08/12/2019

Uma descrição do cemitério dos Heróis do Jenipapo – 1938

Apresento aqui o relato de uma fonte histórica jamais historicizada pelos historiadores da Batalha do Jenipapo. No relato, que me limitarei a[…]

Túmulos, obelisco e cruzeiro do Cemitério do Batalhão: autentico, só o obelisco.

Apresento aqui o relato de uma fonte histórica jamais historicizada pelos historiadores da Batalha do Jenipapo. No relato, que me limitarei a destacar apenas um pequeno trecho, há uma preocupação quanto ao abandono do cemitério do Batalhão. Sobretudo, o registro histórico nos ajuda a entender que o cemitério do batalhão já foi alterado, abusado, adulterado, acrescido, violado e desrespeitado, e ainda caberia aqui uma dúzia de adjetivos, sinônimos ou não, para realçarmos o absurdo que esse patrimônio histórico vem sofrendo.

Há quase um século, mais precisamente há 80 anos atrás (o registro é de 1938), esteve em Campo Maior, enviado do governo federal, Paulo Barreto. Ele esteve no Cemitério do Batalhão, e fez um breve relato do que viu. Além disso, ele fez fotografias – valiosíssimas por sinal –  sobre o lugar. As imagens registradas por Barreto também  nos ajudam a entender como era o cemitério dos heróis da guerra do Jenipapo.

Os túmulos

Barreto fala que algumas cruzes estão espalhadas pelo chão, outras fincadas no local, e ainda alguns casebres que protegem outros túmulos. As cruzes são muito parecidas com as de hoje, mas, claro, não são as mesmas. Estão em sua grande parte em torno do velho obelisco e do cruzeiro, soerguidos em 1922. Também pode ser visto um túmulo com pedras, mas apenas um (se havia outros, as imagens não captaram). Os túmulos de pedra, iguais aos de hoje, foram mandados construir em 1922, pelo Major Lula, na época, Intendente (posto similar ao de um prefeito) de Campo Maior. Antes nada havia.

Mausoléu dos mortos

As fotos revelam que os casebres, pelo menos três, consistiam simplesmente num cerco de forquilhas cobertas com telha. Os casebres também são cercados com estacas, tudo bem rústico. No interior deles, túmulos. Provavelmente túmulos de pessoas que morreram muito depois da Batalha do Jenipapo, e os familiares os sepultaram ali por causa da mística que o lugar ganhou com a construção do obelisco em 1922, e do grande cruzeiro de madeira, símbolo dos cemitérios. Um dos casebres abriga, no topo do telhado, um grande cupinzeiro, que reina absoluto e surge como um terrível ornamento arquitetônico natural.

Obelisco e o cruzeiro

O obelisco e um cruzeiro também aparecem. O cruzeiro é novo, de madeira cerrada e bem trabalhada, parece estar polido, com as extremidades arredondadas. O obelisco já apresenta algum desgaste, e está especialmente enegrecido pela fumaça e fuligem. Era lugar onde  velas eram acesas para os mortos. Assim como hoje, o descaso com o lugar era patente e um ralo matagal cobria boa parte da área. Não existiam árvores, como hoje se vê, ao longo do cemitério. O local era muito mais desértico e árido, muito mais campestre do que é hoje. Pode-se considerar até mesmo um lugar inóspito.

Cemitério violado, patrimônio desrespeitado

Hoje o cenário claramente apresenta um upgrade, realizado ao longo desses 80 anos pelo Governo do Estado. Com exceção do obelisco, tudo está bem diferente. A sepulturas enchem o espaço do cemitério, o que é uma forma de valorizar o cenário para os visitantes. O acréscimo de sepulturas é devastador, a julgar pelas fotos de 1938. E mais interessante: boa parte das sepulturas marcadas só por cruzes estão bem próximas ao obelisco. Hoje o obelisco tem um círculo quase perfeito em seu entorno, que também envolve o cruzeiro, que não é mais o mesmo. Esse espaço vazio de hoje representa, sobretudo, o desrespeito e o ultraje com a memória, com a história e com a preservação.

O Campo do Batalhão

No cenário em volta, ao fundo, vê-se toda a grandeza do campo do Batalhão, nome que foi dado àquela região por causa da Batalha do Jenipapo. Só campo, sem nenhum traço de concreto. Ao longo da vastidão, percebe-se as carnaubeiras de Campo Maior, símbolo natural da cidade, e, agora, também o símbolo do Piauí.

O relato de 1938 – correspondência federal

Para não deixar o leitor na mão, segue um pedacinho do registro de 1938, provavelmente um dos mais antigos que ainda existem em relação ao cemitério do Batalhão:

“As sepulturas são indicadas por várias cruzes de madeira; algumas delas estão protegidas com cercas … toda essa área se encontra aberta, e em sua maioria as cruzes se acham deixadas no solo, caídas … É de interesse conserva-se esse cemitério pelo seu valor histórico e pela sua expressão profundamente campestre”.

O leitor vai precisar aguardar mais um pouco para ter o relato completo e para ver as imagens que foram registradas pelo autor do relato. Em breve serão publicadas na íntegra (em livro), inclusive com uma série de outros documentos.