Nos últimos anos, com a criação do evento cultural SABOR MAIOR, a fama de Campo Maior ganhou forte impulso nacional. Não há dúvida que através deste evento, a culinária campomaiorense tem se destacado e tem comprovado sua fama secular. Campo Maior e carne de sol, hoje, são sinônimos.

Mas o que há de especial com a carne de sol de Campo Maior? A criação de gado em Campo Maior é diferenciada? Os pastos são melhores ou o solo tem algum composto que o diferencia? Você sabe por que Campo Maior tem a fama de terra da carne de sol? Ainda é grande a quantidade de pessoas na cidade que não sabe responder essa pergunta; ou que está enganada quanto à resposta. A história do povoamento de nossas paragens pode nos ajuda compreender essa matéria.

Logo após a metade do século XVII, por volta de 1660 e 1670, nossa terra começou a ser atravessada por fazendeiros portugueses que vinham da Bahia, do Pernambuco e do Ceará, todos com destino a São Luís do Maranhão. Tratava-se de uma nova rota. As rotas antigas seguiam do Sul (Oeiras) em direção ao litoral (Norte), cruzando o Piauí em sentido vertical. A nova rota, que atravessava a atual Campo Maior, região então chamada de Vale do Longá, tinha seu trajeto pela cordilheira da Ibiapaba. Ali os vaqueiros que conduziam o gado desciam a serra e adentravam na região onde hoje cobre as cidades de Castelo a Pedro II. Continuavam seguindo na região, na direção do Longá, sempre caminhando para rio Parnaíba, divisa atual dos Estados (Piauí e Maranhão), numa travessia que cortava o Piauí ao meio, em sentido horizontal, cruzando o Vale do Longá. A nova trilha tornou-se o “corredor do gado” no Piauí.

Nessas muitas andanças de vaqueiros e fazendeiros portugueses, a terra de Campo Maior logo despertou a atenção, especialmente por duas características: as grandes e espaçosas campinas, extremamente propícia para a criação do gado; e a grande quantidade de rios e lagoas que cortavam a terra. Fazendas e curais começaram a surgir ainda nesse período inicial. Boiadas eram trazidas para as terras de Campo Maior, que logo estava cheia, pontilhada de cabeças de gado. A medida que o século XVII chegava ao fim, na mesma velocidade, crescia o número de fazendas e de bois. O gado foi a primeira riqueza de Campo Maior. Trouxe fartura, poder econômico e prestígio aos moradores da região. Isso tudo há cerca de 350 anos atrás, quando Campo Maior ainda não era chamada de Campo Maior, mas já iniciava seu povoamento e sua história com o gado, forte ligação que se comprova desde os tempos mais remotos. Ao despontar o século XVIII, com a fortificação do povoamento de fazendas, com a guerra contra os índios deflagrada, ação que dizimou as populações nativas do nosso território, a criação do gado deu, novamente, mais um grande salto. O índio não deixava de ser um problema para os fazendeiros, pois era comum o roubo do gado e o ataque às fazendas. Sem a presença indígena a criação do gado despontou e a economia do norte também. De todas as povoações do Piauí, Campo Maior sempre esteve bem presente nas dízimas do gado que eram enviados ao centro da colônia. Algumas vezes Campo Maior chegou a superar a própria Oeiras, capital da Província, na criação do gado.

– A CARNE DE SOL DESTACA-SE NA PRODUÇÃO DE VÁRIOS PRATOS SABOROSOS, COMO A PAÇOCA, O ESCONDIDINHO, O ARROZ MARIA IZABEL E ATÉ EM MEIOS ÀS MASSAS, COMO A PIZZA E O ESPAGUETE.

Alguns documentos antigos, que datam dos anos de 1770 a 1779, comprovam que a riqueza e o poder em Campo Maior vinham mesmo do gado. Chegava-se ao absurdo de um fazendeiro comprar um vestido para uma mulher ao custo de três cabeças de gado, o que equivaleria hoje, por alto, cerca de R$ 5.000,00. E isso era prática comum. Duas garrafas de cachaça custavam um valor superior ao de R$ 1.000,00, isto é, uma cabeça de gado. Para comer uma galinhada era preciso dispor de uma cabeça de gado, e dos grandes. Todo esse esbanjar comprova, não apenas a falta de alguns itens básicos, mas a grande quantidade de gado que estava espalhada nas fazendas de Campo Maior.

Respondendo a pergunta: por que Campo Maior é conhecida como terra da carne de sol? Primeiro, é bom lembrarmos que muita informação equivocada existe. Alguns tem espalhado a notícia que essa fama é oriunda do talento presente em nossa culinária. Outros acreditam que nossos campos tinham compostos especiais que tornavam o capim diferenciado… tudo estória, estória pra boi dormir. A fama se deu especialmente por conta das condições físicas naturais de nosso território. Esse título se deve, a priori, aos imensos campos que estão presentes em nossa região. Essas grandes campinas foram o motivo principal da instalação de muitas e grandes fazendas de gado. A terra logo se encheu de gado vacum. A pecuária era a fonte que mais jorrava riquezas ao povo de Campo Maior (leia-se aqui: aos fazendeiros). Se houve muito gado, isso se deu pelo fato da terra ser favorável, oferecendo grandes campinas e muito pasto.

Como o fazendeiro não dispunha de energia elétrica, a carne era conservada com sal e posta ao sol, para secar mais rapidamente e ser armazenada em pequenas e médias quantidades. Aí estava a carne de sol de Campo Maior, que se tornou lendária no Piauí inteiro. Saiba o leitor que a fama da cidade não vem de hoje, vem de quase dois séculos de tradição. As tradições se transformam e se modelam com o tempo, e a tradição da carne de sol de Campo Maior também passou por essa transformação. Hoje, ao ouvirmos que Campo Maior é a terra da carne de sol, logo ouvimos que o motivo disso é porque a nossa carne é a melhor da região. Não discordo que a nossa carne é a mais gostosa do Piauí, o Sabor Maior vai comprovar mais uma vez que a melhor culinária piauiense está em Campo Maior, mas, sem dúvida nenhuma, a origem dessa fama se deu não por motivos culinários, mas pela força que o gado sempre representou na nossa economia.