12/12/2019

Onde estão sepultados os mortos da Batalha do Jenipapo

O destino dos corpos dos homens que morreram na guerra do Jenipapo é incerto.

Cemitério do Batalhão, em Campo Maior. Dúvidas sobre o destino dos corpos dos combatentes do Jenipapo

Onde estão os restos mortais daqueles que tombaram na épica Batalha do Jenipapo? A resposta mais comum, claro, é que eles estão sepultados no “Cemitério do Batalhão”, em Campo Maior.

– CEMITÉRIO DO BATALHÃO, EM CAMPO MAIOR. A TRADIÇÃO DIZ QUE NESSE CEMITÉRIO ESTÃO SEPULTADOS OS “HERÓIS DO JENIPAPO”.

A história do cemitério dos mortos da Batalha do Jenipapo se desenvolveu, especialmente, através da tradição popular e de uma religiosidade exacerbada, que podemos denominar de catolicismo popular. Não há registros documentais precisos sobre o lugar dos sepultamentos. Talvez a maior parte dos piauienses (e também os campo-maiorenses) não saiba, mas o Cemitério do Batalhão, na configuração que ele tem hoje, com toda a disposição de sepulturas, nasceu a partir do soerguimento do Obelisco, em 1922, portanto, há 95 anos atrás, quase um século atrás. Esse Obelisco foi levantado como lembrança à memória dos heróis que lutaram na guerra do Jenipapo, e o lugar escolhido para construção do obelisco não foi “o cemitério”, como poderíamos esperar no documento. O texto, conforme está escrito na ata do Conselho Municipal de Campo Maior, destaca que esse primeiro monumento foi erguido num lugar chamado “Campo do Batalhão”.

Esse texto do Conselho de Campo Maior me causou estranheza. Conforme sugere a tradição secular da Batalha do Jenipapo, os mortos, combatentes da guerra, foram sepultados no atual “Cemitério do Batalhão”. Era natural que os conselheiros municipais de Campo Maior destacassem que o Obelisco seria erguido no cemitério onde jazem os mortos da batalha, e não simplesmente no grande “campo do Batalhão”. Mas não o fizeram. Isso seria importante não apenas para identificar o cemitério dos heróis de guerra, mas para deixar a informação da localização muito mais precisa. O cemitério seria o melhor ponto de referência para os conselheiros municipais indicarem onde seria erguido o Obelisco. Contudo, o texto negligencia esse cemitério.

– OBELISCO ERIGIDO EM 1922, LOCALIZADO NO CEMITÉRIO DO BATALHÃO, EM HOMENAGEM AOS MORTOS NA GUERRA

O “Campo do Batalhão” é uma designação ao campo de batalha onde o combate foi travado. Indica o largo espaço geográfico que se deu o confronto. Os conselheiros campo-maiorenses, ao que parece, decidiram erguer o Obelisco num determinado ponto do campo de batalha e não precisamente em um cemitério, visto que o texto jamais se refere a qualquer cemitério. A região, de fato, depois da guerra ficou conhecido popularmente como o “Campo do Batalhão”. Era desejo do Conselho homenagear os heróis que morreram na guerra do Jenipapo com um Obelisco que seria levantado no lugar da batalha.

Depois de 1922, quando o Obelisco foi erguido, o lugar passou a ser visto simbolicamente como o lugar dos mortos do Batalhão. Repito: não há nenhuma informação de que o lugar, anteriormente, já fosse um cemitério. Mas é fato que a partir de 1922 ele passou a ser visto como cemitério. O Obelisco tornou-se um marco para onde as pessoas peregrinavam para rezar aos mortos da guerra. Também para lá as pessoas afluíam para pagar suas promessas e, posteriormente, o lugar passou a receber ex-votos dos fiéis católicos. Foi daí que surgiu a tradição das “Almas do Batalhão”, isto é, a tradição do catolicismo popular de que as almas que morreram no combate eram milagrosas. Acredito que a tradição de que os mortos da Batalha do Jenipapo estão sepultados naquele cemitério também ganhou força nesse mesmo período.

Outro fato importante é que, depois de 1922, é certo que muitas pessoas começaram a sepultar seus defuntos junto ao Obelisco, com a ideia de que o campo sagrado (sagrado por causa dos mortos da guerra) poderia de alguma forma ajudar os mortos. Dessa forma, muitas sepulturas que estão localizadas no cemitério são, na realidade, de pessoas que morreram mais de um século depois da Batalha do Jenipapo.

As produções historiográficas que abordam a temática, desde Luís Antônio Vieira da Silva, que em 1862 escreveu o primeiro registro histórico da Batalha do Jenipapo, até as últimas pesquisas publicadas até 2010, nenhuma informação consta sobre a existência desse cemitério. Nada acrescenta sobre isso Abdias Neves. Em sua obra não há a menor referência de que o lugar onde os mortos foram sepultados é esse cemitério. Odilon Nunes e Mons. Chaves também não afirmam isso e os documentos citados por eles em nada tratam desse assunto. Os autores modernos também nada afirmam. Na realidade, eles também não negam, e provavelmente seguem a tradição que foi desenvolvida em Campo Maior.

– LIVRO DE ABDIAS NEVES, O PRIMEIRO LIVRO PIAUIENSE SOBRE A BATALHA DO JENIPAPO. NENHUMA REFERÊNCIA AO LOCAL ONDE ESTÃO SEPULTADOS OS MORTOS DA GUERRA.

Abdias Neves é um caso interessante a ser examinado. Esperava-se que ele, por ter escrito seu livro sobre a Batalha do Jenipapo, A Guerra de Fidié, em 1907, fizesse alguma menção ao velho cemitério dos heróis. Abdias Neves nada fala sobre isso. Nada. Sua obra foi escrita quando apenas 84 anos haviam se passado da Batalha do Jenipapo. É no mínimo estranho que ele, destacando o bravo feito dos homens que lutaram na guerra, a bravura e o patriotismo deles, não faça nenhuma menção ao lugar em que eles estão sepultados.

Se toda essa discussão que levanto já não bastasse, merece consideração o fato de o antigo Cemitério do Batalhão sofrer constantemente violações e acréscimos de sepulturas para dar-lhe a aparência de mais monumental. Uma quantidade considerável de túmulos ou montículos de pedra foi posicionada de modo a aumentar o número de supostos sepultados. Uma tentativa de fraudar a história. Qualquer fotografia antiga, especialmente aquelas que antecedem a construção do Monumento do Jenipapo (1973), revelam que o local foi violado inúmeras vezes. Além disso, a passarela que foi aberta em meio a alguns antigos sepulcros é um absurdo inaceitável. O cenário foi completamente alterado.

Dessa forma, sabendo que estou mexendo num vespeiro, pois sei que o assunto é caro para todos nós, levanto a discussão, a fim de fomentar a pesquisa e buscar a verdade dos fatos sobre o lugar onde os mortos da Batalha do Jenipapo estão sepultados.

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