Ex-atores mirins relatam bullying, saudade de casa e sonho de voltar a atuar

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A era das reprises, causada pela pandemia, mas também pelo crescimento de canais como o Viva e das plataformas de streaming, trouxe de volta atores e atrizes que não víamos há muito tempo e, com elas, a famosa frase “por onde eles andam agora?”.

As crianças despertam uma curiosidade ainda maior. As feições estão diferentes, mas a sensação de familiaridade está ali. Sérgio Malheiros, 28, e Kiria Malheiros, 16, no ar atualmente em “A Cor do Pecado” (2004) e “Império” (2014), respectivamente, continuam atuando, mas muitos outros se afastaram da TV.

Felipe Latgé, 26, que contracenou com Sérgio Malheiros em “A Cor do Pecado” (Viva), trabalha hoje como diretor de arte em uma agência de publicidade e diz que a decisão de para de atuar não foi difícil, mas natural. “Fui perdendo o interesse”, afirma.

Latgé tinha nove anos quando interpretou Otávio na trama, mas sua carreira já tinha começado bem antes, após ser descoberto na rua. “Tinha 3 anos quando fiz ‘Torre de Babel’ [1998]. Fui fazer um teste e as coisas meio que foram acontecendo”, recorda.

A história é parecida com a de Kaic Crescente, 17, no ar atualmente na reprise de “A Vida da Gente” (Globo, 2011). No folhetim, ele dá vida a Tiago, mas começou com apenas dois anos, com comerciais, após ser descoberto por um caçador de talentos.

“A gente deixou São Paulo e veio para o Rio para passar um ano, mas no fim ninguém queria voltar. Fiz uma transação de agência e já comecei a procurar outros trabalhos, fiz comerciais, As Aventuras de Didi e depois ‘A Vida da Gente’, eu tinha 10 anos.”

A mudança de endereço também foi necessária para Jesuela Moro, 16, que fez a pequena Júlia de “A Vida da Gente”. No caso dela, deixar São José dos Pinhais (PR) em direção ao Rio tinha o objetivo de buscar uma oportunidade, que logo apareceu.

“Me chamaram para um teste e, entre mais de 20 meninas, fui selecionada. Não tinha nenhuma experiência, nunca tinha feito cursos ou tido contato com o meio artístico”, recorda ela, que foi com a mãe, enquanto os irmãos mais novos ficaram com o pai.

Do dia a dia, os três têm recordações parecidas: muito carinho e ajuda nos bastidores e naturalidade em relação ao trabalho. “Tinha dia com muitas cenas para gravar e outros com poucas, lembro que ficava triste quando eram poucos”, brinca Moro.

“Pelo fato de ter começado muito cedo [a carreira de ator], acho que faz parte das minhas primeiras memórias. Então era muito natural, como ir para a escola”, afirma Latgé, que era acompanhado pelo avô nas gravações nos Estúdios Globo.

Crescente diz que decorava falas antes de saber ler, e pedidos de autógrafo antes de aprender a escrever. “Eu fazia o maior sucesso, os professores achavam um barato. Quando aprendi a escrever, me esforcei para ter letra bonita para o autógrafo.”

BULLYING E SAUDADE

Mas nem todas as lembranças são positivas dos atores mirins. Felipe Latgé recorda que dar vida a Otávio teve o lado ruim. O personagem, filho de Giovanna Antonelli na trama, sofria com as maldades da mãe e era enganado sobre quem era seu pai.

“Era um papel que as pessoas não gostavam muito, acho que não era só na escola [que acontecia o bullying]. Na rua, as pessoas davam uma implicada também, falavam algumas coisas”, diz ele, que fez alguns filmes depois de “A Cor do Pecado”.

A carreira de ator de Latgé terminou por volta dos 13, 14 anos. “Não estava mais tão interessado. Fiquei muito tempo atuando, era um pedaço muito grande da minha vida, e não foi uma escolha difícil parar, foi natural, só fui mudando os interesses.”

Hoje, ele afirma que não gosta nem de rever seu trabalho.

“Nunca me vi, nem da primeira vez, não me sinto confortável”, afirma. Morando em Niterói, Latgé diz ser “muito low profile das redes”, mesmo com o aumento das interações com a reprise.

O bullying também foi um problema para Jesuela Moro, assim como a saudade. Ela recorda que a falta que sentia dos irmãos ficou muito grande, a ponto de ela e a mãe desistirem de ficar no Rio. “Começou a ficar pesado ver eles uma vez por mês”, diz.

“O bullying ficou complicado depois que voltei para o Paraná. As crianças assistiam às minhas cenas na minha frente, me deixavam sem graça. Na verdade, me achavam metida, eu era a menininha metida da Globo, não tinha oportunidade de me mostrar.”

NOVE ESCOLAS E 112 PONTOS

Devido ao bullying, Moro conta que mudou de escola nove vezes desde que retornou ao Paraná. Hoje, com 16 anos, ela está concentrada em terminar o ensino médio em uma escola totalmente online. A ideia é ter mais tempo para seus projetos de atriz.

“Confesso que o bullying me fez desanimar do meio artístico. Mas, no ano passado, eu comecei a lidar melhor com isso, fiz teatro e farei uma websérie, estou fazendo preparação”, conta ela, que deve ir ao Rio nas próximos meses para o projeto.

Segundo ela, que não perde um episódio da reprise de “A Vida da Gente”, retomar a carreira de atriz não é seu principal plano, mas seu único. Os comentários por causa da reprise e o ganho de seguidores nas redes sociais por causa disso a incentivam.

Plano semelhante tem Kaic Crescente, que acabou deixando a vida artística por causa de um acidente de carro que sofreu quando ainda tinha 13 anos. “Foi bem grave. Levei 112 pontos no rosto, quebrei a perna, fui forçado a me afastar dos trabalhos.”

Crescente conta que já tinha sido aprovado para outra novela quando precisou parar para se recuperar. “Mas a vontade de atuar nunca foi embora. Gostaria muito de voltar. Passei por várias cirurgias, na perna e no rosto, fiz seções de laser”, conta.

Concluindo o ensino médio, ele diz que retomar a carreira de ator é seu plano A. Mas se precisar de um plano B ele também tem. “Seria algo dedicado aos animais, veterinária ou biologia. Tenho um mini zoológico, com cachorro, duas araras e uma cobra.”

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