Celebridades rejeitam banho diário, e médicos apontam perigos da falta de higiene

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Nos anos 1990, o ratinho azul do Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura, se esbaldava em uma banheira enquanto cantava “Banho É Bom”. Na música, o personagem diz: “tchau preguiça, tchau sujeira, adeus cheirinho de suor”.

Mas, na contramão do que ensinava o programa infantil, celebridades americanas têm desencorajado o banho com frequência.

Em julho, em entrevista ao podcast Armchair Expert, os atores Ashton Kutcher e Mila Kunis disseram que só costumam banhar seus filhos quando conseguem ver “sujeira aparente neles” e também declararam não ter o costume de se ensaboar quando entram no chuveiro.

O casal hollywoodiano não está sozinho. Durante o mesmo podcast, o ator Dax Shepard disse que ele e Kristen Bell também esperam até que seus filhos fedam para banhá-los.

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a falta de banho defendida pelas celebridades não é recomendável e a falta de higiene pode trazer consequências para a saúde.

Além disso, eles alertam que a falta de sujeira ou odor aparente não é sinônimo de higiene, uma vez que fungos e bactérias são microscópicos e podem se aproveitar de alguma ferida pequena para causar infecções.

Mario Cezar Pires, dermatologista do Hospital do Servidor Público, diz que a frequência no banho muda de acordo com a cultura de cada país. Nos mais gelados, como Dinamarca, tende-se a diminuir a quantidade de chuveiradas; já nos países da América Latina, a frequência é mais regular.

Por aqui, a recomendação é de banho diário e, ao contrário do que Mila Kunis e Ashton Kutcher defendem, é necessário o uso de sabonete, já que, segundo Pires, apenas 65% da sujeira sai em um banho apenas com água.

O médico afirma ainda que o banho não precisa ter muita espuma: é necessário apenas alguma substância com poder de limpeza, de preferência um sabonete líquido, já que a opção em barra pode ressecar a pele. O sabonete sólido também não é recomendado em meio à pandemia da Covid-19, já que pode transmitir doenças caso mais de uma pessoa o utilize.

A dermatologista Regina Schechtman explica que, caso a pessoa tenha uma pele mais ressecada ou sofra de dermatite, é recomendável que ela escolha um sabonete que não tenha a função detergente, mas nunca deixar de tomar banho. “A pele tem fungos e bactérias e quem se higieniza com menor frequência tem mais predisposição a ter infecções”, diz.

Schechtman afirma que exceções podem ser aplicadas a pessoas que vivem em países de clima mais gelado, que, nesses casos, poderiam optar por tomar banhos a cada dois dias. “Mas, isso é o máximo que é aconselhável, senão vamos ter um surto de piodermite, furúnculos e abcessos”, afirma.

Pediatra infectologista, Renato Kfouri considera os depoimentos de celebridades que não se banham uma espécie de modismo sem respaldo médico algum. Ele afirma que, até os três anos de idade, a higiene é ainda mais importante, já que a criança tem uma pele mais sensível e menos pelos e, por isso, é mais suscetível a infecções.

Um dos argumentos que os atores se baseiam é que a falta de banho e o não uso de sabonetes seriam formas de manter a hidratação natural da pele. O médico Tadeu Fernando Fernandes, da Sociedade Brasileira de Pediatria, diz que apenas quando há um excesso de banhos é que há o perigo de se comprometer o sebo responsável pela proteção da pele.

Por isso, para ele, o banho deve ser uma prática diária, que pode ser realizada em até cinco minutos. “Tem pais que gostam de levar brinquedos na hora do banho do filho ou ainda colocar sabonetes com ação relaxante. Isso não é efetivo, banho é para entrar e passar sabão”, diz.

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