21/05/2019

Coragem, sangue e liberdade: Por que tantos piauienses não se importam com a Batalha do Jenipapo?

Hoje, 196 anos depois, o Governo realiza uma série de homenagens, levando políticos e atividades culturais para o berço da guerra de independência mais sangrenta do Brasil

13 de março de 1823; Às 9h da manhã, um exército de piauienses usava foices e enxadas para lutar contra as tropas portuguesas de Fidié. O riacho Jenipapo ficou repleto de sangue, as famílias ficaram sem a maioria dos seus patriarcas, mas o grito de independência afastou Portugal da província no Piauí.

Por mais de um século anônima, a coragem desses sertanejos veio à tona na década de 1970, protagonizando filme e surpreendendo o país. Hoje, 196 anos depois, o Governo realiza uma série de homenagens, levando políticos e atividades culturais para o berço da maior guerra de independência do Brasil.

O povo piauiense, por outro lado, não deve parar para acompanhá-lo. Até porque não é feriado e a rotina de quarta-feira continua. Para alguns, a desatenção é uma pena, para outros, é puro descaso. Por que os piauienses se importam cada vez menos com uma história tão importante? Três historiadores foram ouvidos para narrar a Batalha e desvendar esse silenciamento no berço onde o confronto aconteceu.

Os historiadores Marcus Paixão, Iara Guerra e Flávio Coelho falam sobre a Batalha do Jenipapo (Foto: Montagem OitoMeia)

GRITO OU SUSSURRO DO IPIRANGA: PIAUÍ SÓ OUVE DEPOIS

“A Batalha do Jenipapo está inserida no contexto das lutas pela independência. A considerada oficial aconteceu no circuito Rio-São Paulo, apesar de haver batalhas em várias províncias. Dom Pedro I saiu da corte no Rio e foi buscar apoio em São Paulo. Lá, ele deu o grito da independência. Eu costumo brincar que foi o berro do Ipiranga, onde ele levantou o braço como se ele estivesse em uma propaganda de desodorante e anunciou para uma quantidade mínima de pessoas”, contou Flávio Coelho, professor de história do colégio CEV.

Às Margens do Ipiranga, Dom Pedro I proclamou a independência do Brasil (Foto: Reprodução/Brasil Escola)

No Sudeste, o ato isolado foi motivo de festa e celebração. Mas, o “sussurro” veio chegar aos poucos nas demais províncias. Lá, aconteceram lutas de resistência e derramamento de sangue. Províncias como Maranhão, Bahia e Piauí, que ficavam ao Norte do território nacional, ouviram a novidade quase um mês depois. Aqui, o controle administrativo continuava nas mãos dos portugueses.

O historiador Marcus Paixão, autor do livro “Batalha do Jenipapo: Morte e Liberdade na mais Sangrenta Guerra pela Independência do Brasil”, narra o desejo de Dom João VI em manter o Norte da colônia sob dominação portuguesa. Para isso, ele convocou o major João José da Cunha Fidié que deixaria as coisas sob controle.

“Fidié era um soldado experiente, com muitas batalhas no currículo. Ele veio ao Piauí porque a intenção de Dom João VI era que o Norte continuasse sob controle português. Ou seja, o Brasil seria independente, mas parte dele ainda seria colônia. Ele foi enviado para manter a resistência [nessas três regiões]. Aí surgem as notícias de revolta em Parnaíba e adesão à independência”, disse o historiador.

Fidié (à esquerda) chega ao Piauí sob ordens de Dom João VI (à direita) (Foto: Montagem OitoMeia)

CAMPO MAIOR VIRA BERÇO DE GUERRA

Mais próspera, desenvolvida e “próxima” da corte lusitana, a notícia chegou finalmente à Parnaíba, provocando alvoroço nos moradores. Eles romperam o laço com a “mãe” em 19 de outubro de 1822, feriado estadual até hoje no Piauí.

Na então capital Oeiras, distante 600 km do litoral, o governador lusitano não gostou nada da adesão. Até porque Parnaíba é o ponto mais próximo de Portugal e a coroa não queria abrir mão dessas terras. Ele convocou a tropa que o acompanhava para acabar com o sentimento libertador que se espalhava pela província.

A expedição foi feita à cavalo e à pé, levando os soldados à exaustão. Assim, Fidié parou na vila de Campo Maior e tentou acabar com o clima de festa dos moradores. Para pressioná-los, o oficial passou duas semanas acampado na região com todo o armamento à vista. Em uma reunião com os políticos da vila, eles afirmaram lealdade ao rei de Portugal.

Em Parnaíba, a mesma coisa aconteceu. “Os moradores, que aderiram à independência, fugiram com medo do Exército. Então, Fidié não encontrou resistência e desfez tudo, ordenando-os lealdade ao Rei”, narrou Paixão.

CALDEIRÃO DE IDEIAS LIBERTÁRIAS

Os fugitivos, entre eles nomes importantes da história piauiense, começam a espalhar as ideias libertadoras por todo o território.

“Quando Fidié soube que Parnaíba fez a adesão, ele conseguiu debelar o movimento, mas deixou a capital órfã de proteção lusitana. Lá, eles também declararam independência em 24 de janeiro de 1823. Ao ficar sabendo disso, ele fez o caminho inverso para acabar com a libertação. Em Campo Maior, eles foram pegos pelos moradores e dão início à batalha do Jenipapo”, continuou o professor Coelho.

Campo Maior, que ficava entre o litoral e a capital da província, era um caldeirão de ideias libertadoras. Tudo isso foi alimentado por Leonardo das Dores Castelo Branco, que prendeu um padre português.

“Fidié queria acabar de vez com esse foco patriótico. Campo Maior [que ficava no meio do caminho] virou um celeiro militar, reunindo cearenses, piauienses e maranhenses. Eles aguardaram Fidié voltar e ao passar pela cidade, começaram a batalha. O confronto começou por volta das 9h da manhã e terminou às 14h nas margens do riacho”, completou o professor Paixão.

NO RIACHO QUASE SECO, SANGUE, CORAGEM E GUERRA

Os cerca de 2 mil piauienses não vestiam fardas e não tinham experiência com guerras. As armas que possuíam eram usadas para agricultura como enxadas, machados e foices. Qualquer outra coisa também servia para o ataque como pedras, madeira e espadas velhas. A certeza de morte não impediu que as famílias enviasse seus filhos para a guerra. O propósito era tornar o Piauí livre, mesmo diante de um Exército bem equipado.

Os independentes se esconderam no riacho Jenipapo. Lá, eles tinham uma boa visão do caminho e aguardaram a chegada das tropas. No entanto, o grupo não tinha certeza sobre qual das duas frentes caminhava Fidié, por isso atacaram de qualquer jeito.

O leito ficou repleto de corpos e armas. O Exército e sertanejos lutaram corpo a corpo, causando mortes de ambos os lados. Os portugueses ficaram surpresos com a coragem dos piauienses e a luta durou cinco horas. Estima-se que houve 200 mortos e mais de 540 detidos para os nacionais. Aos portugueses, 116 teriam morrido no combate.

Cemitério dos mortos na Batalha do Jenipapo em Campo Maior (Foto: Youtube)

FIDIÉ E SEU FRACASSO NÃO RECONHECIDO

Cansados, os lusitanos foram para a fazenda Tombador, a cerca de um quilômetro de Campo Maior. Eles não tinham água, armas ou comida e passaram alguns dias enterrando seus mortos. Meses depois, Fidié acabou preso e levado ao Rio de Janeiro. Em Portugal, foi dado como herói, escreveu um livro com sua versão sobre a Batalha e ganhou vários títulos de honraria militar. Mas, o que ele realmente conquistou?

“Fidié não conseguiu abafar a revolta e não conseguiu manter a resistência. Ele não cumpriu nenhum dos objetivos da Coroa quando chegou em Campo Maior. Ele fugiu de março a julho até ser preso. Muitos ainda dizem que ele venceu. Venceu por que matou mais pessoas? alguém vence quando conquista seus objetivos. Isso acontece porque nossa historiografia foi criada sob ideias positivistas. Eles davam créditos as fontes de Portugal, que eram do lado inimigo. Há relatos feitos por Fidié, onde procura demonstrar superioridade, e os de brasileiros, que são completamente diferentes da dele. Morreu muito mais gente no lado português do que ele admite. Falo isso no meu livro. Os piauienses perderam suas vidas, mas mantiveram o ideal de liberdade ao povo brasileiro. É onde está a vitória”, argumentou Marcus Paixão.

BRASIL NÃO TERIA NORTE E NORDESTE

Na década de 1970, um monumento foi construído onde houve a guerra. O local escolhido foi a BR-343 já na saída da cidade. Depois, ele se tornou patrimônio histórico cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Mas, qual a importância da Batalha do Jenipapo? a configuração territorial que o Brasil hoje apresenta.

“É imensa. Ainda havia um foco de resistência no país. O Brasil estava livre politicamente no Sudeste, mas havia províncias do lado da Coroa e que estavam fortalecidas. Se Fidié tivesse conquistado seus objetivos, hoje haveria, no mínimo, um território diferente. O mapa atual não abarcaria essas colônias. O Piauí não seria Brasil, nem o Maranhão ou o Pará. Há toda uma ideia por trás disso que deve ser valorizada. Nós conseguimos a soberania de todo o território. Nós demonstramos a bravura de homens daqui que estavam determinados a lutar e morrer pela pátria. Também tivemos a real independência acontecida naquela data, mesmo que o país não reconheça de fato. A verdade é essa”, defendeu o historiador Paixão.

E POR QUE TANTOS PIAUIENSES NÃO SE IMPORTAM?

Maria Joana Alves tem 85 anos. Nascida em Campo Maior, ela cresceu ouvindo as histórias da família na Batalha do Jenipapo. Todo ano, ela pede que os filhos a levem para assistir as homenagens feitas no Monumento. Por telefone ele explicou que a história ocorrida na terra onde nasceu ainda a emociona.

“Meus pais tiveram 18 filhos. Todos eles sabiam da história inteira. Ela contava para a gente antes de dormir, quando chegava a data, quando a gente ia visitar. Isso me dá muita alegria. Eu tive parentes que lutaram lá, o sangue da minha família correu no riacho e era motivo de orgulho principalmente para o meu pai. Ele sempre dizia que teria feito o mesmo. A Batalha sempre foi um momento importante para nós da cidade, mas acho que só para a gente mesmo”, contou a aposentada, que também repassou a história para os filhos e netos.

Quando não é final de semana e a televisão não exibe um especial, a vida dos demais municípios segue a rotina. Muitos nem sabem que houve uma luta por independência no Piauí. É o caso da vendedora Luíza Gomes, que ouviu falar dos nomes e personagens, mas nunca soube como a Batalha aconteceu aqui.

“Eu sei da data, mas para falar a verdade, não sei te explicar bem como foi. Eu lembro quando passa na televisão”, disse à reportagem.

CONTEÚDO REGIONAL SE PERDE COM ENEM

Para a historiadora Iara Guerra, autora do trabalho de conclusão de curso (TCC) “História, Memória e Identidade da Batalha do Jenipapo”, esse esquecimento é construído por vários fatores.

“Pouquíssimas escolas abordam a disciplina História do Piauí. Como o Enem é a nível nacional, não há mais os vestibulares específicos, que cobravam assuntos locais. Então, a questão regional se perdeu porque o povo não conhece a sua própria história. Como você vai valorizar e amar se não conhece? parte desse esquecimento vem do não saber”, questionou.

A Batalha do Jenipapo era anônima no Brasil até a década de 1970, quando a gestão do governador Alberto Silva trouxe o resgate histórico. Havia pouquíssimos livros sobre o tema, então incentivou a pesquisa para disseminar tamanho banho de sangue que ajudou a libertar o país das mãos da Coroa. O confronto também virou filme e especiais nas emissoras de televisão.

“De 1823 até a década de 1970 havia praticamente dois livros sobre o tema: O do Abdias Neves, no começo do século XX, e o do próprio Fidié. Na gestão do Alberto Silva, passamos a ter mais livros confeccionados e professores universitários a fazer pesquisa. Antes, era uma narrativa que se resume ao grito do Ipiranga, o 7 de setembro e os atos heroicos dos portugueses. Os ‘Brasis pequenos’ foram esquecidos por anos e esses personagens não existiam nas obras acadêmicas”, acrescentou Flávio Coelho, historiador.

GUERRA SEM LÍDERES, GUERRA DE POBRES

Mas, até hoje são poucas as obras nacionais que trazem a Batalha do Jenipapo como intertítulo do processo de independência do Brasil. Coelho destaca que o fato do confronto ter sido feito por moradores é parte importante para tal marginalização nas páginas dos livros de História.

“A Batalha do Jenipapo foi feita por lavradores, ex-escravos, moradores humildes, que pegaram armas consideradas toscas para enfrentar os portugueses. Há um menosprezo por parte da historiografia oficial [aquela que o país que narrar] porque não havia um líder, um nome de grandeza como Dom Pedro I ou Deodoro da Fonseca. A história quer contar que houve um grande nome a romper a ligação política existente. Também havia pouquíssimas registros nacionais à vista desses positivistas, que deram crédito aos escritos de Portugal”, explicou.

FESTA UMA VEZ NO ANO SÓ EM CAMPO MAIOR

Anualmente, o dia 13 de março recebe homenagens em Campo Maior. Há entrega de títulos para políticos, pronunciamentos e encenações. A maior crítica dos historiadores está justamente no caráter restritivo da celebração, que não se expande aos 224 municípios. A capital, ainda que perto do berço da batalha, praticamente não tem participação.

“O Monumento passa 364 dias jogados às traças, é lembrado uma vez no ano. Somente no dia da Batalha é que vem alguém aqui para celebrar a data. É preciso mais empenho, mas especialmente da iniciativa civil: famílias, escolas que possam visitar, contar a história. É toda uma reconstrução dessa fagulha que ainda existe para não cair no esquecimento e ser melhor compreendido. É preciso investir no monumento a nível nacional, chamar um presidente para conhecê-lo. Mas, não vejo luz nenhuma no fim do túnel”, avaliou Paixão.

NÃO É FERIADO

O dia 19 de outubro de 1822 é feriado estadual. A data se refere à independência do Piauí à Coroa Portuguesa. Mas, foi em 13 de março de 1823 que tal liberdade política se concretizou. Esse dia, porém, não é feriado.

“Em outubro, há programas especiais, uma cobertura sobre o porquê a data é tão importante ao Piauí, como tudo aconteceu. É feriado, então as pessoas estão em casa, param para assistir. O que as fazem também lembrar da data. O que nem sempre acontece quando se fala no dia da Batalha do Jenipapo”, continuou o professor Coelho.

Iara Guerra conclui que é preciso um empenho maior para despertar o interesse da geração mais nova. Para que a história não se perca no esquecimento como aconteceu por mais de um século.

“É preciso explicá-los porque é importante, qual a história do Piauí. O conteúdo estudado não serve somente para o Enem, mas para a própria identidade patriótica. As homenagens feitas são restritivas porque são voltadas para autoridades e intelectuais, o público não participa, apenas assiste. É preciso uma nova abordagem sobre a data para manter viva uma parte importante da nossa história”, finalizou Guerra.

Fonte: OitoMeia
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